30 de maio de 2024
Editorial

No final a culpa será do cachorro?

Foto: Arquivo Google

Colocar em risco a saúde da população ultrapassa os limites da irresponsabilidade gananciosa. Fala-se de um crime que, pela sua baixeza, deveria ser qualificado como hediondo. Uma denúncia mobilizou a PF, que pôs em marcha, há dois anos, a operação para apurar ilícitos em frigoríficos. Presume-se que, durante esse tempo, os criminosos continuavam causando danos à saúde dos consumidores. Por que a PF não cortou o mal pela raiz? Para alguns a PF não agiu bem e ficou mal na história.
A Polícia Federal, por sua atuação nas investigações que resultaram no desmonte de organizações criminosas nas altas esferas do poder, tem tido o justo reconhecimento da população. Na Operação Carne Fraca, acompanhava há dois anos crimes contra a saúde pública, mas não fez o que deveria: sustar de imediato as práticas criminosas. Isso pegou mal.
Governo e Ministério da Agricultura culpam a Polícia Federal de ter sido precipitada, que deveria, antes, ter consultado o ministério sobre as irregularidades que ocorriam há muito tempo nos frigoríficos. Ora, se os órgãos de controle e fiscalização funcionassem a contento e pessoas sem escrúpulos não se vendessem a superiores, este e outros fatos não teriam ocorrido. Por outro lado, se alertados com antecedência, tudo seria “abafado’. Os fatos são graves e com prejuízos à nossa economia, mas a verdade deve ser apurada e todos os envolvidos punidos, até o mais alto escalão.
Por que, no Brasil, quem faz o certo está sempre errado? Se os frigoríficos não queriam propaganda negativa que não permitissem atos ilícitos de seus participantes que, com certeza, afetam a todos. Agora, culpam a PF, que desempenhou sua função de forma certa pelo erro de outros.
A cena do churrasco presidencial foi patética. O marqueteiro poderia ter poupado o primeiro mandatário do constrangimento. A entrevista do titular do Ministério da Agricultura foi na mesma toada. Era de se esperar que uma autoridade tão experiente apresentasse um discurso mais sóbrio e profissional. O estrago já está feito, e cabe às autoridades as ações necessárias para corrigir e prevenir. Buscar na PF o proverbial bode expiatório é a verdadeira idiotice.

Foto: Jornal do Comercio – UOL

E para terminar, uma parábola brasileira, de autoria do leitor Cândido Espinheira Filho sobre a Operação Carne Fraca:
“Madrugada, o cidadão é acordado com latidos de seu cãozinho. Sai da cama para verificar o que está ocorrendo e leva um tiro do ladrão que já estava em sua casa. A culpa foi do cachorro que latiu”.
Desta forma, a operação da PF é que fica como culpada?

Valter Bernat

Advogado, analista de TI e editor do site.

Advogado, analista de TI e editor do site.

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