21 de maio de 2022
Vera Vaia

Joia cara!


Como já tem preso saindo pelo ladrão, ou pelos buracos que abrem facilmente nas paredes dos presídios, juízes em geral optaram por mandar alguns pra casa antes do tempo, usando tornozeleiras eletrônicas.
Uma lei aprovada em 2010 aprovou o uso das tais tornozeleiras e de lá pra cá, quase vinte mil pessoas passaram a usar o “adorno”. A turminha da Lava-Jato tem colaborado bastante para o crescimento desse segmento.
Até que seria uma boa saída, se não fosse no Brasil. Esses presos abririam vagas para os criminosos mais criminosos, e eles poderiam ficar em suas casas, assistindo à sessão da tarde, monitorados pela polícia.
O que eles não contavam é que muitos deles não gostam de ver TV, então arrebentam suas tornozeleiras e saem livremente pelas ruas praticando toda espécie de delito. E também não contavam que do outro lado, o lado que seria o da justiça, outra espécie de bandido estaria agindo e tirando vantagem disso.
A fraude das tornozeleiras é mais uma bomba estourada no falido Estado do Rio de Janeiro.
Como funcionava? Assim ó: o governo que já não tinha dinheiro nem para pagar seus funcionários, tinha de bancar as peças. (No ano passado, deputados estaduais do Rio de Janeiro, aprovaram um projeto de lei, que obrigaria o preso a comprar a sua própria tornozeleira). E como acontece em todo governo, uma licitação é aberta para que se escolha o menor preço. Certo? Errado! Pelo menos quando o responsável pela compra delas vem a ser o ex-titular da Secretaria de Administração Penitenciária, o ilustre senhor Cesar Rubens Monteiro de Carvalho, que simplesmente não autorizava a empresa que apresentava o menor preço, a participar das licitações.
E como ele fazia isso? Manipulando termos do contrato original e alterando ou ocultando os preços das empresas concorrentes. No lugar de pagar R$ 240,00/mês por tornozeleira, ele optava pela empresa que oferecia as mesmas peças pela bagatela de R$ 660,00/mês. Por quê? Porque elas eram de melhor qualidade? Não! Porque essa empresa beneficiava o grupelho que articulou o plano. Cada um levava sua parte.
Mas esse Cesar Rubens evidentemente não agia sozinho. Autoridades da Segurança Pública do Rio e funcionários da Seap (Secretaria de Estado de Administração Penitenciária) se uniram para que o consórcio de Monitoramento Eletrônico  de Sentenciados, liderado pela Synergye Tecnologia da Informação Ltda, levasse a melhor. Era total a sinergia entre o bando que, só entre 2012 e 2014 causou um rombo de mais de 12 milhões de reais ao Estado do Rio.
Nessa semana, o Ministério Público, junto com a Delegacia Fazendária da Polícia Civil, deflagrou a operação Zuzá (segundo o Dicionário Ilustrado Tupi Guarani, zuzá é aquele chocalho de tornozelo usado pela tribo dos Paresi), oito mandados de busca e apreensão foram cumpridos nas casas dos acusados. Numa delas, de propriedade do ex-superintendente de Logística da Seap, o coronel reformado,  Sérgio do Monte Patrizzi, encontraram uma pistola de mira laser, proibida pelo estatuto do desarmamento, prontinha pra uso. Só por esse detalhezinho, esse senhor já se encontra devidamente encarcerado. Os outros foram indiciados por improbidade administrativa e tiveram suas contas e bens bloqueados.
Vamos esperar que esses digníssimos senhores, além de devolverem o dinheiro, sejam todos presos e que fiquem na cadeia por muito tempo. Porém, se algum juiz quiser mandá-los pra casa, que os obrigue a comprar suas próprias tornozeleiras. E já que eles não se importam com o preço, que comprem na Tiffany, que é mais chique!

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Mãe de filha única, de quatro gatos e avó de uma lindeza. Professora de formação e jornalista de coração. Casada com jornalista, trabalhou em vários jornais de Jundiaí, cidade onde mora.

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