14 de julho de 2024
Colunistas Lucia Sweet

Meu presente de Carnaval


Não me faltou escola. Meus almoços semanais com Paulo Mercadante, um dos maiores pensadores do Brasil, enriqueceram minha vida e meu pensamento.
Seu livro “A Coerência das Incertezas”, também publicado pelo renomado Instituto Camões, da Fundação Lusíadas de Portugal, teve o prefácio assinado por Olavo de Carvalho, que o admirava. Recomendo que seja lido com atenção. Ao final, crítica de autoria de Claudio Lembo publicada na Folha antes de ser Falha. Livro muito pouco conhecido no Brasil. Paulo Mercadante era um grande e discreto advogado. Entre seus clientes, seus amigos Paulo Francis e Aurélio Buarque de Hollanda.
PREFÁCIO de Olavo de Carvalho
“Quando levada às suas últimas consequências, a história das mentalidades desemboca na história do subconsciente, que é, a fortiori, o subconsciente da história. Por baixo das ideologias, começa a revelar-se a camada mais decisiva e misteriosa dos nexos sutis entre a história linear e o tempo cíclico do mundus imaginalis, a esfera dos símbolos, mitos e imagens primordiais que, desaparecendo e aparecendo à superfície dos factos com regularidade assustadora, parecem constituir algo como o quadrante onde se movem os ponteiros da história.
A partir dos anos 60, esse domínio, que mui apropriadamente recebeu o nome de meta-história, foi despertando a atenção de notáveis pesquisadores em todo o mundo. Henry Corbin, Jean-Charles Pichon, Eric Voegelin, Raymond Abellio mostraram que as relações entre história e mito não se explicavam pela mera distinção grosseira da infraestrutura material e da superestrutura ideal a que as tinha reduzido a mistura de marxismo e positivismo, dominante nos meios académicos desde o século passado e hoje, felizmente, moribunda. Muitas vezes, os mitos pareciam prefigurar a história, determinando de algum modo o seu curso: longe de serem puras criações dos homens históricos, eles tinham uma força criadora e determinante por si próprios. A sua presença activa, encoberta pela sucessão dos factos político-sociais, revelava-se de tempos em tempos pela recorrência dos mesmos símbolos, das mesmas imagens, que, emoldurando o imaginário dos personagens, determinavam invisivelmente o curso dos seus pensamentos e das suas decisões. Foi ao estudo dessa ordem de coisas que Mercadante, isolado da tagarelice ambiente, se dedicou cada vez mais.
A essa ciência misteriosa e desafiadora, Mercadante acrescentou, porém, uma ênfase nova e pessoal, derivada dos estudos de ciência física que, desde a juventude, o ocuparam apaixonadamente. Isso permitiu que ele se integrasse, como portador de uma contribuição bastante original, numa linha de investigações que, no mundo, é ainda nova e mal compreendida e, no Brasil, é radicalmente ignorada pelo establishment universitário. Vamos defini-la. À medida que no campo das ciências humanas se desmoralizava as noções de progresso linear e de causalidade predominante, dissolução similar sofria, na ciência física, o determinismo mecanicista. A constatação desse duplo fracasso abriu para alguns estudiosos um campo de trabalho que é hoje o mais promissor de todos: a investigação das analogias entre causalidade física e causalidade histórica, ambas compreendidas segundo uma matriz quântica e indeterminista. Tal é o tema das investigações que, referidas especificamente à fenomenologia histórica luso-brasileira, Paulo Mercadante nos apresenta neste livro extraordinário.
Nesse campo, os símbolos, surgidos do impacto das percepções sensíveis sobre a memória e a imaginação, aparecem como condensados de experiências e de expectativas, formando uma espécie de substracto imaginativo da inteligência racional. Assim, no domínio da acção colectiva, qualquer ideia, qualquer decisão remetem sempre a um fundo simbólico que as emoldura, limita e, até certo ponto, determina. Os símbolos pairam sobre a história como possibilidades de concepção que, em certos momentos, “descem” e se convertem em possibilidades de acção.”
Olavo de Carvalho
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Biografia de Paulo Mercadante
Nasceu em Carangola, Minas Gerais, em 23 de junho de 1923, filho de Xenofonte Mercadante e de Adélia de Freitas Mercadante. Seu pai, nascido em Campos, RJ, de família de humanistas e músicos da Itália meridional (da qual fez parte o compositor Savério Mercadante), foi advogado e integrado em 1946 à bancada do Partido Social Democrático na Constituinte mineira.
Paulo Mercadante cursou humanidades em sua cidade natal, fundando, em 1937, com colegas do ginásio, um jornal semanal – O Ariel. Também foi membro do grupo engajado à esquerda, então na ilegalidade em razão do movimento insurrecional de 1935. Após o serviço militar, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde, feitos os preparatórios, prestou exame vestibular à Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Foi, de 1945 a 1946, presidente do Centro Acadêmico Luís Carpenter e delegado no Congresso da UNE, participando ativamente dos movimentos universitários pela anistia, convocação de Constituinte e abertura democrática.
Licenciado, dedicou-se ao magistério, lecionando, até 1951, várias dis­ciplinas, inclusive Filosofia. Dois anos mais tarde, casou-se com Ana Elisa Viana Mercadante, nascida Lichtenfels Viana, médica psicanalista, vindo o casal a ter dois filhos e uma filha.
Entregou-se no Rio de Janeiro à atividade profissional de advogado, nos ramos civil e comercial. Retomou as pesquisas, iniciadas em sua puberdade, sobre a Mata Mineira, a comunidade natal e a região fluminense, percorrendo-as todas.
Nos anos 60, tomou parte de diversos grupos de estudos para o aperfeiçoamento de sua formação científica, publicando, ainda, em colaboração com Antônio Paim, os Estudos de Filosofia, de Tobias Barreto, em edição oficial do Ministério da Educação e do Instituto Nacional do Livro. Em 1990, dirigiu com Antônio Paim a publicação, em dez volumes, das Obras completas de Tobias Barreto, em edição do Ministério da Cultura e do Governo de Sergipe. Ingressando no Instituto Brasileiro de Filosofia, dá início à sua colaboração na Revista Brasileira de Filosofia. Também publica em 1965 o seu livro mais conhecido – A consciência conservadora no Brasil – sobre a formação histórica nacional.
Nos anos 70, estendeu sua atividade profissional ao exterior, circunstância que lhe facultaria divulgar aspectos da cultura brasileira, bem como acompanhar o curso da Revolução dos Cravos, publicando, em 1975, o livro Portugal, Ano Zero.
De 1950 até o presente colaborou no Diário de Notícias, Correio da Manhã, Jornal do Comércio, Jornal do Brasil, O Globo, no Rio de Janeiro, bem como em O Estado de S. Paulo e na Folha de S. Paulo.
A partir de 1990, ingressando no Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, de Lisboa, participou de diversos colóquios, realizados em Lisboa, Évora, Ponta Delgada e Porto, abordando as figuras de Tobias Barreto, Gonçalves de Magalhães, Sílvio Romero, Teófilo Braga, Miguel Reale e Afonso Botelho, em palestras editadas nos anos seguintes pela Universidade Nova de Lisboa, Fundação Gulbenkian, Instituto Nacional de Investigação Científica, Fundação Lusíada e Correio Português. Nas cidades brasileiras do Recife e do Rio de Janeiro, participou de encontros sobre Antero de Quental e Sampaio Bruno.
Paulo Mercadante é autor dos seguintes livros: A consciência conservadora no Brasil, Editora Saga Ltda. 1ª edição, Rio de Janeiro, 1965; Editora Civilização Brasileira, 2ª edição, Rio de Janeiro; Editora Nova Fronteira, 3ª edição, Rio de Janeiro, 1980; Tobias Barreto na cultura brasileira, uma reavaliação (em colaboração com Antônio Paim), Editora da Universidade de São Paulo, SP, 1a edição, 1972; Os Sertões do Leste. Estudo de uma região: A Mata Mineira, Zahar Editores, 1ª edição, Rio de Janeiro, 1973; Portugal, Ano Zero, Editora Arte-Nova, Rio de Janeiro, 1ª edição, 1975; Militares e civis: a ética e o compromisso, 1ª edição, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977; Crônica de uma comunidade cafeeira. Carangola: o vale e o rio, Editora Itatiaia., 1ª edição, Belo Horizonte, 1990; A Constituição de 1988: o avanço do retrocesso, Rio de Janeiro, Fundo Editora, 1ª edição, 1990; Graciliano Ramos, o manifesto do trágico, Topbooks, 1ª edição, Rio de Janeiro, 1993.
É membro titular do Instituto Brasileira de Filosofia, do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, de Lisboa, da Academia Brasileira de Filosofia, do Pen Clube do Brasil, do Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos, do Instituto Aurélio Buarque de Holanda, dos Institutos Históricos e Geográficos de São Luís do Maranhão e de Natal, Rio Grande do Norte.
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Claudio Lembo na Folha de São Paulo, sábado,16/03/2002
Em estilo sincopado, as histórias brasileira e portuguesa se desenvolvem com coerência e certezas. Esta é a convicção que surge da leitura de “A Coerência das Incertezas”. Ao iniciar a trajetória, o leitor sente alguma dificuldade. As trilhas parecem levar a lugar nenhum. Há um rompimento com o usual ou costumeiro na descrição dos acontecimentos históricos. Depois, adaptando-se ao estilo e passando a entender as veredas indicadas pelos símbolos construídos pelo autor, a partir de fatos reais, o envolvimento torna-se pleno e a ânsia por conhecer novos sinais e novas situações transforma-se em obsessão, muito mais a Freud que a Jung.
Aí, em rito obsessivo, avança-se e descobre-se que as histórias entrelaçadas de portugueses e brasileiros se encontram suportadas por símbolos nítidos. O domínio da “cruz” e a presença do “patrimonialismo” com “xenofobia” e “nepotismo” se encontram revelados desde os primórdios da nacionalidade luso-portuguesa.
Esses símbolos levam a outros. As “flechas” e as “armadilhas” são colocadas a todo tempo na caminhada das pessoas. Estas, cheias de cobiça, querem a “terra”, o “ouro”, a “madeira” e, em busca desses elementos, utilizam-se da “cruz”, das “flechas” e das “armadilhas”.
Neste enredo, o líder se utiliza dos símbolos, como em qualquer outras terras, mas, por aqui, busca, sem preocupação moral, o poder pessoal, utilizando-se de elementos vindos do exterior sem qualquer preocupação com os valores culturais locais. A prática é acentuada no período pombalino e permanece até nossos dias.
Ontem o francesismo, o anglicanismo ou o germanismo; hoje a globalização modelada pelos valores americanos. Assim, caminhamos sem a capacidade de gerar identidade própria.
Houve momento diferenciado. Este se deu quando Portugal, “cujo povo, de suprema intuição e inteligência, traçava seu projeto de unir e ligar no planeta diferentes povos e culturas”. Depois, findo o ciclo atlântico, chegam novos símbolos, que derrubam a “cruz”, os “nobres” e os “burocratas”. Implanta-se a corrupção e o autoritarismo, como herdeiros da Inquisição e das práticas religiosas deformadoras. Permanecem, contudo, os símbolos antigos: o “brasão” e o “ouro”. Os nobres desfilam “status”, “ainda que isso significasse apenas simulação”.
A partir da amarga legenda de d. Sebastião, paradoxalmente, nasce o “cadáver” como símbolo. João Pessoa, na Revolução de 1930, Jaime da Silva Telles e Demócrito de Souza Filho colocam fim ao Estado Novo e, em anos seguintes, Getúlio Vargas se transforma em cadáver e este em símbolo, após o seu suicídio. Esta deferência ao símbolo “cadáver” origina-se do “catecismo fanático”, que impõe o sofrimento para se atingir bem-aventuranças. Os jejuns prolongados e as agonias de fome levam a exaustão da vida e aparecem como caminho para se atingir o reino celeste, como apregoou Antônio Conselheiro, vítima de outro símbolo, o “bacamarte” empunhado pelo Estado.
Com a chegada da família real ao Brasil, um novo símbolo se revela àquela elite desorientada que aporta no país. Pela leitura do jornal parisiense “Monitor”, soube d. João 6º, antes mesmo da invasão francesa, que fora destronado. O veículo de comunicação apresentava o novo. Era jornal e este produz um símbolo que vem até nossos dias com insistência e presença, o “papiro”.
No “papiro”, encontraram os povos daqui e de além-mar o suporte para suas novas ficções, entre elas, a mais expressiva, o “constitucionalismo”. O “papiro” suporta todas as idealizações e, mistificando a realidade, a transforma em utopia jamais alcançável. Ao atingir a contemporaneidade, o autor não resiste e se transforma em crítico ácido e amargo de personagens e acontecimentos.
Jânio Quadros surge como idealizado pela plebe, como demagogo salvador, brandindo o símbolo da “vassoura”, como se fosse simulacro da lança templária. Tancredo Neves é indicado como salvador do sistema que sempre condenou. José Sarney sucedeu o morto antes de ser presidente e passa a ser “guiado por imprensa medíocre e por jornalismo alienado de inspiração esquerdista”. Ulisses Guimarães, o herói das diretas-já, é apontado como “declaradamente oportunista, revelou-se energúmeno político”.
O espaço maior é reservado à social democracia e a seus agentes brasileiros. São identificados como portadores da bagagem da Contra-Reforma. Apresentam-se como titulares do Saber da Salvação, montados no cavalo do atraso. E o atual governo?
Um punhado de burocratas socialistas, travestidos de liberais, egressos das universidades públicas, dirigido pelo corporativismo das estatais e por professores-banqueiros com fantasia de esquerda. No vértice, Fernando Henrique Cardoso, que, no governo, disfarçou a linguagem socialista, iludindo a opinião pública com o artifício da moeda estável, o real, graças a juros elevadíssimos pagos ao capital especulador.
A pergunta final do autor: que símbolos conduzem um país com potencialidades ao caos e ao risco de secessão? Ele responde de pronto. Estes símbolos são “cruzes”, “estandartes” e “brasões” transmudados em “passeatas”, “foices”, “martelos” e o “vermelho”. Cabe ao leitor, ao término da leitura, formular dois pedidos ao autor: a elaboração de um glossário para identificar tantos símbolos e tantas figuras e o acréscimo, na longa série produzida, de mais um símbolo: a “dinamite”, usada em muitos passos até atingir sua potência maior nos momentos derradeiros da obra.
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Lucia Sweet

Jornalista, fotógrafa e tradutora.

Jornalista, fotógrafa e tradutora.

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