7 de julho de 2022
Walter Navarro

Alcatraz, Ilha do Diabo e Bangu

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Finalmente, neste Brasil seminovo, que nunca vai ficar pronto para consumo saudável, a vida imitou as belas artes.
No caso, a prisão dos dois ex governadores do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho e Serginho Cabral. Por incrível que seja, eles não são do PT, mas do PMDB, o que é a mesma coisa!
A prisão dos Irmãos Metralha, lembrou-me antiga e ótima novela da Globo, a primeira em cores, “O Bem Amado”, de 1973.
Os muito jovens nem devem saber que o autor da novela era Dias Gomes. Nem quem tinha o papel principal, o grande e saudoso Paulo Gracindo. Já naquela época, Gracindo, como o prefeito da fictícia cidade baiana de Sucupira, Odorico Paraguaçu, era a síntese e uma sátira ao típico político brasileiro. Era a mistura feroz de Renan Calheiros, com Romero Jucá, Eduardo Cunha, Jader Barbalho, Lula, Cabral, Garotinho, Maluf, ACM, Sarney, etc. A única diferença: Odorico era engraçado!
Odorico era corrupto, devasso – traçava as Irmãs Cajazeiras com licor de jenipapo – e sem escrúpulos. Cometia até crimes, vejam se é possível! Tudo, para inaugurar sua principal obra; não um hospital, uma escola, um presídio, mas o cemitério. O problema de Odorico é que ninguém morria, nem mesmo o suicida Libório; nem contratando os serviços de um matador profissional, Zeca Diabo (Lima Duarte). Por ironia, o cemitério só foi inaugurado quando Zeca Diabo mata o próprio Odorico.
Sergio Cabral está preso na prisão de Bangu que inaugurou, cujos serviços são bem diferentes dos restaurantes e hotéis de luxo que frequentava em Paris, Mônaco. Garotinho, esperneando e chorando ficou internado e trocou as fraldas borradas, não na rede D’Or, mas no hospital do mesmo presídio.
Aí voltamos àquela ideia. Quem sabe agora, com os políticos experimentando do próprio veneno, não investem em presídios e hospitais mais humanos? Em educação, segurança, cultura e ética. E melhor, quem sabe, com o fim da impunidade, a corrupção pelo menos diminua pelo medo?
Afinal, quem tem “pescoço em francês” tem medo, como reza o dito popular.
E vem mais por aí… Imagino quantos ex, atuais governadores e presidentes, vendo Garotinho e Cabral já acionam advogados, subornos, fraldões e até fuga!
O cinema é pródigo em filmes sobre presídios horríveis, como em “O Expresso da Meia Noite” que até hoje mancha a imagem da Turquia. Filmes sobre presídios, um Spa de violência, sujeira, tortura, maus tratos, fugas, etc. Filmes sobre culpados e inocentes presos. Em “Brubaker”, tínhamos Robert Redford, o novo diretor, disfarçado de prisioneiro para apurar as ilegalidades na instituição. Em “A Última Fortaleza”, lá está de novo Redford, “quase inocente”, sofrendo horrores.
Em “Alcatraz – Fuga Impossível”, é a vez de outro anti-herói, Clint Eastwood, fazendo o impossível.
No filme “Papillon”, a inesquecível dupla, Steve McQueen e Dustin Hoffman, na Ilha do Diabo, comendo o pão que o dono da ilha amassou, na Guiana Francesa dos anos 30. Sobre campos de prisioneiros de guerra, temos outros clássicos, como “A Ponte do Rio Kwai”, com Alec Guinness e William Holden; “Furyo – Em Nome da Honra”, com David Bowie, entre muitos outros; “Em Nome do Pai”, “O Conde de Monte Cristo” e chega!
O Brasil do Século 21 também está me lembrando um livro do Século 19, “O Alienista” (1881), de Machado de Assis.
É a tragédia do Dr. Simão Bacamarte, não em Barbacena, mas na pequena Itaguaí, que resolve se dedicar à psiquiatria e constrói na cidade o manicômio Casa Verde para abrigar todos os loucos da cidade e região.
Para resumir, em pouco tempo o local fica cheio e ele vai ficando cada vez mais obcecado pelo trabalho. Por fim, a cidade encontrava-se com 75% de sua população internada na Casa Verde. O alienista Dr. Bacamarte, percebendo que sua teoria estava errada, resolve libertar todos os internos e refazer sua teoria: loucos erma os bons e honestos. Após algum tempo, Simão Bacamarte percebe que sua teoria mais uma vez está incorreta e manda soltar todos os internos novamente. Como ninguém tinha uma personalidade perfeita, exceto ele próprio, o alienista conclui ser o único anormal e decide trancar-se sozinho na Casa Verde para o resto de sua vida.
O Dr. Simão Bacamarte não parece o triste fim do Dr. Sérgio Moro?
Espero que não.
Quanto aos políticos presos, o buraco é mais embaixo. Nossos Garotinho e Cabral têm nada de Paulo Gracindo, Robert Redford ou David Bowie. E o mais importante, não são personagens de ficção, nem estão presos por erro da Justiça.
PS: Mas a situação e o futuro de nossos políticos presos não são tão dramáticos. O Brasil não é Cuba, China, Coréia do Norte, nem a França na época da guilhotina.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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