23 de abril de 2024
Colunistas Paulo Antonini

A morte é certa, então…

Por óbvio, toda morte é, apesar de inerente à vida, indesejada, sobretudo, aquela que nos pega desprevenido.

Nunca somos preparados culturalmente para aceitar que, como tudo, nós temos começo e fim.
De algum mal iremos padecer e findar, seja o que for, é imutável, apesar dos esforços em contrário.
Nossa sociedade não aceita essa discussão, é um tabu, parece e faz crer, que somos imortais.
Sequer aceitamos a tristeza como parte natural da vida, mesmo que poetas nos contradigam.
Estar triste é quase uma doença, é proibido, vedado.
Se você estiver nesse estado, logo surgem aqueles que te dizem que não vale a pena, que só vai complicar mais a situação e outras delongas.
Se esquecem que a fronteira entre a tristeza e a transformação é tênue.
Nesses momentos refletimos, digerimos e nos renovamos para um novo caminho ou melhor, para o aperfeiçoamento do caminhar que se iniciou quando chegamos ao mundo físico.
Fiz essa observação para me opor àqueles que consideram um absurdo qualquer tipo de celebração. Qualquer manifestação de felicidade momentânea.
Bem, você deve estar questionando se eu não inverti o tema inicial, da tristeza proibida pela alegria.
Não, não estou. São duas faces da mesma moeda e, a alegre comemoração, qualquer que seja, hoje, está simbioticamente atrelada ao tema.
De que jeito?
Fingimos que a morte não existe.
Nunca se fala sobre nossa inexorável finitude, daí, quando atravessamos um período como o que estamos, de uma pandemia que nos escancara com a boca bem aberta repleta de dentes, esse inevitável fim, paralisamos, nos acovardamos, petrificamos.
Ninguém tem o direito de celebrar, de festejar, pois, estamos morrendo.
No estado de embriaguez de vida eterna, não podemos entristecer.
No estado de cristalina fragilidade do ser, devemos nos recolher a dor do irreparável e aguardar ou nos guardar, na tentativa de enganar aquela velha senhora indesejável.
A todo momento leio e ouço reprimendas nas redes sociais ou na mídia, contra pessoas que ousaram fazer algum tipo de manifestação de contentamento.
Estes, são hereges e como tais, devem queimar nas modernas fogueiras dos inquisidores antenados, salvadores de vidas.
Não estou aqui, como replicarão, muitos desses inquisidores, a negar nada ou desrespeitando quem assim o pense.
Mas, não me negarei a constatar o óbvio ululante: sempre se morreu no mundo e nunca deixaremos de morrer.
Me pouparei de citar estatísticas sobre o assunto, elas, já são por demais conhecidas para aqueles que querem de verdade se informar.
Apenas, deixarei um alerta, uma observação:
Sempre esbarramos com aquilo que flertamos em nossos pensamentos. Somos produto deles.
A ciência, palavra tão cinicamente usada nesses dias, assim como a espiritualidade, já comprovaram que o medo nos enfraquece e nos torna vulneráveis; portanto, parafraseando aquela sexóloga petista, mas, com muito mais propriedade e num momento mais delicado, os convoco a relaxar e gozar, com todo respeito, é claro.
Paulo Antonini

Paisagista bailarino e amante da natureza. Carioca da gema, botafoguense antes do Big Bang.

Paisagista bailarino e amante da natureza. Carioca da gema, botafoguense antes do Big Bang.

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