Contra ou a favor


Conversando com amigos sobre notícias que só nos dão tristeza, sempre falando de atos, atitudes e reações extemporâneas e desagradáveis, um amigo comentou: ”mas, só esse tipo de notícia vende e rende conversas”.
E, se pensarmos bem, isso é verdade! Todas as atitudes extremadas, tentativas de cerceamento ou até mesmo de censura são as notícias mais comentadas. E, como os comentários equilibrados são sempre tidos como uma posição “em cima do muro”, você só vai poder concordar 100% ou discordar 100% – fato que encerra as possibilidades de uma troca de ideias produtiva.
Há semana passada, uma notícia chamou a minha atenção: Pepa, um livro infantil escrito por Silvana Rando – que, em 2009, ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura Infantil – foi banido de todas as escolas porque foi considerado um livro com “ideias racistas”, dado que a heroína pensa em alisar seus cabelos.
Entretanto, alisar os cabelos não irá anular o fato de que uma parte considerável das mulheres sempre sonhou em ter cabelos lisos, caindo pelas costas, com um brilho maravilhoso “que apenas o xampu e o condicionador “X” podem proporcionar”…Trata-se de mais um patrulhamento absurdo como foi o que se fez contra a literatura de Monteiro Lobato, também considerada racista.
Ora, todos nós temos nossos demônios inconfessáveis, mas não necessariamente nós iremos, em algum momento da vida, libertá-los. O que se espera é que haja uma compreensão do que não é aceitável, mantendo preconceitos, sejam eles quais forem, contra judeus, contra negros, contra pessoas com limitações intelectuais, devidamente confinados.
Perdemos a noção de civilidade, intimamente ligada à educação que as pessoas deveriam receber em casa. Sim, insisto: em casa. Não há pai e mãe suficientemente ocupados que não possam chamar a atenção dos filhos para atitudes grosseiras, explicando que aquilo não é bom,  bastando perguntar a elas se gostariam de estar no lugar da vítima…
E, assim como podemos não gostar de um determinado alimento – embora todos em nossa casa o consumam com prazer – essa é uma característica que nasceu conosco e não devemos ser crucificados por isso! Mas, se estivermos em casa de alguém que nos recebe, não devemos deixar essa pessoa constrangida porque serviu exatamente o que não gostamos: comer uma vez na vida o que não gostamos certamente não irá nos matar!
Isso também acontece com alguma idiossincrasia nossa a atitudes e pessoas; ou será que quem está lendo essa crônica nunca sentiu uma antipatia absolutamente gratuita por alguém e pronunciou a famosa frase: “Não sei por que, mas não vou com a cara de fulano”? E, ainda que esse sentimento nos cause incômodo, não temos como evitá-lo… Mas, se você for branco e essa pessoa também… você estará a salvo do patrulhamento!
Precisamos encarar o diferente, o gosto ou escolha do outro e aceitar isso como um direito que ele tem. O que achamos, se gostamos ou não, devemos dizer se formos perguntados. E, mesmo nessa circunstância, talvez seja bom escapar pela tangente, se não conseguirmos ser agradáveis: as mentiras brancas (eis mais um preconceito!) existem desde sempre para nos tirar de saias justas do tipo.
Na maioria das vezes, nossa agressividade se aproveita do anonimato da Internet e lá vamos nós, à vontade para sermos a palmatória do mundo. E é aí que mora o perigo. Pois nossos filhos, netos, sobrinhos estão nos observando e esse exemplo irá, necessariamente, frutificar…

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