23 de abril de 2024
Cinema

Recordações / The Lost Moment

De: Martin Gabel, EUA, 1947

Nota: ★★½☆

(Disponível no YouTube em 3/2023.)

Quando terminei de ver The Lost Moment, no Brasil Recordações, produção da Universal de 1947 com Robert Cummings e Susan Hayward, não sabia o que dizer, o que pensar, como avaliar. Para mim, pelo menos, ficou naquela categoria de filmes que deixam o espectador um tanto confuso, tonto, zonzo.

Diabo de filme doidão – foi o que pensei. Um drama romântico de Hollywood nos anos 1940 que mete um pé na paranormalidade. Coisa louca, meu…

Cheguei a ele sem indicação, sem informações, sem jamais ter ouvido falar de sua existência – o que acho um ótimo jeito de ver um filme. Estava fuçando nos filmes da época de ouro de Hollywood disponíveis no YouTube, vi o nome de Susan Hayward, resolvi encarar. Nos créditos iniciais vi que era baseado em romance de Henry James – mas confesso que aconteceu uma coisa estranha: eu simplesmente esqueci dessa informação enquanto rolava o filme.

E então fui achando a trama toda muito esquisita, estranha – doidona.

Seria bom registrar aqui algo como uma sinopse, e então transcrevo o que diz o guia de Mick Martin & Marsha Porter, que dá a ele 3.5 estrelas em um total de 5:

“Um drama sutil, sombrio, excêntrico, baseado na novela de Henry James The Aspern Papers, que foi baseado em uma história real. Um editor de livros (Robert Cummings, na foto abaixo) procurando por cartas de amor escritas por um grande poeta morto há muito tempo vai à Itália para entrevistar uma senhora muito velha e sua sobrinha. A velha senhora é assustadora, a sobrinha, neurótica, o filme, fascinante. Aqueles que apenas conhecem (Robert) Cummings pela sua série de TV ficarão agradavelmente surpresos com sua atuação séria.”

Ahnnn… Vejo alguns problemas aí nestas poucas linhas, mas o principal deles, me parece, é a afirmação de que o romance de Henry James se baseia numa história real.

O IMDb relata que há algo no romance que tem a ver com a realidade:

“Henry James baseou a história em uma anedota que ele ouviu quando estava em Florença, na Itália, em 1879. ‘Claire’ Clairmont, a meia-irmã da mulher de Percy Bysshe Shelley, Mary Shelley, e mãe de Allegra, filha de Lord Byron, ainda estava viva e relatou como um inescrupuloso fã de Shelley havia fingido ser um inquilino a fim de encontrar quaisquer papéis não publicados. Depois que a anciã Claire morreu, sua sobrinha ofereceu os papéis, mas com um preço.”

A Wikipedia dá uma explicação mais clara: “O autor inspirou-se no caso das cartas que Percy Bysshe Shelley mandou à meia-irmã de Mary Shelley, Claire Clairemont, que as guardou até sua morte”.

Ou seja: de história real há apenas esse detalhe – um fã de escritor que tenta obter cartas dele. Henry James teria então usado esse fato real para criar sua história, sua ficção. Isso é muito diferente de dizer que o filme é baseado em uma história real.

Além disso, a velha senhora é uma personalidade muito complexa; defini-la apenas como assustadora é de um reducionismo atroz. E a mesma coisa vale para a sobrinha. Chamá-la simplesmente de neurótica é menosprezar a complexidade da personagem.

Ahnn número 2: Está um tanto confuso – ou bastante. Vamos começar de novo.

Os livros de Henry James foram filmados 159 vezes

A novela The Aspern Papers foi publicada em 1888, quando Henry James estava com 45 anos e já havia escrito seis de seus 11 romances. O escritor nascido em Nova York em 1843 estava radicado em Londres havia 11 anos. A Wikipedia registra que “The Aspern Papers demonstra a habilidade de James de criar suspense sem jamais negligenciar o desenvolvimento de seus personagens”.

Foram várias, várias as vezes que o cinema adaptou obras de Henry James – “mestre da prosa de ficção, uma formidável figura da cultura transatlântica, cujo tema fundamental era a inocência e a exuberância do Novo Mundo em colisão com a corrupção – e a sabedoria – do Velho”, segundo a Encyclopaedia Britannica, aquela maravilha.

O IMDb diz que há nada menos de 159 títulos de filmes e/ou séries baseados em obras do escritor. Para citar só alguns: Tarde Demais/The Heiress (1949), de William Wyler; Os Inocentes (1961), de Jack Clayton; Daisy Miller (1974), de Peter Bogdanovich; Os Europeus (1979), de James Ivory; Retratos de uma Mulher (1996), de Jane Campion); Asas do Amor (1997), de Iain Softley; A Herdeira/Washington Square (1997), de Agnieszka Holland; A Taça de Ouro (2000), de James Ivory.

O sujeito que transformou a novela The Aspern Papers no roteiro deste Recordações/The Lost Moment foi Leonardo Bercovici(1908-1995), um dos autores dos roteiros de Um Anjo Caiu do Céu (1947) e O Retrato de Jennie (1948).

Este foi o único filme dirigido por Martin Gabel (1912-1986), ator em 37 títulos, inclusive Marnie – Confissões de uma Ladra (1964), aquela maravilha que é um dos filmes menos reconhecidos de Alfred Hitchcock, e A Primeira Página (1974) de Billy Wilder.

O editor americano vai a Veneza atrás das cartas

O filme dirigido por esse estreante (e nunca voltante ao metiê) Martin Gabel e roteirizado por Leonardo Bercovici começa com ares assim de coisa culta, refinada, literária. Uma voz em off (a voz de Robert Cummings) vai falando as frases escritas por Bercovici, enquanto a câmara do diretor de fotografia Hal Mohr mostra, em close-up, uma estante de livros, na qual falta um volume. Ahá, vejam que bela metáfora! Há um espaço entre um livro e outro! Um livro que não chegou a ser escrito, que não existiu!

– “A glória do mundo é a reunião de sua beleza”, diz a voz em off do ator que faz o protagonista da história. Lewis Venable. “Sua tragédia é a beleza que foi perdida. (Zoom no espaço vazio existente entre dois livros – o livro que não existiu!!!) Nesse espaço vazio, poderia ter existido um livro… com as melhores cartas de amor já escritas. cartas de encanto e paixão inigualáveis, que foram escritas no século passado, por este homem. (A câmara faz um pequeno movimento à esquerda e focaliza o retrato de um homem do século XIX), o grande poeta Jeffrey Ashton, cartas à linda Juliana Borderau. Cerca de 30 anos atrás, eu, Lewis Venable, um editor ambicioso, li aquelas cartas. Por algumas horas angustiantes, eu as tive em minhas mãos. Um tesouro literário que muitos editores, tanto da América quanto da Europa, haviam procurado desesperadamente. Tudo começou com uma breve nota de um artista esquecido, Charles Russell, que havia desaparecido havia vários anos.”

A câmara mostra um livro sendo aberto para uma das páginas iniciais, onde está escrito “Jeffrey Ashton, 1797-1843 (?)”, “poeta americano nascido na Filadélfia em 1897 e desaparecido em circunstâncias misteriosas em julho de 1843”.

Vem então um flashback – que vai durar todo o filme. Voltamos para cerca de 30 anos atrás, quando Lewis Venable estava chegando a Veneza e era recebido por aquele Charles Russell (John Archer) citado no monólogo de abertura.

A troco de um bom pagamento, Charles havia feito pesquisas e identificado a mulher por quem o poeta Jeffrey Ashton havia sido apaixonado, décadas e décadas atrás, e para quem havia escrito as preciosas cartas de amor. Juliana Borderau ainda estava viva, aos 105 anos, e morava em uma imensa e centenária casa com a sobrinha Tina, uma velha empregada, Maria (Minerva Urecal) e a filha dela, Amelia (Joan Lorring).

A casa enorme era herança da família – e as duas Bordereau, a centenária Juliana e a sobrinha Tina, precisavam desesperadamente de dinheiro. Charles havia dito para Tina que ela seria procurada por William Burton, um escritor americano muito rico, que estava interessado em alugar uma parte do casarão para ali se inspirar e escrever um novo romance.

Juliana é interpretada por uma Agnes Moorehead (na foto abaixo) pesadamente maquiada para parecer muito idosa – a atriz estava com 47 anos. E Tina vem na pele de Susan Hayward, aos 30 anos, então uma das grandes (e mais belas) estrelas de Hollywood.

O filme está com 6 dos seus 89 minutos quando o editor Lewis Venable, apresentando-se como o escritor William Burton, é recebido por Tina Bervereau.

O que torna o filme “excêntrico”, para usar o termo do guia de Mick Martin & Marsha Porter, ou “doidão”, como eu disse, só aparece bem mais adiante, quando estamos com 33 minutos de narrativa. Assim, embora eu não vá dar detalhes do que acontece a partir daí, falar disso é, a rigor, a rigor, spoiler. Procuro ser bastante cuidadoso, e evito ao máximo dar spoilers. Quando é absolutamente necessário, ao menos aviso. Então aqui vai o aviso: o que vem no texto abaixo é spoiler. O eventual leitor que não tiver visto o filme deve parar de ler por aqui.

Em alguns momentos, a moça encarna a tia quando jovem

É quando o filme está com 33 minutos que ele bota o pé na paranormalidade. Foge da lógica deste mundo, vai para outras dimensões que talvez até existam, mas que a ciência humana desconhece.

Tina Bordereau tem duas vidas. Na maior parte do tempo, Tina, sobrinha da idosa Juliana Bordereau, é uma mulher rígida, dura, inflexível, mal-humorada, cara fechada. Veste-se de mais do que sóbrios vestidos negros, mangas compridas, nem um milímetro da pele abaixo da garganta à mostra, cabelos presos.

Em alguns momentos, no entanto – e é assim que a vemos quando o filme está com 33 minutos –, seus cabelos lindos, fartos, estão soltos; ela usa um vestido branco, leve, suave, mangas curtas, pequeno decote – e sua expressão é toda luminosa, alegre. Seus olhos brilham.

Nesses momentos, Tina está transformada na jovem Juliana, a moça apaixonada pelo poeta Jeffrey Ashton, de quem recebe cartas e mais cartas de amor. E essa jovem Juliana odeia a velha e centenária Juliana – na verdade, ela diz que a velha e centenária Juliana é a empregada da casa.

A moça encarna a tia.

É preciso admitir: Susan Hayward faz um belíssimo trabalho interpretando essas duas mulheres tão diferentes uma da outra, praticamente antípodas.

Mas a verdade é que é um troço paranormal – fora de esquadro, fora da lógica. Excêntrico. Muito doidão.

Depois houve várias refilmagens da história

“Aqueles que apenas conhecem (Robert) Cummings pela sua série de TV ficarão agradavelmente surpresos com sua atuação séria”, garante o guia de filmes de Mick Martin & Marsha Porter. Robert Cummings (1910-1990), mais de 100 títulos na filmografia, cinco casamentos no papel, estrela de The Bob Cummings Show, 166 episódios apresentados pela rede NBC de 1955 a 1959. Nesse show, ele fazia Bob Collins, um fotógrafo que trabalha em Hollywood – solteiro e paquerador. Mas, diabo, do jeito que o guia fala, fica parecendo que o cara só fez aquilo na vida. No entanto, entre os mais de 100 títulos de sua carreira estão Sabotador (1942) e Disque M para Matar (1954), de Alfred Hitchcock, só para dar dois exemplos.

Não tenho idéia de por que os realizadores do filme resolveram trocar o nome do poeta famoso do século XIZ de Jeffrey Aspern, como está no livro, para Jeffrey Ashton. Mistério. Mas o fato é que The Aspern Papers foi filmado várias vezes, depois deste Recordações/The Lost Moment aqui.

Achei isso bastante surpreendente.

Em 1982 houve Aspern, co-produção Portugal França, dirigida por Eduardo de Gregorio com Jean Sorel e Alida Valli.

Em 1991 houve Els Papers d’Aspern, dirigido por Jordi Cadena. O IMDb não traz título em português, apenas no original catalão, o que indica que o filme não deve ter sido lançado comercialmente aqui. Os nomes dos atores – Hermann Bonnín, Silvia Munt, Amparo Soler Leal – não me dizem nada.

Em 2010 houve The Aspern Papers, uma produção dos Estados Unidos, de 2010, dirigida por Mariana Hellmund, com Brooke Smith, Felix d’Alviella e Joan Juliet Buck.

E – incrível! – em 2018 houve uma co-produção Inglaterra Alemanha, dirigida por Julien Landais, com Jonathan Rhys Meyers, Vanessa Redgrave e sua filha Joely Richardson como, respectivamente, Juliana Bordereau e Miss Tina.

Leonard Maltin dá 3 estrelas em 4 para esta primeira filmagem da novela: “Aspern Papers de Henry James vira drama fora do padrão. Editor Cummings na Itália procurando pelas cartas de amor perdidas de famoso escritor fica conhecendo a neurótica Hayward, que diz ter acesso às cartas.”

“Diz ter acesso às cartas” não reflete bem o que acontece na história. As cartas existem, estão no casarão em que vivem Juliana e a sobrinha Tina. Mas o fato é que o autor dos guias de filmes mais vendidos do mundo naquele tempo em que se vendiam guias de filmes gostou do filme.

Muita gente boa gostou do filme.

Parece que doidão sou eu…

Anotação em março de 2023

Recordações/The Lost Moment

De Martin Gabel, EUA, 1947

Com Robert Cummings (Lewis Venable/William Burton),

Susan Hayward (Tina Bordereau)

e Agnes Moorehead (Juliana Borderau),

Joan Lorring (Amelia, a jovem empregada), Eduardo Ciannelli (padre Rinaldo), John Archer (Charles Russell), Frank Puglia (Pietro), Minerva Urecal (Maria), William Edmunds (Vittorio)

Roteiro Leonardo Bercovici

Baseado no romance “The Aspern Papers”, de Henry James

Fotografia Hal Mohr

Música Daniele Amfitheatrof  

Montagem Milton Carruth

Direção de arte Alexander Golitzen

Figurinos Travis Banton

Produção Walter Wanger, distribuição Universal Pictures.

P&B, 89 min (1h29)

Fonte: 50 anos de filmes

Sergio Vaz

Jornalista, ex-diretor-executivo do Jornal Estado de São Paulo e apreciador de filmes e editor do site 50 anos de filmes.

Jornalista, ex-diretor-executivo do Jornal Estado de São Paulo e apreciador de filmes e editor do site 50 anos de filmes.

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