17 de abril de 2024
Colunistas Mary Zaidan

Não temos paz

Os terríveis conflitos lá fora deveriam nos fazer mais humanos, nos obrigando a cuidar das nossas vítimas.

Hoje é Dia do Professor; amanhã, 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação. Datas simbólicas, importantes, mas difíceis de serem comemoradas em um Brasil que falha feio em ambas as áreas. Faltam apreço, respeito e reconhecimento aos mestres, muitos deles submetidos a condições para lá de precárias. Falta comida nesta que é uma das maiores potências agropecuárias do planeta, incapaz de garantir segurança alimentar a 32% de sua população – 70,3 milhões de brasileiros, 21 milhões vítimas de fome.

O país tem 2,2 milhões de professores, 1,37 milhão no ensino básico, 516 mil no médio e 323 mil no superior. Na primeira etapa, as mulheres são maioria absoluta – 77,5%, segundo o último Censo Escolar do Inep, realizado em 2022. A remuneração varia entre municípios e estados, a partir do piso de R$ 4,4 mil por 40 horas semanais, não raro desrespeitado.

Nas grandes cidades, docentes reclamam de descaso e desinteresse dos alunos. E de violência, incluindo relatos de ameaças à integridade física. Isso justifica a queda de interesse pela profissão. Dados do questionário anexo ao Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade 2021) apontam que 20% dos alunos do quinto ano dos cursos de licenciatura do país não querem ser professores.

Ao déficit de interesse soma-se a má qualidade da formação para o magistério, com cursos cada vez mais precários, muitos deles ministrados integralmente à distância, com impactos irrecuperáveis na educação das crianças e jovens.

O combate à fome, bandeira empunhada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva desde o seu primeiro mandato e que continua sendo tecla central de suas falas nos fóruns mundiais, ainda não pegou no tranco no Lula 3. A produção e a exportação de alimentos do país continuam batendo recordes, e a fome não cede.

Para além do Bolsa Família – ampliação do Bolsa-Escola do antecessor Fernando Henrique Cardoso, rebatizado pelo ex Jair Bolsonaro e retomado por Lula com o nome original -, não se viu novidade nas políticas públicas para estancar a insegurança alimentar. Prova disso são os discursos oficiais: Lula continua citando os mesmos 30% de brasileiros que não fazem três refeições por dia. Número idêntico ao que criticava nos palanques da campanha eleitoral, há um ano.

O PT, que dirige o país pela quinta vez, brada e bate no peito ao dizer que tirou o Brasil do Mapa da Fome elaborado pela ONU. É verdade. O país chegou a sair desse perverso ranking em 2014. Mas voltou a figurar nos relatórios um ano depois, em 2015, durante a gestão de Dilma Rousseff. Em 2020, a pandemia fez o quadro se agravar ainda mais.

Números e percentuais, mesmo tão graves quanto os da fome no Brasil, têm o dom de despersonalizar o problema e, assim, reduzi-lo. As crianças ianomâmis em pele e osso falam mais alto do que 9,9% de brasileiros famintos. Ou que o genocídio de povos originários, com nada menos do que 800 indígenas assassinados durante o governo Bolsonaro, conforme informa o relatório anual do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), divulgado em julho deste ano.

Costumamos nos ocupar com problemas distantes desviando os olhos do nosso quintal. Na última semana, a invasão da Rússia à Ucrânia, que já dura 19 meses, perdeu audiência para o ataque bárbaro dos terroristas do Hamas em Israel e a contra-ofensiva em Gaza. Natural que assim seja. Melhor seria se os terríveis conflitos lá fora nos fizessem mais humanos e nos obrigassem a cuidar de nossas vítimas.

Faltam condições mais dignas para os professores, falta educação básica. Falta comida no país que é um dos líderes na produção de alimentos. Sobram sem-vergonhice e corrupção. Sobram pobreza e miséria; sobra violência. Dez das 50 cidades mais letais do mundo estão no Brasil. Ostentamos a vexaminosa oitava posição em número de assassinatos – 40,8 mil em 2022, quase 19,7 mil só no primeiro semestre deste ano. Duas dezenas de crianças mortas por balas perdidas. Não temos guerras, mas não temos paz.

Fonte: Blog do Noblat

Mary Zaidan

Jornalista, mineira de Belo Horizonte, ex-Rádio Itatiaia, Rádio Inconfidência, sucursais de O Globo e O Estado de S. Paulo em Brasília, Agência Estado em São Paulo. Foi assessora de Imprensa do governador Mario Covas durante toda a sua gestão, de 1995 a 2001. Assina há mais de 10 anos coluna política semanal no Blog do Noblat.

Jornalista, mineira de Belo Horizonte, ex-Rádio Itatiaia, Rádio Inconfidência, sucursais de O Globo e O Estado de S. Paulo em Brasília, Agência Estado em São Paulo. Foi assessora de Imprensa do governador Mario Covas durante toda a sua gestão, de 1995 a 2001. Assina há mais de 10 anos coluna política semanal no Blog do Noblat.

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