14 de abril de 2024
Cinema

Laços de Afeto / Il Filo Invisible

Nota: ★★★★

Il Filo Invisible, no Brasil Laços de Afeto, produção italiana de 2022, é uma beleza, uma maravilha de filme.

Eu não tinha qualquer referência, nenhuma indicação, e não me diziam absolutamente nada os nomes do diretor Marco Simon Puccioni e dos atores principais, Filippo Timi, Francesco Scianna e Francesco Gheghi. Resolvemos experimentar, assim, quase completamente às cegas, com base apenas em uma sinopse que falava em adolescente de 17 anos filho de um casal homoafetivo – e no fato de ser um filme italiano. Do país que foi durante décadas o do melhor cinema do mundo.

O filme foi me surpreendendo, me surpreendendo, me surpreendendo a cada nova sequência, a cada novo evento com os pais Simone e Paolo e o garoto Leone, e as pessoas em volta deles.

(Filippo Timi, à esquerda na foto abaixo, está em Vincere, o belo filme de Marco Bellocchio de 2009, mas eu não me lembrava dele.)

O diretor Marco Simon Puccioni e Luca De Bei, os autores do roteiro original, conseguiram criar uma história interessante, envolvente, fascinante, fisgativa, que vai muito além dos preceitos, das exigências do politicamente correto, para atingir o que é muito mais importante, muito acima disso – o moralmente certo, justo.

Il Filo Invisible defende todas as verdades e todos os valores morais corretos no que diz respeito a laços afetivos, laços familiares, comportamento. Todos. Cada um deles. Desde os mais específicos – ser criado por casal homossexual não significa que o filho/a filha vá ser homossexual; casais homossexuais são tão capazes de criar filhos quanto os héteros – assim como são perfeitamente capazes de fazer asneiras, besteiras impensáveis, baixarias horrendas, quando há uma infidelidade e a relação desanda. Igualinho que nem os casais héteros.

Até os mais amplos, mais gerais – qualquer maneira de amor vale a pena, não importa o sexo, a orientação sexual. O que vale, quando se trata de filhos (assim como de netos), é a convivência, o amor, o cuidado, a atenção – não o DNA, o sangue do meu sangue, carne da minha carne.

Todos os valores corretos – e grande cinema, cinema de gente grande, feito para platéias adultas.

Il Filo Invisible é uma obra-prima.

Cheio de bossas, o filme começa com um vídeo para a escola

É um filme cheio de bossas, brincadeiras formais, criativóis.

Costumo criticar de forma azeda o gosto dos diretores por criativóis formais, e defender que o bom é quando as histórias são contadas da maneira mais escorreita, mais direta, mais sem firulas possível.

Pois é. A questão é que há realizadores que sabem fazer as bossas, as brincadeiras formais, os criativóis. Quando a coisa é bem feita, não há como não gostar. E esse Marco Simon Puccioni sabe fazer, domina a coisa. Seu filme tem criativóis gostosos, engraçados, envolventes, assim na linha de… Cito só alguns que me vêem à cabeça de imediato: assim na linha de Todas as Mulheres do Mundo (1967), de Domingos Oliveira, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001), de Jean-Pierre Jeunet, (500) Dias Com Ela (2009), de Marc Webb, Medianeras (2011), de Gustavo Taretto.

Põ, meu, estar na companhia desses filmes aí, numa lista ao lado desses filmes é uma absoluta glória.

A primeira coisa que vemos, logo após os nomes das empresas produtoras, é um vídeo amador, caseiro – um ensaio para o trabalho de escola do garoto Leone Ferrari (o papel de Francesco Gheghi) e seu colega e maior amigo Jacopo Venosa (Emanuele Maria Di Stefano). Tem créditos iniciais: A Minha Família Colorida, de Ferrari e Venosa, 3º C do liceu tal e tal, curso de videomaking, professor tal.

Na primeira imagem do vídeo, uma selfie de Leone, e ele se apresentas: – “Este sou eu, Leone” – e o nome dele aparece grandão na tela, numa coisa a rigor mais infantil do que adolescente. – “E este é meu pai, Simone”, ele diz, enquanto vemos uma imagem de Simone (o papel de Francesco Scianna) e, sobre ela, as palavras “Papà Simo”. – “Ele seria um antropólogo, mas largou a universidade para gerenciar um restaurante de boa comida no Centro. Ele é engraçado, atlético, confiante, e me ensinou bastante.” A essa altura, Simone se cansou de ser filmado, chega bem perto do celular do filho e diz, brincalhão, careteiro, seu rosto ocupando a tela inteira: – “Vou enfiar isso na sua goela!”

Corta, vemos no vídeo de Leone e Jacopo um homem de terno e gravata sentado a uma mesa diante de um casal, enquanto a voz em off de Leone explica: – “E este é Paolo, o meu outro pai”; Na tela, grandonas, as palavras “Papà Paolo”. “Ele é um arquiteto com grandes ambições, mas também deixou isso de lado por ora para se dedicar à sua loja de móveis. Todos os dias ele me incentiva a seguir meus sonhos.”

Paolo (interpretado por Filippo Timi), já incomodado com o fato de o filho o estar filmando enquanto atende a um casal de fregueses, faz uma careta para a câmara de Leone.

E o vídeo dos terceiranistas do ensino médio Leone e Jacopo faz um criativol, mostra as mesmas cenas – Simone no restaurante, Paolo na loja de móveis – de trás para a frente, e a voz em off do narrador Leone diz: – “Vamos voltar um pouco, para quando eu ainda não existia” – e vemos um vídeo caseiro de Simone e Paolo caminhando ao ar livre de mãos dadas. O que é uma licença poética dentro do vídeo que os dois colegas preparam para o curso de videomaking, já que, logicamente, Leone não estava lá com sua câmara para filmar o passeio dos pais.

– “Paolo e Simone eram namorados que estavam juntos havia cinco anos”, prossegue a voz em off do garoto Leone narrando a história de sua família colorida. “Mas, infelizmente, na Itália uma família assim não poderia adotar.” Sobre a imagem de Paolo e Simone, aparece um desenho bem infantil de dois adultos com as mãos dadas a uma criança. É visível também, o tempo todo, o tempo de duração do vídeo; naquele momento, 01:28:24. “Tudo mudou quando eles a conheceram.” Close-up do rosto de uma mulher urrando de dor no trabalho de parto. De novo o nome da pessoa em letra infantil, grande, sobre a imagem – “Tilly” -, ao mesmo tempo em que a voz em off a introduz: “Ela é a Tilly. Simone a conheceu na Universidade da Califórnia. Quando ele e Paolo contaram a ela seu grande desejo, ela se ofereceu para ajudá-los”.

O espectador vê a sala de cirurgia, a enfermeira mostrando o bebê para Tilly (o papel de Jodhi May) e para os dois papais – e um desenho infantil reproduz o trio com as palavras “gestação para outros”.

“E, graças à Tilly, eu nasci, para a alegria de todos.”

Os dois pais souberam criar muito bem o garoto

Hum… Assim, relatado em palavras, talvez pareça um tanto bobo. Em imagens, é uma maravilha: em 1 minuto e meio – isso aí que relatei vai até 1 e meio dos 109 belos minutos do filme – Il Filo Invisible apresenta as informações básicas sobre a família de Leone, conta que o rapaz está preparando um vídeo para o curso de videomaking do seu colégio juntamente com seu amigo Jacopo, e demonstra, com bom humor, que as coisas parecem todas ir muito bem naquela “família colorida”.

Bem, talvez seja informação demais em tão pouco tempo. E “o excesso de informação prejudica a comunicação” – uma das poucas coisas que os professores da ECA me ensinaram. Foi só ao rever o início do filme agora, para fazer o relato aqui, que percebi a gostosa ironia que é Paolo todo dia incentivar o filho a seguir seus sonhos – enquanto ele mesmo teve que abandonar o sonho de ser arquiteto para ganhar a vida na loja de móveis…

Ainda bem que, ao ver filmes em casa, há a abençoada possibilidade de se voltar para ver de novo uma sequência de que a gente gostou muito, ou não entendeu direito…

Depois da bela abertura cheia de informações, o filme vai nos mostrando o dia-a-dia do garoto Leone, em casa e na escola. Vemos que os pais amam o filho e souberam educá-lo muito bem. Leone é um adolescente nada aborrescente, uma pessoa tranquila, de boa índole, séria, inteligente.

Há uma garota nova na escola, uma francesinha cuja família havia se mudado para a Itália. Chama-se Anna (o papel de Giulia Maenza, na foto abaixo), é lindinha, graciosa. Leone fica todo interessado, claro, mas Jacopo brinca com o amigo que a moça é demais para ele. No entanto, Anna rapidamente demonstra estar atraída pelo rapaz. Parece que vai rolar um caso legal; mais adiante surgirá um problema que deixará Leone muito magoado – mas os dois adolescentes conseguirão contorná-lo.

A descoberta de uma infidelidade põe tudo a perder

A vida da “família colorida” vira um inferno quando Paolo descobre, por acaso, que Simone vinha tendo um caso já fazia dois anos com um sujeito mais jovem, chamado Riccardo (Mauro Conte). A traição leva o casal às maiores baixarias possíveis e imagináveis e. naturalmente, a brigaria dos pais atinge Leone duramente.

Ao longo dos 17 anos da vida do rapaz, os pais haviam insistido para ele entender que o que importa na vida são os laços afetivos – os sanguíneos são absolutamente secundários. Nem eles próprios sabiam de quem era o espermatozóide que havia fecundado o óvulo inseminado no útero de Tilly – lá no passado, na hora da inseminação, haviam feito um “coquetel” com esperma dos dois, exatamente para que não houvesse um “pai biológico” identificado.

E tudo tinha funcionado perfeitamente, por 17 anos. Simone e Paolo mantinham uma bela relação com a americana Tilly, agora no segundo casamento, com um motoqueiro meio riponga, boa gente, Leroy (Gerald Tyler). E Leone e Tilly se adoravam. Ele não a tinha propriamente como mãe, e sim como a “portadora” dele enquanto feto.

Todo o equilíbrio vai por água abaixo com a briga furiosa após a revelação da infidelidade de Simone. Separados, vivendo uma guerra absurda, ridícula, apavorante, como costumam ser todas as guerras de casais pós-separação, tanto Paolo quanto Simone vão fazer testes de DNA para definir qual deles é o “pai biológico” – aquilo que haviam passado a vida ensinando ao filho que não era importante.

A guerra dos dois pais de Leone deixa o espectador amargurado. Bem, eu fiquei profundamente amargurado, como se eles fossem meus amigos. – “Meu Deus, como é possível uma baixaria dessas?”, eu dizia seguidas vezes para a Mary.

Mas Il Filo Invisible não é um baita melodrama. Tem muita dureza, como a vida – mas é um filme pra cima, um filme pra fazer a gente achar que, diabo, quem sabe a humanidade não é uma invenção que deu errado, afinal?

O diretor fez documentários sobre sua “família colorida”

Marco Simon Puccioni. Parece ser do tipo que esconde a idade, porque a data de nascimento não está nem no IMDb nem na Wikipedia. Pelas fotos, parece estar com uns 50 e tantos, talvez 60 e poucos. Nasceu em Roma, formou-se lá em Arquitetura e estudou cinema no California Institute of the Arts. Depois de curtas e documentários, lançou em 2002 seu primeiro longa, Quello Che Cerchi, não lançado no Brasil. Abrigo/Riparo, de 2007, sobre o caso de amor entre uma dona de uma fábrica e uma trabalhadora, com a portuguesa Maria de Medeiros, estreou no Festival de Berlim e passou por cem festivais.

Ensinou cinema na Academia de Belas Artes de Perugia e na escola Volontè, em Roma; é presidente de uma associação de cineastas, Ring, e diretor de um sindicato chamado 100 Autori. Continuou dirigindo documentários e tem produzido filmes de jovens realizadores.

Diz o IMDb que dois dos documentários que Puccioni realizou, Prima di Tutto e Tuttinsieme (literalmente, antes de tudo e todos juntos), são sobre “sua própria família arco-íris”.

E o site afirma também The Invisible Thread (o título usado nos países de língua inglesa, tradução literal do título original italiano) “tem sido considerado entre os 10 melhores filmes produzidos pela Netflix em 2022 por diversas revistas e sites”.

Merecidíssimo. Todos os elogios a Il Filo Invisible são merecidíssimos.

Anotação em julho de 2023

Laços de Afeto/Il Filo Invisibile

De Marco Simon Puccioni, Itália, 2022

Com Filippo Timi (Paolo Ferrari, o pai comerciante),

Francesco Scianna (Simone Lavia, o pai restauranteur),

Francesco Gheghi (Leone Ferrari, o filho),

e Giulia Maenza (Anna Del Monte, a colega francesinha), Jodhi May (Tilly Nolan, a mãe), Valentina Cervi (Monica Ferrari, a irmã de Paolo), Emanuele Maria Di Stefano (Jacopo Venosa, o grande amigo de Leone), Matteo Oscar Giuggioli (Dario Del Monte, o irmão de Anna), Mauro Conte (Riccardo Morselli, o namorado de Paolo), Alessia Giuliani (Elisa Del Monte, a mãe de Anna e Dario), Gerald Tyler (Leroy Liotta, o marido de Tilly), Enrico Borello (recepcionista), Gianluca De Marchi (Domenico Moretti), Ambrosia Caldarelli (Lavinia Rossi), Tim Daish (professor John Martin), Pasquale Montemurro (Giulio Bianchi), Mauro Pescio (Carlo Galanti), David Puccioni (Leone aos 11 anos), Simone DePascale  (Leone aos 5 anos), Brando Ferrucci (Leone com 1 ano), Daniele Orlando (médico no hospital), Gianpiero Pumo (instrutor de ginástica), Martina Querini (enfermeira)

Argumento e roteiro Marco Simon Puccioni, Luca De Bei       

Diálogos adicionais Gianluca Bernardini

Fotografia Gian Filippo Corticelli     

Música Aldo De Scalzi, Pivio

Montagem Francesco Fabbri, Giogiò Franchini

Casting Laura Muccino 

Desenho de produção Eugenia F. Di Napoli

Figurinos Grazia Materia

Produção Valeria Golino, Viola Prestieri, HT Film, Inthelfilm.

Cor, 109 min (1h49)

Fonte: 50 anos de filmes

Sergio Vaz

Jornalista, ex-diretor-executivo do Jornal Estado de São Paulo e apreciador de filmes e editor do site 50 anos de filmes.

Jornalista, ex-diretor-executivo do Jornal Estado de São Paulo e apreciador de filmes e editor do site 50 anos de filmes.

    Deixe um comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *