3 de março de 2024
Walter Navarro

Fernanda tão forever Young


“E, mesmo assim, estarei sempre pronta para esquecer aqueles que me levaram a um abismo. E mais uma vez amarei. E mais uma vez direi que nunca amei tanto em toda a minha vida”.
Eu estava quietinho na cama, pensando na madrugada de isopor que tive, enquanto não muito longe da minha cama, Fernanda Young estava morrendo.
Eu estava deitado, falando com minha irmã, ao telefone. A TV sem som, fazendo moldura para mais um domingo, quando apareceram imagens de Fernanda na TV.
Li as legendas, terminei a conversa rapidamente, com um “ligo depois”.
Peguei uns depoimentos: Tony Ramos, Luiz Fernando Guimarães, Zeca Camargo… E porque perdi o início da reportagem, não sabia como ela tinha morrido, tão Young, aos 49 anos, num sítio, em Minas.
“Uma pessoa olhando para um celular que não toca – não há cena mais idiota. Os celulares foram justamente inventados para que ninguém precise mais ficar aguardando uma ligação ao lado do telefone”.
Fiquei, como um idiota, aguardando, não uma ligação no celular, mas o repeteco da notícia completa, mas quem apareceu na TV foi o Léo Jaime, cantando, dançando e conversando com Bial, como se Fernanda não tivesse morrido.
E Léo Jaime fechou o programa, cantando “Preciso dizer que te amo”.
Lá fora o Brasil continuava acontecendo, em mais uma manifestação verde e amarela, na Praça da Liberdade.
Na Savassi, uma feira de livros.
Foda-se! Fiquei pensando na noite de isopor e em Fernanda Young.
Fernanda, primeiro, bonita e gostosa. Depois ainda mais gostosa e bonita quando descobri como ela escrevia mágica e magistralmente, coisas delirantes, agressivas, verdadeiras, engraçadas.
Lembrei das fotos dela na Playboy, em 2009. Logo, ela tinha 39 anos.
Ela estava linda na Playboy, branca, cheia de tatuagens, um tesão. Pena que muito peluda, lá, na Zona do Agrião.
“Acho sim, que, às vezes, dou trabalho. Mas é como ter um Rolls-Royce: se você não quiser ter que pagar o preço da manutenção, mude para um Passat”.
Gosto do Danilo Gentili, mas desconfio que ele não é muito chegado em mulher…
Vejam o que ele escreveu sobre Fernanda na Playboy:
“Vi a Playboy da Fernanda Young. Ela é reta e cheia de desenhos… Só não digo que é o tapete do Alladin porque o tapete faz o cara subir”.
“A nudez de Fernanda Young é como ela disse: intelectual. É quase um teste de QI. Você é inteligente? Então não compre a revista”.
Frases inteligentes, debochadas, irônicas, cruéis, engraçadas, mas nada a ver.
Fernanda sempre foi muito bonita e gostosa. E juro, ainda tenho a revista. Quem não viu pode ver no Google.
Tinha nada de reta, ao contrário, curvas bem convidativas. Muito sensual, nada vulgar.
“Eu não entendia, não entendo e nunca poderia entender – veja bem, ela dizia me amar. Sim, claro, eu sou uma doente mental que acredita no que nos dizem…”.
Nunca li nenhum de seus 14 livros. Mas, em entrevistas, sempre dava pra ver a inteligência à flor da pele tatuada.
Ela era agressiva, sim, certamente uma máscara, uma defesa, para enfrentar este Brasil tão burro, machista e hipócrita.
“Não gosto de perder as minhas coisas, você sabe. E hoje, cercada pela sua ausência, procuro o que procurar. Experimentando o desânimo da busca desiludida. Pois, se um amor como aquele acaba dessa maneira, vale a pena encontrar um outro? Será inteligente apostar tanto de novo?”.
Fernanda é da linhagem Rita Lee. Tinha nada de “mocinha” e sexo frágil. Mulherão em todos os sentidos.
E trabalhava com o marido, Alexandre Machado. Não dava pra saber que textos ou frases eram de um ou de outro. Mas a marca da pantera Fernanda estava lá, principalmente no infinito, adorável, sedutor, misterioso e indecifrável universo feminino.
“Eu sou mole demais por dentro para deixar todo mundo ver. Eu deixo para quem eu acho que pode comigo. Ninguém sabe. Mas eu tenho coração de moça”.
Como há séculos não vejo TV aberta, a última lembrança que tenho de um roteiro de Fernanda, é a série “Os Normais”, de 2001, na Globo. Uma delícia, ainda mais picante, por causa da dupla Luiz Fernando Guimarães e Fernanda Torres. Outra Fernanda, outra mulher linda, forte e talentosa.
“Existem pessoas que tornam a tolerância tão difícil, que esta deveria ser considerada praticamente em superpoder”.
Alguns livros de Fernanda Young: “O Pau”, “A Mão Esquerda de Vênus”, “Vergonha dos Pés”…
“Mas quando for a hora de ir embora
sei que, sofrendo, deixarei você longe de mim.
Não me envergonharia de pedir ao seu amor esmola, mas não quero que o meu verão resseque o seu jardim”.
Fernanda que tinha nada de mineira, muito pelo contrário, foi morrer justamente em Minas, este cemitério de ferro. O enterro está acontecendo agora, em São Paulo.
“Eu estou em paz. Me dei conta de que não sou eu quem sai perdendo nessa história. Ponto pra mim. Rumo ao zero absoluto. Zerar todo e qualquer sentimento. Me esvaziar para encher de novo depois, com sentimentos fresquinhos como a primavera”.
Deve ser muito triste ser viúvo de Fernanda Young.
Não sei se vou ler seus livros. Talvez. Ou não. Mas a Playboy dela está por aqui e quem procura acha.
Lá ela vai ficar, forever Young, linda, jovem, inatingível, uma rosa tatuada.
“Mulheres tarja preta, contra indicadas, que causam dependência física não há de vez em quando, toma-se uma dose já desejando outra”.
Fernanda era tarja preta, não para amadores, muito menos principiantes.
“O amor não se transforma, ele se esgota, e a gente vai levando, por vários motivos. E, saibam, muitos desses motivos não são nada nobres”.
Entre aspas covardes, enchi este texto com frases de Fernanda Young. Gosto até das vírgulas e em sua homenagem deixo, com um beijo, só isso:…
ps: “Sinceramente, abro mão. Vou atrás de um outro jeito de viver a minha vida, já que em qualquer situação diferente estarei lucrando. Bom é isso, se agora isso ainda me causa alguma tristeza, tudo bem. Não se expurga um câncer sem matar células inocentes”.
ps2: “É preciso ter tristeza. Tristeza não é ruim. Quase todo mundo só quer escutar musiquinhas alegres, ir dançar em lugares barulhentos, ficar falando o tempo inteiro. Porque eles tem medo da tristeza. Mas não é a tristeza que mata”.
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Walter Navarro

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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