14 de agosto de 2022
Sylvia Belinky

Saudades antecipadas dos livros


Após a leitura do melancólico artigo de Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, a propósito da situação desesperadora das livrarias, das editoras, todas prestes a fechar as portas, pensei no quanto isso me entristece e quão despreparada me encontro para conviver com isso, quis dar meu testemunho – que, aliás é um pedido dele, que nos manifestemos.
Que grande tristeza o fechamento de livrarias e editoras; que grande perda para todos que nos acostumamos com a companhia de um livro…
Também é muito triste a tentativa de recuperação judicial da Editora Abril e os jornais tão tradicionais não mais serem objeto de manuseio diário…
É. O tempo passa e tem se mostrado inclemente com tudo o que não for rapidamente comido; tão rapidamente que sequer lhe sentimos o gosto, não mais são digeridos mas digitalmente fulminados…
Antiquada, não consigo deixar ler a minha revista semanal, deixar de folhear meu jornal, que chega em papel no final de semana; em sua maioria, trazem novidades requentadas mas que, de repente, nos chamam a atenção para algo que, antes, pareceu pouco importante. Uma análise num artigo de alguém inteligente, que reparou em algum detalhe que me passou despercebido e que, na verdade, nem é detalhe: é tão importante que mereceu um artigo… Oba! Bora pensar nisso sob esse novo ponto de vista!!
Quantos autores, quantos diagramadores, revisores, capistas… será que eles também vão desaparecer como vaticinaram que acontecerá às profissões que dentro de cinco, dez anos no máximo, vão ficar obsoletas?
Mas, precisamos acordar quem acredita que tudo deva ser digital e descartável: o prazer de folhear um livro, deixando o pensamento e a imaginação vagarem pelas paragens descritas pelo autor – mas criadas por nós!
A generosidade do autor nos permite criar com o descrito por ele! E é certo que se juntássemos as duas versões, uma pouco teria a ver com a outra: a grande graça está nisso mesmo. Cada um de nós tem uma visão criativa diferente; meu tom de lilás certamente não é o de muitas pessoas, nem uma montanha coberta de neve terá a mesma altura ou alvura.
A tremenda oportunidade que um livro nos dá porque apenas descreve e não surge na tela com cores e formas absolutamente definidas é de, momentaneamente, compartilhar a sua inacreditável…magia!

Tradutora do inglês, do francês (juramentada), do italiano e do espanhol. Pelas origens, deveria ser também do russo e do alemão. Sou conciliadora no fórum de Pinheiros há mais de 12 anos e ajudo as pessoas a "falarem a mesma língua", traduzindo o que querem dizer: estranhamente, depois de se separarem ou brigarem, deixam de falar o mesmo idioma... Adoro essa atividade, que me transformou em uma pessoa muito melhor! Curto muito escrever: acho que isso é herança familiar... De resto, para mim, as pessoas sempre valem a pena - só não tenho a menor contemplação com a burrice!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.