19 de maio de 2024
Lucia Sweet

Shakespeare, o soneto XVIII e eu


Quem me conhece sabe que leio poesia todos os dias. É tão vital, para mim, quanto o ar que respiro. Por isso , para desejar um Feliz Ano Novo, quero começar 2018 postando a mais bela poesia – na minha opinião, claro – que eu já li. Trata-se do Soneto XVIII de Shakespeare ( que escreveu 154 deles). Posto em inglês, com três traduções em português. Deliciem-se!
Como eu acho que não existe coisa mais linda do que um dia de verão, quando li pela primeira vez neste soneto que Shakespeare dizia que a Amada era mais linda do que um dia de verão por ser mais adorável e amena, foi amor à primeira vista. Em alusão ao declínio da beleza, Shakeaspeare também faz uma promessa à imortalidade da Amada, ao dizer que ela viverá em seus versos enquanto o homem respirar e os olhos puderem ver. Essa promessa de imortalidade é um lugar comum greco-latino e renascentista. Mas isso não significa que alguma coisa que Shakespeare tenha escrito possa ser considerada lugar-comum.
Sonnet XVIII
Shall I compare thee to a summer’s day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer’s lease hath all too short a date:
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimm’d;
And every fair from fair sometime declines,
By chance or nature’s changing course untrimm’d;
But thy eternal summer shall not fade
Nor lose possession of that fair thou owest;
Nor shall Death brag thou wander’st in his shade,
When in eternal lines to time thou growest:
So long as men can breathe or eyes can see,
So long lives this and this gives life to thee.
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Soneto 18
Tradução de Barbara Heliodora
Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.
Às vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na eterna mutação da natureza.
Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:
Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.
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Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos
A um dia de verão como hei de comparar-te?
Vencendo-o em equilíbrio, és sempre mais amável:
Em maio o vendaval ternos botões disparate,
E o estio se consome em prazo não durável;
Às vezes, muito quente, o olho do céu fulgura,
Outras vezes se ofuscava a sua tez dourada;
Decai da formosura, é certo, a formosura,
Pelo tempo ou o acaso enfim desardonada:
Mas teu verão é eterno, e não desmaiará,
Nem hás de a possessão perder de tuas galas;
Vagando em sua sombra o Fim não te verá,
Pois neste verso eterno ao tempo te igualas:
Enquanto o homem respire, e os olhos possam ver,
Meu canto existirá, e nele hás de viver.
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Tradução de Thereza Christina Roque da Motta,
Como hei de comparar-te a um dia de verão?
És muito mais amável e mais amena:
Os ventos sopram os doces botões de maio,
E o verão finda antes que possamos começá-lo:
Por vezes, o sol lança seus cálidos raios,
Ou esconde o rosto dourado sob a névoa;
E tudo que é belo um dia acaba,
Seja pelo acaso ou por sua natureza;
Mas teu eterno verão jamais se extingue,
Nem perde o frescor que só tu possuis;
Nem a Morte virá arrastar-te sob a sombra,
Quando os versos te elevarem à eternidade:
Enquanto a humanidade puder respirar e ver,
Viverá meu canto, e ele te fará viver.
Lucia Sweet

Jornalista, fotógrafa e tradutora.

Jornalista, fotógrafa e tradutora.

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