1 de julho de 2022
Sylvia Belinky

Solidão em companhia


Há pessoas que são capazes de escrever ou dizer exatamente aquilo que gostaríamos de ter escrito ou falado.
Também, há momentos em que estamos mais abertos a ler e nos imbuir desse sentimento de pertencimento, como no caso dos “Javalis Selvagens”, adolescentes da Tailândia que ficaram presos numa caverna juntamente com seu guia, por 12 dias. De repente, de todos os lugares do mundo, dos mais recônditos aos mais em destaque, a humanidade pareceu aflorar em todos que reuniam condições de ajudar, tanto com o elemento humano, porque sabia fazer mergulho de resgate, ou com tecnologia, porque dispunha de novos equipamentos, especiais para casos análogos – e, para lá, foram todos ajudar no resgate…
Na semana passada, ao ler um artigo de Bolívar Lamounier, no Jornal O Estado de São Paulo, tive a sensação de que não temos qualquer saída: a ética entre nós inexiste e, se assim não fosse, teríamos a certeza de que atravessamos um momento em que a melhor saída seria nos dedicarmos à distensão e pacificação, o que certamente nos traria mais ganhos do que continuarmos com o acirramento. Mas, ao que parece, isso diverte à maioria…
Jornalista excepcional, Lourival Sant’ Anna também me impressionou sobremaneira, quando relata ter recém encerrado uma viagem de 50 dias por regiões rurais de seis países africanos. Nesses locais, em sua grande maioria, não havia eletricidade e, por consequência, tampouco tinha internet ou celular. E ele diz textualmente:”pude ter contato com algo que anda esquecido: o valor da confiança, da palavra empenhada.” E finaliza: “precisamos ser capazes de recuperar isso, sem termos de abrir mão da eletricidade e da internet”…
Não deixa de ser interessante imaginar como ficaríamos sem celular e sem internet; como ocuparíamos nossas mãos, nossas mentes, como seria voltar a nos comunicar olhando uns nos olhos dos outros…
Hoje, mais sós do que nunca, todos  permanecemos presos a uma tela particular…

Tradutora do inglês, do francês (juramentada), do italiano e do espanhol. Pelas origens, deveria ser também do russo e do alemão. Sou conciliadora no fórum de Pinheiros há mais de 12 anos e ajudo as pessoas a "falarem a mesma língua", traduzindo o que querem dizer: estranhamente, depois de se separarem ou brigarem, deixam de falar o mesmo idioma... Adoro essa atividade, que me transformou em uma pessoa muito melhor! Curto muito escrever: acho que isso é herança familiar... De resto, para mim, as pessoas sempre valem a pena - só não tenho a menor contemplação com a burrice!

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