18 de abril de 2024
Colunistas Sylvia Belinky

Dias e “dias”

“Hay dias que no sé lo que me pasa, eu abro meu Neruda e apago o Sol…” – Vinicius de Moraes

Todos já vivemos dias em que só nos aborrecemos. Parece que nada dá certo; que não deveríamos ter levantado da cama.

Pois é, ontem me deu a impressão de ser um desses dias.

Há tempos, mudei de casa e o banco em que eu teria de ir, ficava do outro lado da estrada. Sabedora disso, já me preparei, peguei um Uber e fui para lá.

Surpresa número 1: a corrida, que não era grande e foi contratada e descontratada 5 vezes…UUUUUUUFFFFFFFFAAAAAAA… Mas o rapaz que veio, Pablo, era muito simpático e gentil!

Entro no banco e, enquanto fico esperando um caixa livre para me atender, ouço reclamações de clientes simples (sim, pois são esses que se veem de braços com situações esdrúxulas que não conseguem resolver) – um bom exercício para decidir se nosso problema é mesmo tão grande…

Chega a minha vez e, quando vou até o caixa que me chamou, eu o reconheço!

Não que ele me tenha sido apresentado; mas, em vezes anteriores – esse banco está sempre cheio e ser cidadão sênior já não tem nenhuma benesse – eu o via sendo gentil indistintamente com todos, oferecendo água, uma cadeira para sentar, quer fossem seus colegas de banco, quer fosse algum cidadão anônimo na fila.

Perguntei: “Você não atendia lá fora?”

Ele, surpreso, respondeu que sim e, então, disse: “Você deve estar fazendo muita falta lá.”

“Por que a senhora diz isso? ”

“Porque não é comum alguém gentil como você, ainda que esteja ganhando para isso! Eu gostaria de poder dizer isso a alguém para valorizasse seu trabalho. ”

Ele:

“A senhora acaba de dizer, já que este, ao meu lado, é meu chefe. “

Olho para o lado e vejo alguém que já conheço, que me atendera no mês anterior e me ajudara bastante.

“Oi – ele me diz – como vai a senhora? Cadê seu marido?“

Encurtando a história, surgiu um problema cabeludo com meu recebimento da aposentadoria e esta pessoa me ajudou enormemente, sendo de uma generosidade ímpar!

Saí do banco, ainda atordoada com o tamanho do problema surgido e, em grande parte, resolvido por conta da boa vontade de alguém que mal me conhecia!

Saio e decido ir ao sacolão ali, ao lado.

Como é de se esperar, pego mais coisas do que imaginava, não tendo trazido sacolas e vou voltar para casa de Uber…

Procuro por uma moça que me conhece – também, apenas de vista…

Essa moça já nos fez – a mim e a meu marido – várias pequenas gentilezas: arrumar caixas, cuidar das nossas compras enquanto vamos a outros lugares, habilitar uma internet que não está disponível para todos…

“Ela foi almoçar! ”, alguém me diz.

Eis que ela chega do almoço, me vê e pergunta: “Como vai a senhora? Posso ajudar? Cadê as suas sacolas? E cadê o seu marido?”

Antes que qualquer um imagine que essa lembrança é produto de uma boa “caixinha”, não, não é. Ela se lembra, provavelmente, porque conversamos com ela, sempre agradecemos e nos despedimos. Não foi tratada como “móveis e utensílios”…

Para a volta, tento um Uber Bag, não porque tenha muitas sacolas, mas porque muitos não querem ajudar a colocar ou tirar coisas do carro e reclamam. Depois de meia hora de espera, desisto e chamo um Uber X.

Chega uma moça, que me avisa de sua chegada e gentilmente carrega as coisas para o carro: muito obrigada, Larissa!

É, parecia um dia terrível, mas tratar com gente, do meu ponto vista, pode ser bem mais proveitoso e interessante do que com máquinas…

Sylvia Marcia Belinky

Tradutora do inglês, do francês (juramentada), do italiano e do espanhol. Pelas origens, deveria ser também do russo e do alemão. Sou conciliadora no fórum de Pinheiros há mais de 12 anos e ajudo as pessoas a "falarem a mesma língua", traduzindo o que querem dizer: estranhamente, depois de se separarem ou brigarem, deixam de falar o mesmo idioma... Adoro essa atividade, que me transformou em uma pessoa muito melhor! Curto muito escrever: acho que isso é herança familiar... De resto, para mim, as pessoas sempre valem a pena - só não tenho a menor contemplação com a burrice!

Tradutora do inglês, do francês (juramentada), do italiano e do espanhol. Pelas origens, deveria ser também do russo e do alemão. Sou conciliadora no fórum de Pinheiros há mais de 12 anos e ajudo as pessoas a "falarem a mesma língua", traduzindo o que querem dizer: estranhamente, depois de se separarem ou brigarem, deixam de falar o mesmo idioma... Adoro essa atividade, que me transformou em uma pessoa muito melhor! Curto muito escrever: acho que isso é herança familiar... De resto, para mim, as pessoas sempre valem a pena - só não tenho a menor contemplação com a burrice!

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