José Mário Branco

É uma imensa pena que pouca gente no Brasil conheça o grande compositor.

Foi paixão daquelas imediatas, à primeira vista (no caso, à primeira audição). Paixão forte, poderosa. Ouvia as canções de Zé Mário sem parar, de novo, de novo, e de novo de novo. A abertura do disco – ruídos de uma estação de trem, que se ligava à primeira música, “Cantiga para pedir dois tostões”.

E “Cantiga do fogo e da guerra”. “O charlatão”. “Queixa das almas jovens censuradas”. “Nevoeiro”. “Mariazinha”. “Casa comigo, Marta”. “Perfilados de medo”. E, fechando o disco, “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”.

Fagner musicou Cecília Meirelles, e musicou lindamente – só se esqueceu de dar o crédito. Milton musicou Carlos Drummond de Andrade, e “Canção amiga” é absoluta maravilha. O gaúcho Raul Ellwanger, muitíssimo menos conhecido que Fagner ou Milton, musicou Ferreira Gullar em “Te procuro lá”, e é uma delícia. Leonard Cohen traduziu e musicou um poema de Gabriel Garcia Lorca. Os Secos e Molhados musicaram Julio Cortázar. E por aí vai – os exemplos são centenas e centenas.

É uma maravilha que poemas sejam musicados. Sempre, sempre. Mas alguém musicar Luís Vaz de Camões, pegar um soneto de Luís Vaz de Camões escrito ali por 1570 e transformá-lo em uma canção que pega o ouvinte e não desgruda mais, nunca mais, é um troço muito, muito especial.

Jamais saberia dizer o que me fez mais apaixonado por José Mário Branco, em seu disco Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, lançado originalmente em 1971, quando Portugal estava mergulhado no que depois se veria que eram os estertores daquela ditadura de 41 anos, e o Brasil vivia a Era Médici, o período mais horripilante da ditadura militar que duraria 21 anos.

Jamais saberia dizer se era a coisa moderna, ousada, metida, de iniciar um disco com ruídos, gente falando, barulhos de uma gare francesa antecipando a canção em que o narrador demonstra desprezo pelos conterrâneos que preferiram fugir para o exílio, ou a perfeição da canção que transformava um soneto de Camões em uma coisa absolutamente moderna. Ou o lirismo apaixonado e apaixonante de “Queixa das almas jovens censuradas”. Ou o arranjo forte, marcante, e a melodia inesquecível de “Nevoeiro”…

O fato foi que me apaixonei perdidamente pela música de José Mário Branco assim que a ouvi.

***

E ouvi pela primeira vez alguns poucos anos depois que Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades foi lançado. O disco, como já disse, é de 1971. Ouvi-o em 1975 ou talvez 1976, porque o Sérgio Hardy e a Aglaia, minha sobrinha, viveram alguns meses em Portugal depois da Revolução dos Cravos de 1974, e voltaram em 1975. Sérgio Hardy chegou trazendo uma penca de LPs de Zé Mario e, claro, de Zeca Afonso. Gravei tudo em fita cassete – e nunca mais parei de ouvir.

Pensando em Zé Mario e Zeca Afonso agora, lembrando que os conheço desde a época em que minha filha nasceu, me ocorre que eles vieram algum bom tempo depois dos meus ídolos básicos, os iniciais, os de sempre.

Como fui adolescente nos anos 60, tive a oportunidade maluca de crescer ao som de Bob Dylan, Chico Buarque, Beatles, Caetano Veloso, Joan Baez, Gilberto Gil, Gilbert Bécaud, Nara Leão, Maria Bethânia, Gal Costa – ao mesmo tempo em que aprendia as lições dos grandes mestres, Noel Rosa, Dorival Caymmi, Luiz Gonzaga, e mais Frank Sinatra, Edith Piaf, Jacques Brel, etc, etc, etc, etc…

No início dos anos 70, e antes, ah, seguramente antes que Elis fizesse Falso Brilhante, que é de 1976, fui apresentado à beleza da música de nuestra America Latina – Violeta Parra, é claro, e também sua filha Isabel, e mais Victor Jara, Inti-Ilimani, Quilapayun, Daniel Viglietti, Atahualpa Yupanqui, Mercedes Sosa, Silvio Rodriguez, Pablo Milanés. E desenvolvi minha paixão por Georges Moustaki e Sergio Endrigo.

Me lembro que em 1973 – o ano em que me casei diante do juiz e do padre com Suely Rossanez, a mãe da minha filha –, fiquei feliz com a chegada de gente nova, Raimundo Fagner, Luiz Melodia, Walter Franco, Raul Seixas.

De fato creio, vendo hoje as coisas com a perspectiva de tanto tempo passado, que a descoberta de Zé Mário Branco e Zeca Afonso causou em mim impressão tão forte porque eu não estava esperando, não estava contando com aquilo. Achava que já conhecia todos os grandes cantores e autores do meu tempo – e com eles aprendi que estava errado.

À minha paixão por Zé Mário Branco e Zeca Afonso logo se seguiu a por Sérgio Godinho. E essa maravilhosa trinca portuguesa abriu espaço para Joan Manuel Serrat e Lluis Llach.

***

Zé Mário e Zeca Afonso chegaram no momento de maior turbulência da minha vida – exatamente a época em que me separei de Suely e saí da casa da minha filha ainda pouco mais que bebê para perseguir uma nova paixão.

Ao longo dos dez anos tumultuados em que vivi com Regina Lemos, ouvi “Queixa das almas jovens censuradas” uma enormidade de vezes. Minha cabeça rodava com aqueles versos impressionantes:

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Somos vazios despovoados
De personagens de assombro (…)

Dão-nos um nome e um jornal
Um avião e um violino
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino

Os caminhos da vida são quase sempre surpreendentes, e um dos presentes que Regina me deu – entre as coisas assim materiais, físicas – de que mais gosto está o CD duplo Zeca Afonso no Coliseu, de 1993. É um disco extraordinariamente belo – Zeca estava já no fim da vida, consumido pela doença que o mataria, e gravou ali seu canto do cisne. Regina o comprou para mim em Portugal, onde passou alguns meses.

Quatro anos depois, em 1997, Zé Mário também lançou um CD duplo, gravado ao vivo, em três diferentes lugares – o Coliseu do Porto, Teatro de Trindade de Lisboa e o Gil Vicente de Coimbra.

É fantástico: do seu álbum de 1971, só gravou, no CD duplo, “Queixas das almas jovens censuradas”. Sequer sua parceria com Luís Vaz ele quis regravar.

(A vida passa, a Lusitana roda. Se Regina Lemos me deu de presente Zeca Afonso no Coliseu, foi minha filha que trouxe para mim de Lisboa o CD José Mário Branco Ao Vivo em 1977 – juntamente com uma reedição, remixada, perdão, remisturada em 1996, de Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades.

***

Fiquei sabendo da morte de Zé Mário – na terça-feira agora, dia 9/11, aos 77 anos – pela Página Negra de Manuel S. Fonseca, um diabo de um sujeito que escreve bem como Zé Mário, como Zeca Afonso, cujos textos tenho o orgulho de republicar aqui no 50 Anos, graças – é sempre preciso registrar – à maravilhosa borboleta Luciana Nepomuceno.

Manuel, claro, conheceu pessoalmente Zé Mário, como conta em um de seus textos tão brilhantes que dão na gente ao mesmo tempo pequenina raiva e tremenda admiração.

Aqui na ex-colônia, fico duplamente triste. Porque Zé Mário se foi – e porque pouca gente deste país hoje tão infeliz conhece suas maravilhosas canções.

Aqui, algumas canções de Zé Mário no YouTube:

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”

“Queixa das almas jovens censuradas”

“Mariazinha”

“Cantiga para pedir dois tostões”

“Nevoeiro”.

22/11/2019

P.S. A vontade é de reproduzir aqui uma dúzia das letras de Zé Mário. Reproduzo uma.

Queixa Das Almas Jovens Censuradas

José Mário Branco

Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma de uma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
Com as cabeleiras das avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa historia sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Somos vazios despovoados
De personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco
Dão-nos um pente e um espelho
Pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
Um avião e um violino
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida, nem é a morte

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