5 de março de 2024
Colunistas Ligia Cruz

O presidente legalzinho da Colômbia

Está circulando na internet uma foto montagem com Gustavo Petro, o presidente eleito da Colômbia, na semana passada, junto do  líder do cartel de Medellín, Pablo Escobar.

Logo, toda a mídia de esquerda da América Latina  se embuiu do dever de desmentir e eliminar qualquer vínculo do presidente eleito com o narcotráfico, carimbando a imagem como fake. Impossível. Não se apaga a história  e o que ela conta é bem diferente da narrativa da campanha do novo presidente colombiano.

Na verdade, o rosto que aparece na montagem foi recortado de uma outra foto em que Petro foi fotografado ao lado de Hugo Chavez, então presidente da Venezuela, o padrinho de Nicolás Maduro, o déspota que vai  entrar para a história como responsável por quebrar o país e matar seu povo de fome. Personagens  diferentes, mas do mesmo naipe.

Petro foi membro do Movimento 19 de Abril (M-19), desde 1978 até ser extinto em 1987. A esquerda latina se orgulha desse passado de ativista guerrilheiro, que comete crimes  como resistência à forças  conservadoras e  capitalistas.

Em qualquer parte do mundo onde o comunismo ainda existe, os mandantes são capitalistas  com até mais convicção.

Não dá para apagar o passado. Petro só  não se deixou fotografar junto a Escobar, mas como guerrilheiro do M-19 envolveu-se em todos os acordos, sequestros e assassinatos, em conluio com o narcotráfico colombiano, até ser preso em 1985 por terrorismo.

No mesmo ano em que foi detido, o M-19 promoveu seu maior atentado, o cerco ao Palácio de Justiça que terminou com  100 mortos, entre os quais 12 juízes da Corte Suprema do país.

Uma verdadeira guerra foi travada no local contra o exército nacional. De acordo com observadores internacionais e a própria imprensa tudo foi orquestrado para provocar um incêndio, matar magistrados e reduzir à cinzas toda  documentação, processos e provas de crimes em conexão com políticos, narcotraficantes e a própria guerrilha. Conta-se que a própria presidência da república usava o M-19 como “fantoche” para apagar rastros e vínculos com o tráfego de drogas. Virou tudo pó –literalmente.

O filho de Pablo Escobar confirmou em uma entrevista que seu pai pagou ao M-19 um milhão de dólares pelo “apoio” ao atentado. Óbvio que o chefe do cartel de Medellín não precisava que fizessem isso por ele. Ele foi com certeza o mandante dos mais terríveis assassinatos e atentados contra  militares, juízes,  milicianos  e personalidades da vida pública colombiana. Não faltou nem mesmo o candidato mais cotado à presidência, em plena  campanha de 1989, Luís Carlos Galán.

Mas o fuzuê armado pelo M-19 no atentado ao Palácio de Justiça seria uma mera  cortina de fumaça para apagar provas, de acordo com veículos da própria mídia colombiana. Em seu tempo de atuação esteve junto e misturado com os cartéis de drogas e políticos corruptos.

Então dizer que o novo presidente da Colômbia, que se fez nesse meio e participou de todos esses episódios, é o anjo de candura que vai levar o povo ao paraíso, é puro fake.

A esquerda latina chega a ser infantil nessa cantilena de que seus intentos são mais nobres do que os de outras vertentes políticas. A poesia cantada pelos membros do M-19 vai por esse caminho. Petro diz que eram “bem diferentes” das Farc, ELN, dos cartéis de Cali e Medellín e que seus ideais mais profundos pois baseavam-se na transformação social, no nacionalismo, na justiça social — só que por meio das armas. Tudo tão fake quanto a foto.

Terrorista de direita ou esquerda é a mesma coisa.  A indústria de checadores, que sentiu uma vingancinha por comprovar a montagem, pode inventar outra porque Gustavo Petro, o primeiro presidente de esquerda da Colômbia, tão festejado em verso e prosa é mesmo um criminoso com uma capivara carregada de atentados e mortes.

Ligia Maria Cruz

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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