21 de abril de 2024
Cinema

Licorice Pizza (por Sergio Vaz)

De: Paul Thomas Anderson, EUA-Canadá, 2021

(Disponível no Now em 10/2022.)

Endeusado por uma imensa multidão de fãs, queridinho absoluto da crítica e dos júris de festivais, com 97 prêmios e outras 268 indicações, inclusive 11 aos Oscars, Paul Thomas Anderson é mais que um realizador cult: é um fenômeno.

Diretores como Hal Hartley ou Peter Greenaway seguramente sonhariam em ser tão cult quanto ele. Acho que dá para dizer, sem medo de errar, que mais cult que ele, nestas duas primeiras décadas do século, só Quentin Tarantino.

Para seu filme de 2021, Licorice Pizza, convidou para participações especiais os superastros Sean Pean e Bradley Cooper, os atores hiper cult Tom Waits, Maya Rudolph e John C. Reilly, o paí de Leonardo DiCaprio, duas filhas de Steven Spielberg – e todos aceitaram, numa prova irrefutável de que o cara de fato é um fenômeno.

Licorice Pizza seguiu a trilha dos filmes anteriores do fenômeno: lançado em novembro de 2021, até outubro de 2022, que é quando escrevo esta anotação, já arrebanhou 58 prêmios, fora 190 (!) indicações, entre elas três ao Oscar, nas categorias mais importantes, de melhor filme, melhor direção e melhor roteiro original – obra dele mesmo.

Ao Globo de Ouro, foram quatro indicações, nas categorias de melhor filme = musical ou comédia, melhor roteiro de filme, melhor atriz e melhor ator em musical ou comédia para Cooper Hoffman e Alana Haim.

Ao Bafta, o prêmio da Academia Britânica, Licorice Pizza teve indicações nas categorias de filme, diretor, roteiro original, atriz para Alana Haim e montagem para Andy Jurgensen. Paul Thomas Anderson levou o prêmio de roteiro original.

Levou o prêmio de Filme do Ano do respeitabilíssimo American Film Institute, cujos respeitabilíssimos jurados escreveram o seguinte para justificar a escolha:

“Licorice Pizza oferece uma fatia de vida do passado que serve como um importante lembrete para o presente – que a alegria vive cada dia na eterna busca para o crescimento rumo à maturidade. Paul Thomas Anderson nos convida a voltar para San Fernando Valley nos anos 70 com a garantia dos maiores auters da América.”

Assim, auters, em francês, em vez de authors, que é pra ficar mais chique, tá? Ou melhor, mais chic.

E prossegue:

“Seu compromisso com imagem, música e história cria uma obra-prima de nostálgica humanidade – corporificada por dois quase novatos, Alana Haim e Cooper Hoffman, cuja química não é ofuscada pelo talento brilhante que os cerca em meio às vastas luzes cintilantes do vale.”

imagem: Como não gostar de filmes nostálgicos?

Nostalgia. Ah, que saudade que tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais…

Como era mesmo isso, que me veio assim à mente, aos neuroninhos tão velhinhos, tão gastos, de forma tão fácil? Ah, Casimiro de Abreu. “Meus Oito Anos.”

Minha mãe adorava, recitava de vez em quando. “Oh! que saudades que tenho / Da aurora da minha vida, / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais! / Que amor, que sonhos, que flores, / Naquelas tardes fagueiras / À sombra das bananeiras, / Debaixo dos laranjais! / Como são belos os dias / Do despontar da existência! / Respira a alma inocência /

Como perfumes a flor; / O mar é — lago sereno, / O céu — um manto azulado, / O mundo — um sonho dourado, / A vida — um hino d’amor! / Que aurora, que sol, que vida, / Que noites de melodia / Naquela doce alegria, / Naquele ingênuo folgar! / O céu bordado d’estrelas, / A terra de aromas cheia / As ondas beijando a areia / E a lua beijando o mar! / Ah! dias da minha infância! / Oh! meu céu de primavera! / Que doce a vida não era / Nessa risonha manhã!”

Casimiro de Abreu à parte, não há como não curtir filmes – ou canções, ou livros – que falam dos anos em que éramos jovens, nossas vontades eram mais fortes e tínhamos a vida inteira pela frente. A trilogia De Volta para o Futuro (1985, 1989, 1990), por exemplo, tem mil qualidades – mas a nostalgia, a saudade dos anos 50 seguramente explica por que tantos milhões de pessoas nascidas ali digamos entre o início da Segunda Guerra e o início da Guerra da Coréia amaram de paixão os filmes de Robert Zemeckis.

Exatamente a mesma coisa se pode dizer de A Última Sessão de Cinema (1971), aquela maravilha de Peter Bogdanovich, passada no interiorzão do Texas nos anos 1950. Ou Febre da Juventude/I Wanna Hold Your Hand (1979), também de Robert Zemeckis, e The Wonders – O Sonho Não Acabou/That Thing You Do (1996), de Tom Hanks, sobre a beatlemania e sua época. Ou Peggy Sue, Seu Passado a Espera/Peggy Sue Got Married (1986), de Francis Ford Coppola, outra absoluta maravilha. Ou o seminal – como diriam os críticos de cinema – Loucuras de Verão/American Graffiti (1973), de George Lucas.

No Brasil, temos o exemplo perfeito de Anos Dourados (1986), de Gilberto Braga e Roberto Talma, uma das mais belas séries que já vi. possivelmente uma das mais belas que já foram feitas.

Todos eles cheios de músicas da época retratada, os anos 50 e 60, a época da aurora da nossa vida, da nossa infância querida que os anos não trazem mais – e as canções são uma danada força motriz da nostalgia.

Todos esses realizadores citados aí nasceram entre 1939 e 1956 – Peter Bogdanovich e Francis Ford Coppola são de 1939, George Lucas é de 1944, Gilberto Braga de 1945, Roberto Talma de 1949, Robert Zemeckis de 1951, Tom Hanks de 1956. Faz todo sentido eles terem realizado filmes nostálgicos passados nos anos 1950 e 1960, quando eram garotos.

Paul Thomas Anderson é mais jovem que todos eles: nasceu em 1970. Fez aqui um filme cuja ação se passa quando tinha apenas 3 anos de idade.

Um garoto de 15 anos, uma jovem de 25

Em 1973, o protagonista da história, Gary Valentine estava com 15 anos, e Alana Kane, a outra protagonista, estava com 25.

Gary bate os olhos em Alana na primeira sequência do filme e pláft! Apaixona-se perdidamente. Convida a moça para jantar, e a moça responde primeiro que de jeito nenhum – e em seguida, curiosa, pergunta como ele pretenderia pagar pelo jantar, caso ela aceitasse.

Afinal, ele era um aluno da high school para a qual a empresa em que ela trabalhava – uma agência fotográfica – estava prestando serviços. Ele, um adolescente, ela, uma adulta.

A diferença de idade será, é claro, um elemento importantíssimo na história.

Cooper Hoffman, o ator que faz Gary, estava com 18 em 2021, ano de lançamento do filme. Tem a aparência perfeita de um adolescente de 15 anos. Alana Haim, que faz Alana, estava com 30 – a rigor, teoricamente, já um tanto passada para fazer o papel de uma garota de 25. Mas isso não é problema algum, porque Alana Haim não aparenta de forma alguma ter 30 anos. Na verdade, não aparenta de forma alguma ter 25. Eu tive absoluta certeza, ao ver o filme, que ela era uma menina aí uns 18 anos.

Alana Haim e Cooper Hoffman são, a meu ver, as melhores coisas deste Licorice Pizza. Disparadamente as melhores coisas do filme. E olhe que Licorice Pizza é mais que perfeito, mais que perfeito, nos aspectos técnicos, artesanais todos – fotografia, direção de arte, decoração de interiores, figurinos, tudo, absolutamente tudo.

Volto à dupla de jovens atores estreantes ou quase daqui a pouquinho. Antes seria preciso apresentar uma sinopse.

A sinopse do IMDb diz: “Situado nos anos 70, o filme segue a vida de um estudante que está se tornando um grande ator.”

Não serve para nada isso aí. Gary de fato trabalha como ator em alguns shows, produções teatrais, quando o filme começa – mas ele não está se tornando um grande ator coisa alguma. Na verdade, Gary vai abandonando a carreira de ator – o filme meio que se esquece da carreira de ator do garoto.

A empresa que distribuiu o filme nos cinemas dos Estados Unidos, United Artists Releasing, produziu o seguinte resumo: “Licorice Pizza é a história de Alana Kane e Gary Valentine crescendo, andando por aí e se apaixonando no San Fernando Valley em 1993. Escrito e dirigido por Paul Thomas Anderson, o filme acompanha a navegação traiçoeira do primeiro amor.”

Bonito! Bonito demais! Casimiro de Abreu morreria de inveja. “The film tracks the treacherous navigation of first love.” O cara que bolou essa frase deve ganhar uma quantidade estúpida de milhares de dólares…

Fiz nova tentativa com o AllMovie, aquela beleza de site, e a decepção foi ainda maior. A sinopse que eles oferecem não tem nada a ver com o que o filme mostra. “No San Fernando Valley, na Califórnia, o início dos anos 1970 testemunhou o nascimento da notável cadeia de lojas de discos Licorice Pizza. Enquanto o negócio continua a ganhar força no Estado, o ator adolescente Gary Valentine (Cooper Hoffman) navega pelos sucessos e armadilhas da florescente fama ao mesmo tempo em que atravessa o complicado terreno do primeiro amor com a charmosa Alana.”

A cadeia de lojas Licorice Pizza existe, ou existiu – mas não há lojas de discos no filme. Simplesmente não há nada relacionado a lojas de discos em Licorice Pizza.

Diabo, meu! Não se fez uma sinopse correta deste filme?

Não vi sentido algum na história. E não estou sozinho

A coisa é mais ou menos assim:

Gary e Alana ficam se conhecendo na escola do garoto. A agência fotográfica em que ela trabalhava estava prestando serviços à escola, fazendo fotos dos alunos – e acontece de os dois ficarem se conhecendo. Ele se apaixona por ela, ela fica curiosa com aquele rapaz que trabalha como ator, cuja mãe tem uma espécie de agência de comunicação, de assessoria de imprensa.

O filme começa assim, com o encontro dos dois jovens.

Como se fosse uma história normal, usual.

De repente, abandona-se a lógica. Abandona-se qualquer tipo de lógica, joga-se a racionalidade no lixo, e o garoto Gary vira um fantástico jovem empresário, que cria uma loja de colchões de água, e depois uma empresa de sei lá o quê.

O filme pira. Sai dos trilhos da razão.

Dá preguiça de continuar falando dele, perdendo meu tempo – e muito seguramente irritando o eventual leitor apaixonado pelo filme que der um Google e cair aqui e se deparar com esse texto de um sujeito que não entende nada de cinema.

(É assim que costumam reagir as pessoas que dão um Google para ler elogios ao filme que adoraram e se vêem diante de coisas que elas não gostariam de ler.)

Morrendo de preguiça, mas ao mesmo tempo me sentindo na obrigação de fazer uma anotação que tenha alguma lógica – diferentemente do filme, que não tem lógica alguma –, recorro a outras pessoas que, como eu, ficaram chocadas com este filme.

Vários leitores do IMDb ficaram tão chocados com o filme quanto eu.

Uma pessoa que se assina zkonedog fez uma apreciação do filme que me pareceu admirável. O título que ele deu já sintetiza sua opinião: “Uma obra-prima estética que é também desprovida de qualquer trama discernível ou significado”. Trechos:

“Em termos de qualidades estéticas, como a habilidade para colocar o espectador em um contexto (neste caso Los Angeles nos anos 1970), uma maravilhosa trilha sonora, algumas sequências brincalhonas engraçadas, e fotografia sensacional. Verdadeiramente uma obra-prima técnica em quase todos os sentidos. Infelizmente, Licorice Pizza não é um grande filme por uma razão específica: falta completa e absolutamernte uma trama ou um sentido para tanta expertise técnica.”

O leitor do IMDb que se assina paulclaassen também fez interessantes observações . “Fiquei curioso com o título. O filme leva o nome de uma cadeia de lojas de discos chamada Licorice Pizza. Também de acordo com o diretor Paul Thomas Anderson, as duas palavras, licorice e pizza, trazem memórias da infância, e ele gostou do som delas para um filme sobre adolescência. Tenho muitas questões quanto a esse filme tão aclamado. (…) Com tantos personagens aparecendo e sumindo, perdi completamente a noção sobre eles, e tudo me pareceu um bando de contos grudados uns nos outros para fazer um filme. Não achei o personagem de Gary crível. O cara tem tantas mudanças de estado de espírito que é difícil compreendê-lo. Ele é um ator e um empreendedor e um homem de negócios aos 15 anos…”

O leitor latinfineart escreveu no IMDb: “Gostaria muito de ter gostado desse filme, mas achei que não há absolutamente nada nele. Não entendi por que esses dois poderiam combinar. O filme é uma diatribe nonsense, não faz sentido algum, em nível algum. Não é engraçado, embora haja alguns momentos em que dá para rir, mas é uma história cansativa.”

Dois jovens atores surpreendentes, impressionantes

Cooper Hoffman é uma maravilhosa revelação.

Mesmo em um filme tão absurdamente ilógico, metido a besta, sem qualquer sentido como este aqui, o rapaz nos dá uma belíssima interpretação. É o perfeito adolescente inteligente, sensível, mas atrapalhado, enrolado, que a gente já viu mil vezes na vida – e talvez até aquele que a gente de fato foi.

Foi sua primeira experiência diante das câmaras.

O sobrenome Hoffman entrega: o garoto é filho do grande Philip Seymour Hoffman (1967–2014), aquele extraordinário, monstruoso ator, 91 prêmios, inclusive o Oscar por sua interpretação do escritor Truman Capote em Capote (2005), e outras 101 indicações, inclusive três ao Oscar, por Jogos do Poder/Charlie Wilson’s War (2007), Dúvida/Doubt (2008) e O Mestre/The Master (2013).

É uma dureza danada filho de pessoa que é genial em sua área se aventurar pela mesma seara do pai ou da mãe – mas há muitos exemplos de gente que deu certo. Maria Rita e Gonzaguinha, para falar da MPB, que o digam. Jane Fonda, Liza Minnelli, idem. Pelo que mostrou neste Licorice Pizza, se esse garoto Cooper Hoffman quiser, terá uma bela carreira.

Agora, essa moça Alana Haim… Meu, ela é extraordinária, fora de série, fora de jeito.

Alana Haim, 30 anos de idade no lançamento deste filme, aparência de uns 18, 19, no máximo 20, é fascinante, apaixonante. Tem magnetismo, tem carisma. Não é linda, não, de forma alguma. Nem é, nem de longe, algo próximo do que a gente chamava de mulher gostosa.

(Falar hoje que uma mulher é gostosa faz da gente um maldito chauvinista, um cão danado, um sexista furioso, um estuprador em potencial? Acho que sim…)

A moça não tem nada a ver com o que era o protótipo da mulher gostosa para o brasileiro médio de alguns anos atrás. É magricela, quase uma Olívia Palito da interpretação magnífica de Shelley Duvall no Popeye de Robert Altman de 1980.

E no entanto ela é fascinante, apaixonante, magnética, carismática. Tem uma presença na tela que é de fato fora de série, fora de jeito.

O IMDb elenca 21 títulos na filmografia de Alana Haim no momento em que escrevo, outubro de 2022. Nada mais enganador. Em 2019 ela havia participado de um curta-metragem chamado Lonely Island e os Irmãos Bash; Licorice Pizza foi seu primeiro longa-metragem como atriz. Todos os demais títulos foram vídeos musicais, clipes – ela é um dos membros da banda Haim, um grupo formado por três moças, três mulheres, três irmãs, Este, Danielle e Alana Haim.

Neste filme Licorice Pizza, a protagonista Alana Kane aparece em algumas sequências com suas irmãs Este e Danielle, e também com seus pais, Moti e Donna. As duas irmãs e os pais são representados no filme pelas irmãs e pais de Alana Haim na vida real – um detalhe interessante, gostoso.

Ainda não fui ao Google para ouvir e ver a banda Haim. Não sei como será a música delas.

Mas posso afirmar com toda certeza: Alana Haim, como atriz, é um fenômeno.

Mesmo em um filme tão besta. Perdão, um filme que eu, pessoalmente, considero tão besta.

Se eu tivesse me encaminhado na vida para ser um scholar, um acadêmico, talvez me interessasse por uma dissertação de pós-graduação com um título tipo: “Para tentar compreender a fascinação da crítica e dos jurados de festivais de cinema por realizadores absolutamente destituídos de lógica e proximidade com a vida real”, subtítulo “Uma análise dos filmes dos diretores mais chatos da História do Cinema”.

Paul Thomas Anderson, Peter Greenaway, Hal Hartley… Afe!

Anotação em outubro de 2022

Licorice Pizza

De Paul Thomas Anderson, EUA-Canadá, 2021

Com Alana Haim (Alana Kane),

Cooper Hoffman (Gary Valentine)

e Sean Penn (Jack Holden), Tom Waits (Rex Blau), Bradley Cooper (Jon Peters), Benny Safdie (Joel Wachs), Maya Rudolph (Skyler Gisondo), Skyler Gisondo (Lance), Emma Dumont (Brenda), John C. Reilly (Fred Gwynne), John Michael Higgins (sem nome), Ryan Heffington (Steve), Mary Elizabeth Ellis (Benny Safdie), Nate Mann (Brian), Christine Ebersole (Lucille Doolittle), Harriet Sansom Harris (sem nome), Joseph Cross (sem nome), Sasha Spielberg (Cindy), Moti Haim (Moti), Donna Haim (Donna), Este Haim (Este), Danielle Haim (Danielle), Ray Chase (Emily Althaus), Emily Althaus (Kiki Page), Isabelle Kusman (Sue Pomerantz), George DiCaprio (sem nome), Destry Allyn Spielberg (Frisbee Kahill),Yumi Mizui (Mioko), Megumi Anjo (Kimiko)

Argumento e roteiro Paul Thomas Anderson

Fotografia Paul Thomas Anderson, Michael Bauman

Música Jonny Greenwood

Montagem Andy Jurgensen

Casting Cassandra Kulukundis

Desenho de produção Florencia Martin

No Now. Produção Paul Thomas Anderson, Adam Somner, Metro-Goldwyn-Mayer, Focus Features, Bron Creative, Ghoulardi Film Company.

Cor, 133 min (2h13)

Fonte: 50 anos de filmes por Sergio Vaz

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