21 de abril de 2024
Cinema

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal / Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull (por Sérgio Vaz)

De: Steven Spielberg, EUA, 2008

(Disponível no Telecine/Now em junho de 2023.)

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, de 2008, o quarto filme da saga, foi o que mais juntou superlativos, nos mais variados quesitos. Foi, disparadamente, o mais exagerado – o exagero do exagero do exagero. O que mais demorou para chegar às telas em relação ao anterior. O que custou mais caro – e o que rendeu mais dinheiro na bilheteria. O que recebeu menos indicações a prêmios. O que teve pior avaliação do público.

E eu estou nessa. Na minha opinião, este é o pior dos quatro primeiros filmes da série.

Não que seja um filme ruim. Isso ele não chega a ser – até porque Steven Spielberg é incapaz de fazer alguma coisa ruim. Mas é de longe o pior dos quatro.

Vamos lá, quesito por quesito.

Passaram-se 19 anos entre Indiana Jones e a Última Cruzada, de 1989, e este aqui. Foi uma distância ainda maior do que a que separou este quarto filme e o quinto da série, o Indiana Jones e a Relíquia do Destino de 2023, que está para estrear nos cinemas quando escrevo esta anotação, junho de 2023. Foram 17 anos agora…

É fantástico pensar que, no ano da quinta aventura da série, Harrison Ford está com 81 anos. Há um momento ainda na metade inicial deste … e o Reino da Caveira de Cristal em que o garotão Mutt Williams (o papel de Shia LaBeouf) pergunta para Indiana-Harrison Ford: – “Quantos anos o senhor tem? Uns 80?” Indiana-Harrison Ford lança a ele um olhar furibundo – quase dá para a gente ver fumacinha verde saindo de suas narinas. Tipo assim: Sou velho po%4# nenhuma, garoto!

Em 2008, Harrison Ford era um jovem de 66 anos.

Em 1981, quando, em Caçadores da Arca Perdida, Indiana Jones se reencontrou por acaso o grande amor de sua vida, Marion Ravenwood (a fascinante Karen Allen), envolvida no meio de um desafio de quem-bebe-mais-copinho-de -destilado-mais depressa-e-continua-de-pé com um sujeito imenso, em um botequim apinhado de gente no Nepal, ele vinha na pele e no corpitcho de um Harrison Ford garotão de apenas 39 anos de idade.

O reaparecimento de Marion Ravenwood-Karen Allen é, na minha opinião, uma das melhores coisas de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. Mas ainda não é hora de falar disso. Estou apresentando os quesitos em que o filme é superlativo – “o mais” e/ou “o menos”.

Maior orçamento, maior renda – e menor aprovação

Este quarto filme da série custou US$ 185 milhões, ante US$ 48 milhões do terceiro, que havia sido o mais caro até então. Nas bilheterias, rendeu US$ 790 milhões, muitíssimo mais que os US$ 474 milhões do terceiro.

Bem. Os números são da Wikipedia e também do IMDb – mas é possível que haja aí um efeito da inflação. É claro que os US$ 48 milhões gastos para fazer aquela beleza que é Indiana Jones e a Última Cruzada em 1989 seriam muito mais que isso 19 anos depois. Mesmo levando isso em conta, no entanto, as diferenças são brutais.

Este Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal obteve no total 10 prêmios mundo afora. Bem menos que os 38 prêmios do primeiro, Caçadores da Arca Perdida – que teve nada menos de nove indicações ao Oscar, e levou quatro estatuetas. O segundo e o terceiro filme da saga tiveram respectivamente duas e três indicações ao prêmio da Academia – e este quarto aqui não recebeu nenhuma indicação.

Menos prêmios – e menos aprovação da crítica e do público. Caçadores da Arca Perdida é quase uma unanimidade: teve 93% de aprovação da crítica e 96% do público, segundo o site agregador Rotten Tomatoes, e nota 8,4 na média dos leitores do IMDb. Com este quarto aqui aconteceu um fenômeno, segundo os números do Rotten Tomatoes: a crítica gostou mais do filme (77% de aprovação) do que o público (53%). A menor aprovação do público é confirmada pelo IMDb: a nota média foi de apenas 6,2.

A tabela abaixo apresenta todos esses números – e muitas outras informações sobre os quatro primeiros filmes com as aventuras de Indiana Jones.

É muita inverossimilhança demais da conta

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal exagera no quesito exagero.

O primeiro grande exagero do filme vem já logo após a primeira sequência – uma sequência, claro, muitíssimo bem realizada. Enquanto vão rolando, calmamente, os créditos iniciais, vemos um carrinho dos bem antigos correndo a toda numa estradinha no meio do grande nada do que parece ser – e é – o Oeste americano. No carrinho vai um grupo de adolescentes, dois rapazes na frente, três garotas atrás, muito alegres, curtindo a vida e a velocidade adoidados. O carrinho encontra pela frente um comboio de veículos das Forças Armadas dos U.S. of A. – e vai ultrapassando um a um os veículos militares, até emparelhar com o carro que vai à frente do comboio.

O rádio do carro toca a toda “Hound Dog”, na gravação que qualquer pó da areia do deserto de Nevada sabe que Elvis Presley fez em 1956. E as garotinhas passam o tempo todo incitando os sérios motoristas dos veículos militares a acelerar, a competir com eles na velocidade…

De repente, o comboio militar sai daquela estradinha, vira à esquerda, e se dirige ao portão de uma base militar. Os créditos iniciais acabaram, um letreiro informou que estamos em Nevada, 1957.

Um militar avisa aos “colegas” que acabaram de chegar que eles não poderão entrar: a base está totalmente fechada, para a realização de experimentos ultra hiper top secretíssimos.

Os recém-chegados reagem a isso metralhando todos os militares que defendiam a entrada da base – e a invadem.

São russos, perdão, soviéticos! Reds, meu! Commies! Comunistas!

Ah, péra lá, meu…

Tudo bem: nos três filmes anteriores da série, houve muito exagero. Mas mostrar um grupo de uns 30 ou 40 russos, perdão, soviéticos, que conseguiram se disfarçar perfeitamente de militares dos U.S. of A., e estão agora invadindo e tomando posse de uma base em pleno deserto de Nevada…

Ah, não… Aí já é demais da conta…

Isso eu pensei quando o filme estava começando, aí com uns cinco de seus 122 minutos. Os exageros estavam só começando. Antes que a gente chegue a 20 minutos, Indiana Jones já conseguiu se salvar de uma explosão nuclear trancando-se dentro de uma geladeira – e, para tornar a coisa mais plausível, mais verossímil, aponta-se que uma geladeira tem um componente de chumbo…

Ah, não… Mas aí já é demais de demais…

Isso eu pensei antes de ver gigantescas cachoeiras no Rio Amazonas e a fantástica cidade de ouro ali no meio da floresta, que talvez tenha sido construída pelos deuses que eram astronautas, ou não, já que, afinal, eles não vão para o espaço, mas para um espaço entre os espaços, conforme alguém diz ao final desta aventura criada – parece – à base do alucinógeno mais potente que já houve.

Tudo bem. Eu admito, eu confesso: sou um pouquinho parecido com o Idiota da Objetividade de que nos falava Nelson Rodrigues. Tenho a mania idiota de gostar de histórias que sejam próximas – ainda que levemente – do verossímil. Mas não sou xiita nisso aí, não. De forma alguma. Consigo perfeitamente entrar numas e curtir inverossimilhanças como tantas as que vieram nas três aventuras anteriores de Indiana Jones.

Mas esta quarta, aqui, pelamordeDeus, ela exagera o exagero do exagero do exagero do exagero por demais da conta.

Aquela interminável sequência dos Mocinhos sendo perseguidos pelos Bandidos através da Floresta Amazônica, e o jovem herói Mutt Williams, de pé num jipe, lutando espada com a Bandida Mór, a cientista queridinha de Stálin, Irina Spalko, de pé em outro jipe…

Ah, não…

Uma cidade de ouro escondida na Amazônia

É muito gostoso ver Cate Blanchett, essa atriz fantástica, talentosíssima, fazendo a cientista queridinha de Stálin. Ela parece ter se divertido muito fazendo a soviética sisuda, dura, que não sorri jamais, no meio de tanta cena de ação.

Assim como os nazistas estavam querendo chegar à Arca Sagrada antes dos americanos no filme 1, ou botar as mãos no Cálice Sagrado antes dos americanos no filme 3, aqui os comunistas querem descobrir o segredo das caveiras de cristal e chegar à cidade de ouro escondida na Floresta Amazônia antes que Indiana Jones o faça. Essa é a base da trama do quarto filme da saga – saem os nazistas, entram os comunistas. O que é bastante natural, já que os primeiros filmes se passam entre 1935 e 1938, quando os nazistas preparavam sua máquina de guerra para conquistar a Europa, o mundo, e este aqui, com Indiana Jones aos 66 anos de idade, se passa em 1957, em plena Guerra Fria.

Aos 66 anos, Indiana Jones espanca tantos comunistas quanto, na faixa dos 40, espancava nazistas.

Mas Steven Spielberg é inteligente, safo, lúcido. Ao mesmo tempo em que seu herói bate nos comunistas, o filme faz a crítica – boa, correta, firme – à paranóia anticomunista que tomou conta dos Estados Unidos naqueles anos 50, com o macartismo, a caça às bruxas, a lista negra que impediu que centenas de pessoas do cinema e da televisão mantivessem seus empregos nos estúdios e nas redes.

O FBI passa a suspeitar que Indiana Jones possa estar trabalhando para os soviéticos, e exige que a universidade onde ensina Arqueologia o demita. Uma hora lá, Indiana diz uma frase ótima, perfeita síntese da época: – “Estão vendo comunistas até na sopa!” E. no meio de uma sequência de perseguição de carro, vemos uma manifestação de estudantes universitários anticomunistas, com a palavra de ordem “Better dead than red”, melhor morto que vermelho, só que com rima.

Demitido da universidade, Indiana Jones está para sair de sua cidade quando surge na história o garotão Mutt Williams (o papel, repito, de Shia LaBeouf), com a informação de que o professor Harold Oxley está sendo ameaçado de morte. Fazia uns 20 anos que Indiana não via o grande amigo e colega Oxley, um arqueólogo que sempre havia sido fascinado com a lenda que envolvia caveiras de cristal e a cidade perdida de Akator, também conhecida por Eldorado, ou El Dorado.

Indiana conta a lenda (ou seria uma verdade histórica?) para o garotão e para o espectador, depois que Mutt explica que sua mãe era grande amiga de Oxley, desde sempre, e que seis meses antes ela havia recebido uma carta dele, enviada do Peru, dizendo que havia encontrado uma caveira de cristal e também pistas que poderiam levar à cidade de Akator.

– “Akator é uma cidade mítica perdida na Amazônia. Os conquistadores a chamavam de El Dorado. A tribo Ugha teria sido escolhida pelos deuses, 7 mil anos atrás, para construir uma cidade de ouro puro. Tinha aquedutos e estradas pavimentadas e tecnologia que só viria a ser conhecida 5 mil anos mais tarde. Francisco de Orellana desapareceu na Amazônia em 1546 quando procurava por ela. Eu mesmo quase morri de tifo tentando encontrá-la. Não acredito que ela exista.”

Mutt conta então que Oxley havia sido sequestrado; Que a mãe dele havia ido para o Peru tentar ajudar o velho amigo, e então pedira que o garoto achasse Indiana Jones – ele era a pessoa mais indicada para ajudá-los.

É nesse ponto que começa de fato a aventura principal da trama: Indiana e o garoto Mutt embarcam para o Peru, em busca primeiro do professor Oxley e da mãe do rapaz, e depois, claro, da cidade de ouro perdida na Amazônia. É óbvio que os comunistas, liderados pela dra. Irina Spalko, também estão atrás da cidade perdida feita de ouro.

A mãe de Mutt – o espectador e Indiana descobrirão juntos – é Marion Ravenwood-Karen Allen, que, 20 anos antes, nosso herói, bobão, havia abandonado uma semana antes da data marcada para o casamento.

Rever essa bela mulher é um imenso prazer para Indiana Jones – e para o espectador.

O filme fala de relações familiares, afetivas

Assim como o terceiro filme da saga, este … e o Reino da Caveira de Cristal trata de relações afetivas, relações familiares. E esta é uma de suas melhores qualidades, se não a melhor de todas. Tudo bem – as sequências de ação são as que mais agradam à maior parte do imenso público que adora a saga Indiana Jones. E são tão boas, tão competentes, que agradam mesmo a pessoas que, como Mary, como eu, não somos fãs desse tipo de coisa. Este quarto filme da série até exagera na quantidade de sequências de ação – mas tem espaço para as relações afetivas e familiares.

Antes de os dois embarcarem para o Peru, Mutt conta para Indiana que a mãe insistia demais para ele continuar os estudos, mas ele tinha abandonado a escola mesmo assim. Àquela altura, Indiana já havia convivido algum tempo com Mutt, e observara que ele tinha bastante talento na área que ele próprio domina completamente – a aventura, as lutas, o safar-se de situações críticas. E por isso relativiza a necessidade de o garoto estudar, terminar os cursos, especializar-se. – “Não há nada errado com você, garoto. Não ligue para quem disser o contrário.”

Mais adiante, depois do reencontro com Marion, no Peru, há o seguinte diálogo:

Marion: – “Mutt às vezes fica um pouco impetuoso.”

Indiana: – “Bem, isso não é a pior qualidade do mundo.”

E, depois de algum tempo, ele acrescenta: – “Ele é um bom garoto, Marion. Você não deveria se preocupar com a coisa de ele voltar para a escola. Nem todo mundo é feito para isso.”

Marion faz então uma revelação – e aí Indiana Jones diz, furiosamente indignado: – “Por que raios você não o obrigou a terminar a escola?”

Há ótimas piadas ao longo de todo o filme, mas, para mim, esta é a melhor.

“A volta de Harrison Ford é mais que bem-vinda”

Eis o resumo das opiniões da crítica, segundo o site Rotten Tomatoes: “Embora os elementos da trama sejam certamente familiares,

Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull ainda garante as emoções, e a volta de Harrison Ford ao papel título é mais do que bem-vinda.”

Leonard Maltin dá 3 estrelas em 4 ao filme: “Depois de um hiato de 19 anos, Indy volta com a mesma marca de alta aventura que marcou o original Raiders of the Lost Ark. Em 1957, o intrépido arqueólogo-professor enfrenta espiões russos (incluindo uma astuta Blanchett), depois se une a um jovem (LaBeouf) que tem uma carta de um velho amigo, agora perdido nas florestas do Peru, que pode levá-los até a Caveira de Cristal de Akator e à cidade perdida de El Dorado. Abre com ação estrondosa, cai em uma calmaria e, em seguida, acelera em alta velocidade até um final de encher os olhos. Ford reassume de ótima forma o papel que inventou. Escrito por David Koepp com base em história de George Lucas e Jeff Nathanson.”

O grande Roger Ebert adorou o filme, ao qual deu 3,5 estrelas em 4. Eis o início de seu longo texto:

“Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull. Diga isso em voz alta. Só o título já faz a pulsação aumentar se você, como eu, for um amante de pulp fiction (algo como ficção popularesca). O que eu quero é muita ação. Quero homem comendo formigas, lutas de espada entre duas pessoas se equilibrando na traseira de jipes correndo a toda, cavernas subterrâneas de ouro, mulheres fatais perversas, quedas sucessivas em três cachoeiras, e uma explicação para discos voadores. Com um monte de macacos. Os filmes de Indiana Jones foram dirigidos por Steven Spielberg e escritos por George Lucas e um pequeno exército de roteiristas, mas eles existem em um universo próprio. Diabo, eles criaram esse universo.”

Anotação em junho de 2023

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal/Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull

De Steven Spielberg, EUA, 2008

Com Harrison Ford (Indiana Jones)

e Cate Blanchett (Irina Spalko, a cientista soviética),

Karen Allen (Marion Ravenwood),

Shia LaBeouf (Mutt Williams, o filho de Marion),

Ray Winstone (George Michale, Mac, amigo de Indiana), John Hurt (professor Harold Oxley), Jim Broadbent (Charles Stanforth, o reitor), Igor Zhizhikin (Dovchenko), Dimitri Diatchenko (funcionário ruisso), Ilia Volok (funcionário russo). Emmanuel Todorov (soldado russo), Pasha D. Lychnikoff (soldado russo), Alan Dale (General Ross), Joel Stoffer (Taylor), Neil Flynn (Smith)

Roteiro David Koepp    

Baseado em história de George Lucas e Jeff Nathanson 

E em personagens criados por George Lucas e Philip Kaufman

Fotografia Janusz Kaminski

Música John Williams

Montagem Michael Kahn

Casting Debra Zane

Desenho de produção Guy Hendrix Dyas

Figurinos Mary Zophres

Produção Frank Marshall, Paramount Pictures, Lucasfilm, The Kennedy/Marshall Company.

Cor, 122 min (2h02)

R, **1/2

Fonte: 50 anos de filmes

O Boletim

1 Comentário

  • RACHEL ALKABES 17 de julho de 2023

    Sérgio, é um prazer ler suas críticas, seus comentários sarcásticos e a profundidade do seu conhecimento de cinema.

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