1 de julho de 2022
Sylvia Belinky

Prazos de Validade: os remédios… que remédio!

Foto: Arquivo Google

E eis que, não satisfeita em contestar alguns prazos de validade, continuo a ruminar a mesma ideia e, desta vez, com relação aos remédios, campeões dos prazos de validade que nos assombram a vida de modo permanente. E me refiro a todos os remédios, de todos os tipos: “tomáveis” (por todas as vias, oral, injeção e as demais vias que lhes ocorrer) os “pingáveis” (no olho, no nariz, na frieira), “espalháveis” ou “emporcalháveis” (pomadas) e alguns baluartes à tortura, como os “pinceláveis” de antigamente (Azul de Metileno, Colubiazol, Gurgol) que, como funcionavam muito bem para dores de garganta, foram tirados do mercado…
Eu era criança, isso há mais de meio século, quando todos os remédios passavam de pais para filhos, podíamos herdar a “farmacinha” de um avô, de uma avó, do pai, da tia – tanto maior ela era quanto mais hipocondríaco fosse o parente… Caso ele fosse “natureba”- naquele tempo também tinha desses de monte e ainda nem era moda – aí a herança poderia ser de vasos, raízes, bulbos, folhas secas, xaropes…
Lembro-me de uma pomada usada pelas mães quando nos levavam à praia e que servia para proteger do sol as áreas acima das bochechas, o nariz e os ombros: a indefectível e tão famosa Pasta de Lassar! Vinha numa latinha de metal e só se passava uma vez: ficava branco feito gesso e grudado para todo o sempre: proteção indelével! Claro que naquela época ninguém nunca tinha ouvido falar de bloqueador solar, até porque o sol de então era tido como saudável…
Como ela, o famoso Ictiol, unguento para furúnculos e erupções, pretíssimo, também vinha numa latinha de metal… O vidrinho de mercúrio cromo, o do terrível iodo que ardia pra valer… Todas essas preciosidades estariam na farmacinha caso fôssemos viajar… E como lhes digo, nada disso jamais “perdeu a validade” e, o que é melhor, funcionava: um completo e absoluto mistério!
A verdade é que hoje temos, ao invés do clínico geral, que cuidava de todos os elementos da família, do avô ao neto, passando pela mãe e pela tia; sim, porque nessa época eram todas pessoas que tinham um estômago, dois ouvidos, uma coluna vertebral… e se supunha que, ao menos em princípio, serviam para a mesma coisa em cada um dos pacientes! Ademais, era praxe estudar sempre e saber de tudo, no mínimo, um pouco!
Hoje os médicos cuidam de seres que são compartimentados: o que cuida da mão direita não cuida da esquerda e muito menos do punho, que falar dos dedos! O que cuida do intestino grosso não cuida do delgado… Os nossos órgãos, para quase todos os novos médicos, são departamentos estanques.
Acho que, diante dessa constatação, fica mais fácil rir do que chorar, até porque chorar deixa os olhos vermelhos e o colírio para aplacar os olhos vermelhos só existe nos Estados Unidos: não foi aprovado por aqui! Mais um mistério!…

Tradutora do inglês, do francês (juramentada), do italiano e do espanhol. Pelas origens, deveria ser também do russo e do alemão. Sou conciliadora no fórum de Pinheiros há mais de 12 anos e ajudo as pessoas a "falarem a mesma língua", traduzindo o que querem dizer: estranhamente, depois de se separarem ou brigarem, deixam de falar o mesmo idioma... Adoro essa atividade, que me transformou em uma pessoa muito melhor! Curto muito escrever: acho que isso é herança familiar... De resto, para mim, as pessoas sempre valem a pena - só não tenho a menor contemplação com a burrice!

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