21 de abril de 2024
Colunistas Ligia Cruz

Quem não faz, censura

Até quando a imprensa vai ficar calada diante da censura vergonhosa e declarada à liberdade de expressão? Uma hora essa conta vai chegar e quem deu o aval que não venha chorar sua copiosa miséria humana porque ninguém está interessado.

Não há mais equilíbrio entre os três poderes neste país. Hoje, há desvãos entre eles e todos se submetem a um único comando – que não é exatamente o do presidente.

Ninguém entendeu o jogo ainda e até onde tudo pode chegar. A ordem é estar sempre um passo à frente, fazer tudo a toque de caixa para que não haja tempo de reação da oposição.

Enquanto nos ruidosos e marrentos corredores de Brasília a trama se esgarça em fiapos, a prova flagrante de que há um esquema combinado por lá é inequívoca.

Quem conhece o “monsieur président” sabe que ele não compartilha o poder, mas adora que façam o serviço sujo para ele. E depois, o combinado não é caro. Então lá vai: “livre a minha cara que eu interpreto o meu papel e saio depois de gastar e me vingar” – isso resumiria o contexto, mas é só um exercício de livre pensamento, baseado em história real (sic).

A coisa toda é tão confusa no planalto que nem mesmo os ministros sabem a quem consultar: o eleito, o vice, o magnífico tribuno da casa eleitoral, a consorte, o Maduro, o Fernández, o pai de santo, o papa Chico ou os palpiteiros de plantão.

Para descomplicar, bastaria consultar a Constituição, se as páginas não estivessem rasgadas, rasuradas e cuspidas, de tanto que foram folheadas para pinçar trechos, a fim de ajeitar a peça acusatória, contra o ex-presidente. Tudo justificado, não pela lei, mas pelos factoides. Não importa a verdade e tampouco não é disso que se trata.

E assim foi feito. Jair Bolsonaro está inelegível por oito anos – um impeachment às avessas, sem julgamento – , e a reforma tributária foi retirada do “calabouço fiscal” a fórceps – tudo em duas semanas.

Ninguém leu, debateu e, no afogadilho, o texto foi aprovado. O cidadão fica novamente na berlinda, sem participação, numa decisão apressada pelo presidente da câmara, que vai afetá-lo e é de extrema importância no país.

Governo, Suprema Corte, deputados e senadores, em conluio, armaram o conhecido balcão de negócios às vésperas da votação, sem nenhum pudor.

Alguém tinha dúvida de que o PT poria em prática seu “dom” de corromper, logo na primeira semana de governo? Assim foi.

Lula continua dizendo para quem quer ouvir, que “tudo foi inventado pela direita”. As construtoras não fizeram nada de errado, são exemplos de candura, blá, blá. E o mais importante: ele foi vítima de uma orquestra direitista macabra, sua prisão foi injusta, visto que é “inocente” de todos crimes a ele imputados. Ele é apenas um democrata mal compreendido, que adora ditadores latinos, asiáticos e africanos.

Nos bastidores do parlamento, a negociata rola solta, mais intensa do que na rotina dos ministérios. Os velhos e novos corruptos já estavam ávidos para azeitar as engrenagens dos cofres públicos, porque a dinheirama toda que tem sido distribuída não saiu de contas particulares.

Entretanto, retirar o ex-presidente da linha de frente da vida pública não significa que o jogo está ganho. A direita agora tem um líder consagrado pelo público, com mobilidade no cenário político nacional.

Dentro ou fora do Alvorada ele vai unificar os conservadores para lutar por pautas de interesse público. Ninguém interage melhor com o cidadão comum do que Jair Bolsonaro. Por essa razão, tanto esforço da esquerda em torná-lo inelegível.

O fato é que nem tudo são flores para o PT. O atual mandato de Lula nem bem começou e já há uma enxurrada de conflitos e desgastes nos meandros do poder – muitos dos quais ele mesmo desencadeou, com suas declarações aparvalhadas e desejos de vingança confessos contra todos que participaram de alguma forma de sua prisão, durante a Lava-jato. Ele vai caçar um a um todos que de forma direta ou indireta participaram de sua condenação. E é só o começo — há ainda os que fizeram delação premiada. Estes estão apagados mas não esquecidos, como Delcídio Amaral e Antônio Palocci.

E, como a Carta Magna ganhou aforismos e uma abundância de interpretações, as leis viraram moscas brancas ou apenas o cocô delas. Supõe-se que é o que quis dizer o presidente da república quando afirmou, nesta semana em mais um dos seus jocosos comícios, que “a democracia é relativa”.

Isso simplesmente não existe! Não há meia democracia, disfarce ou arremedo dela. É ou não é. E indo mais além; em sua descompostura generosa fez novamente uma defesa de “su hermanito Maduro”, dando o testemunho verborrágico de que “a Venezuela é uma democracia e lá tem mais eleições do que no Brasil”. É rir para não chorar.

Para não ficar nisso, afirmou ainda que “não se importa de ser chamado de comunista ou socialista”. E empolgado com a sua performática oratória de reunião partidária cometeu outro sincericídio, ao dizer que em sua tortuosa vida política teve que “enfrentar os costumes, a família e o patriotismo”. Tais afirmações, estão fora dos padrões republicanos, incomodaram até mesmo os cardeais do jornalismo da Globo News.

Agora essa turma encontrou as palavras certas para finalmente assumir um tom crítico em relação à postura do presidente e parar de passar pano para ele no mar de perdigotos que ele lança toda vez que fala.

Mesmo com todo o histórico nefasto dos governos anteriores, esta terceira gestão de Lula começou com os mesmos vícios das primeiras, porém mais estruturada no que diz respeito aos atores que sustentam toda a pantomima.

O aumento do número de ministérios de 23 no governo anterior para 37, já demonstra o retorno às velhas práticas de acertos partidários, como recompensa, pelo jejum de verbas públicas durante os últimos quatro anos.

À plebe restou recolher as migalhas que este governo autocrático, esquivo e mesquinho lhe reservou. Exatamente como se viu na festa da posse: ao povão uma festa com show ao vivo de grupos populares, falta de banheiros, água e segurança. Já para os novos ricos e amigos do rei a abundância, vinhos caríssimos e um cardápio nada trivial.

A atual presidência desta surrada república. Em sete meses, já é um vexame completo. Para onde que vá distribui gafes protocolares, pessoais e políticas. Ele não parece se incomodar, pois o objetivo, na verdade, é o de “resgatar” sua imagem pública, para inglês ver, porque aqui ele não é recebido pelo próprio povo.

E segue incólume o embusteiro com sua guarda pretoriana de bajuladores. O “amor” de que tanto fala não é legítimo. Entre seus apoiadores há os figurantes pagos para fazer número e sustentar as bandeiras vermelhas do mundo que ruiu no século passado.

A oposição, de fato, também não é organizada. A sua cavalaria rusticana é espontânea e ocupa os espaços nas ruas, onde quer que seu líder vá, mas sem um propósito maior. Podemos dizer até que a lealdade genuína dessa gente é infinitamente maior que o tal amor peludo ou barbudo dos súditos profissionais do adorador de Chávez, Maduro e Fidel.

O que se desenha adiante no front é mais uma cópia do croqui americano, ipsis litteris. O mesmo que está tentando soterrar as intenções de Donald Trump de retornar ao cargo, em seu país. O progressismo tem um script definido em todos os países e continentes onde movimentos conservadores tentam disputar eleições. É uma onda com quebra de valores morais, sexistas e de políticas identitárias. O que chamamos aqui de lacração.

Mesmo quando está “de visita” ao país, Lula não se reúne com seus ministros, salvo uns poucos. Se ocupa mais em receber e atender à demandas de vizinhos babões, como se fosse uma espécie de “comodoro” da América Latina. Aliás, esse seria o cargo perfeito para ele, que adora um oba-oba, não é, e nunca foi afeito ao trabalho. É mais um péssimo relações públicas, que se finge de ricaço bacanudo, que aprecia a luxúria, nos moldes de muitos ditadores africanos.

De feitos práticos, este governo não emplacou nada – só a plaquinha do Ministério da Cultura. Nos últimos meses, os brasileiros só viram encorpar a carga tributária, os preços e o engessamento de direitos. Até porque, não há ,no seu convescote, ninguém com talento para gerir a máquina pública. As fórmulas são todas ultrapassadas, oriundas de retalhos do governo FHC – bem piorados. Nada que se aproxime à era 5G que se aproxima. Arrogância não é sinônimo de nada e é só o que a claque tem a dar.

Não é preciso ter bola de cristal para saber que isso não vai acabar bem. E a imprensa vai permanecer calada por conveniência e covardia?

Hoje é a Jovem Pan, mas mídias digitais e jornalistas independentes estão sendo ameaçadas, com ou sem ideologia e militância. Amanhã, quando já estiverem cansados de permanecer em silêncio, será qualquer um.

No tempo dos militares, veículos de imprensa e jornalistas, em sua maioria, estavam lutando na mesma trincheira contra a censura, pela liberdade de expressão e por ideais patrióticos. Muitos são os mesmos que protestaram no passado e hoje se calam. Estão ignorando o que está acontecendo agora, por birra da direita, como se fossem superiores a quem divergem.

Só que a conta vai chegar para todos. Também para quem apoia os desmandos de legisladores que se assenhoraram do poder. Isso tudo enquanto um presidente vingativo, desorientado e incapaz de sustentar-se no poder. Tudo o que tem feito é aumentar as contas públicas com seus devaneios de herói do mundo. Sua vaidade já não é mais só um traço particular de consequências individuais. Já ultrapassou em muito todos os limites.

A própria esquerda já está derretendo e mostrando seus flancos desprotegidos. Logo estará brigando entre si, como acontece em todas instituições e governos onde os princípios foram esquecidos.

Ligia Maria Cruz

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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