Os dinossauros da família


Na família, temos o hábito de chamar de dinossauros aqueles membros mais velhos, representantes de uma época que não existe mais e que, de uma forma ou de outra, nos diz muito: muito de bom e/ou muito de ruim, mas nunca indiferente!
No final da semana passada, foi-se o último dinossauro: uma tia interessante, inteligente, que foi muito linda e que fez toda a diferença em todos os momentos, alegres ou tristes, de praticamente toda a família.
Como escreveu sua filha mais velha, ótima mãe, ótima filha, ótima irmã, ótima amiga… Ótima, enfim…
O que sempre me chamou a atenção foi seu papel de esposa: casaram-se apaixonadíssimos e, enquanto seu marido viveu, foi dele cada segundo de sua vida! Lembro-me de lhe ter perguntado, quando eu tinha 10 anos – muito pequena, portanto – o que eu deveria fazer para ser feliz como ela era com meu tio. Sua resposta não deixou margem a dúvida: “Para ser feliz com seu marido, me respondeu ela, você precisa que ele esteja em primeiro lugar, em segundo e em terceiro lugar para você: só então vêm todos os outros!”
E ela viveu exatamente assim como me descreveu, parecendo adivinhar que seu marido morreria muito cedo e que lhe tocaria viver mais outra metade de vida, sem ele…
Nessa época, eu morria de inveja de meus primos, seus filhos: eles tinham seus pais vivendo juntos. Os meus, numa época em que ninguém se separava, digamos que foram pioneiros na modalidade…
Era uma pessoa prática, tinha uma sabedoria natural e tomava resoluções, em sua grande maioria, acertadas. Dava seu parecer quer ele fosse pedido ou não e quase sempre estava certa, ainda que não fosse exatamente aquilo que quiséssemos ouvir!
Teve uma longa enfermidade e nos deu tempo de nos conformar com o que estava por acontecer, a sua ausência. Às vezes, parecia que sua partida era questão de horas; mas, muitas vezes, isso foi alarme falso… Sua filha mais nova chegou a comentar: “estou me sentindo como o pastorzinho da história que dizia: olha o lobo, olha o lobo, e era alarme falso…”
No seu velório, estavam presentes pessoas cujas vidas ela de alguma forma modificou e sempre de forma generosa! Nele, estranhamente, todos sorríamos, trocávamos abraços saudosos com amigos que há muito não víamos, pedaços de nossa infância, de nossa adolescência, da nossa vida adulta, conferindo quem estava vivo, quantos filhos tinha tido, se tinha netos…
Tive a sensação de perda, mas também a de resgate de momentos maravilhosos que não voltariam mais não fosse esse último papel de aglutinadora generosa de pessoas cuja vida ela, de alguma forma, modificou… e para melhor, ainda que, à época, não tivéssemos nos dado conta disso!

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *