28 de maio de 2022
Walter Navarro

Dom Ratton


“Será enterrado às 13h desta terça-feira (2) no Cemitério do Bonfim o corpo do roteirista e dramaturgo Carlos Alberto Ratton. Morto na noite desta segunda-feira (1), aos 76 anos, no Hospital Madre Teresa, Ratton havia descoberto tardiamente um câncer no pulmão, “sem possibilidade de tratamento”, informou seu irmão, o cineasta Helvécio Ratton”.
Corrigindo, atualizando: “Foi enterrado, hoje, às 13h desta terça-feira (2) no Cemitério do Bonfim o corpo do roteirista e dramaturgo Carlos Alberto Ratton. Morto na tarde de ontem…”.
Noite ou tarde. Não importa, foi ontem, foi cedo.
Eu já sabia que ele estava de partida, não desde sempre, mas desde sexta. Era para ter sido sábado, no máximo domingo, “mas ele não queria partir…”. Acabou sendo ontem, quando eu voltava para Barbacena.
E por estar em Barbacena, ando perdendo chegadas, festas e partidas, o que é chato, às vezes imperdoável, provável e certamente pela última vez.
Logo eu que sempre recitei e conjuguei Vinicius: “Para isso fomos feitos: para lembrar e ser lembrados. Para chorar e fazer chorar. Para enterrar os nossos mortos? Por isso temos braços longos para os adeuses”.
Carlos Alberto Ratton, meu caro e personal D. Ratton, não era para principiantes. Em compensação, também não era para amadores.
Não era de dar tapinhas nas costas, a facada era de frente mesmo, de cabra macho.
Quando gostava de um texto meu não economizava elogios. Quando odiava, tadinho de mim.
Prefiro opiniões e gente assim.
Certamente já teria reparado ou inventado uns 69 erros aqui.
Nestes tempos estranhos, onde pingos viram letras e parágrafos, nem vou contar as melhores histórias com Ratton como cúmplice. Calma! Era nenhum crime, mas muitos não entenderiam e aí mora o perigo.
Prefiro lembrar as noites e porres.
Prefiro lembrar os comentários que desmoronavam montanhas com pés de brejo, sem perdão.
Como todo inteligente, Ratton era engraçado. E seu humor, digamos, também não era para os fracos. E não estou me promovendo à categoria dos fortes, OK?
Conheci Ratton, mui provavelmente, na antiga e saudosa Livraria da Travessa, Savassi. Mas ele não era um “habitué”, eu sim.
Por várias vezes lá nos revimos, entre whisky e livros. Discussões sérias e bobagens deliciosas.
Mas já ouvi sua voz rouca; vi seu sorriso irônico, fatal, em outras praias e plagas que passarinhos não bebem.
Às vezes me dava carona, em outras era meio difícil, ainda que fôssemos vizinhos de Sion.
Falava sempre dos roteiros que escrevia, mas não mostrava. Vivia participando de concursos e ficava feliz quando conseguia emplacar suas imaginações. Mas isso é história pra boi dormir.
Uma vez fomos ao… Deixa pra lá. Depois passamos na… Deixa pra lá… A noite acabou com, deixa pra lá…
Outra vez foi saindo da mesma Travessa…
Uma vez ele foi lá em casa e não fez muito sucesso entre os convidados.
Mas, outra vez, quando precisei, deixo pra lá não, ele me ajudou, estava lá…
E agora ficou.
Bye-bye Charles Albert! O roteiro deve continuar, mais ou menos assim porque: “Assim será a nossa vida: uma tarde sempre a esquecer, uma estrela a se apagar na treva. Um caminho entre dois túmulos?”.
PS: “Pois para isso fomos feitos: para a esperança no milagre, para a participação da poesia, para ver a face da morte? De repente nunca mais esperaremos… Hoje a noite é jovem; da morte, apenas nascemos, imensamente”.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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