24 de maio de 2022
Walter Navarro

Eu ia se eu fosse

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Eu ia escrever sobre a vitória líquida e certa (para mim) do Donald Trump no Haiti. Mas até na Albânia já entenderam deram isso e claro, deve ser legal ser negão lá no Senegal, onde o Obama nasceu, segundo Trump. Não tem mais graça escrever sobre o óbvio urrante. Não escrevo ululante pra não me lembrar do Lula.
Eu ia escrever sobre a chuva que custava a chegar, mas ela chegou.
Eu ia escrever sobre o 15 de Novembro, nosso segundo 7 de Setembro, mas me deu vergonha. Uma República que começa exilando um brasileiro inteligente, um estadista de verdade, um artista nas horas vagas, um grande homem, um ícone da civilização, como D. Pedro II, não pode terminar bem. Vejam aí o resultado, depois que ímpios e selvagens tomaram o poder.
Eu ia escrever sobre Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto e as Alagoas do Collor, mas passa mais tarde. Guarda pro Réveillon. Deixa pra depois da chuva que chegou.
Eu ia escrever sobre química, eu ia confessar que odeio química pela metade. Pela metade porque não sei se eu gostava da orgânica ou da inorgânica. Uma era fácil e gostosa, a outra era impenetrável como a matemática e certas mulheres. Não que eu odeie matemática, é que, coisas que não entendo me irritam. Tipo número negativo e zero ao cubo. Matemática pra mim é grego, chinês, hebraico antigo, alemão turíngio da baixa germanidade saxônica.
Eu ia escrever sobre a chuva e o tempo bom.
Eu ia escrever sobre coisas que me preocupam como me preocupo com meu primeiro par de meias.
Eu ia escrever sobre a súbita vontade comer bifes pela manhã e a música “Cowboys and Angels”, do George Michael. Ou sobre David Bowie em Lisboa ou Nova York e Leonard Cohen em Paris ou Nova York.
Eu ia escrever, finalmente, sobre dois ótimos filmes que eu nunca tinha visto ultimamente.
Um é “Criminosos e Anjos” e o outro, “Elle”, com Isabelle Hupert, mais Isabelle que jamais.
Ambos me lembraram a frase, “Só o Sombra sabe o mal que se esconde nos corações dos homens”.
Só o Sombra não. O Nelson Rodrigues também. E “Elle” consegue ser mais Nelson Rodrigues que Nelson Rodrigues.
Nelson que escreveu: “Se cada um soubesse o que o outro faz, entre quatro paredes, ninguém se cumprimentava”. E olha que “Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo, podia-se andar nu”.
Eu ia escrever sobre a falta de assunto e sobre o excesso de assuntos, de Trump a Tramp. E Vamps.
Eu ia escrever que eu sonho que eu durmo.
Eu ia escrever sobre prazos. Prazos de escrever e enviar crônicas. Sobre esquecer prazos e ter que improvisar uma crônica sobre o que eu ia escrever.
PS: Eu ia, prometo e espero escrever sobre tudo isso. Mas hoje eu não posso porque estou na casa da minha amiga Nely e preciso enviar este texto dentro de 16 minutos.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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