Beijo na boca


Lembro-me de muitas vezes, quando criança, olhando os velhos, ficar pensando que aquela pessoa que estava ali certamente teria sido sempre daquele jeito, velhinha e engruvinhada…
Mais de meio século depois, quando vi o filme “O estranho caso de Benjamin Button” em que Brad Pitt nasce velho e encarquilhado, aquilo me pareceu absolutamente possível, ainda que o desenrolar da história o levasse ao inverso do que acontece conosco, ou seja, ele ficava mais jovem a cada dia que passava, até virar um bebê – algo bem ao nível de um pesadelo, com certeza…
Ainda hoje, fico observando as pessoas que passam por mim e regulam de idade comigo e que, em princípio, devem ter curtido as mesmas coisas do que eu, quando jovens. E, prestando mais atenção, analiso bem e chego à conclusão que há um sem número de pessoas enrugadas, de cabelos brancos e caras tristes, que de forma alguma poderiam ter gostado ou curtido os Beatles, os Rolling Stones, Elvis Presley, ter ido a baladas, ter namorado, ter beijado na boca…
Elas parecem ter nascido velhas e tristes daquele jeito mesmo… Será que se sentem abandonadas – ainda que eu saiba hoje que podemos nos sentir abandonados sem que isso de fato tenha acontecido? Que trajetória de vida as deixou com expressão amarga, olhos sem brilho perdidos na distância?
O arrepio na espinha, o frio na barriga, a proximidade, o abraço apertado, a expectativa e, finalmente, o primeiro beijo na boca; lembro-me de ter pensado que era de boca fechada e agradeço mentalmente ao primo experiente que me explicou que “não: é de boca aberta, as línguas se encontram…” Ditas assim, as instruções parecem semelhantes às de um novo eletrodoméstico e sem poesia alguma; mas ao vivo e mais a expectativa, e tudo ficava brilhante  e irreal como um conto de fadas, sendo eu a heroína!
E, de repente, a gente se olha no espelho e não se reconhece: sabemos quem somos, a cabeça funciona, os sentimentos também, mas, a figura no espelho é a de alguém desconhecido. Uma nova pinta (pode ser câncer), um novo vinco (certeza que ontem não estava aí), bolsas sob os olhos (maldito creme milagroso), tudo o que surge agora seria completamente dispensável, exatamente o oposto de quando tínhamos 10, 12 anos e ficávamos esperando tudo o que viria: peitos nas meninas, barba nos meninos: o passe de mágica, transformando os patinhos feios em cisnes…
Mas, tudo isso indica que vivemos e permanecemos vivos: urge que não nos esqueçamos dos Beatles, do beijo na boca, do arrepio na espinha…

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