9 de agosto de 2022
Colunistas Ligia Cruz

Mais uma carta fora do jogo

Notícias de assédio sexual e moral não são novidades em governos e pré-campanhas eleitorais. Aliás, é um dos temas preferidos na caçada à reputações, com o objetivo de tirar oponentes do páreo. E isso é um tema muito antigo na história da humanidade.

O mais triste desse tipo de episódio é quando o personagem em questão, com expressiva reputação de bons serviços prestados em cargo público, é denunciado como um incontido tarado. Assim foi pego Pedro Guimarães, presidente da Caixa, um dos nomes mais destacados do governo de Jair Bolsonaro.

Foto: Google Imagens – Rede Brasil Atual – (reprodução)

Por enquanto, pesam sobre ele denúncias de funcionárias que teriam sido assediadas sexualmente por ele, em viagens e no dia a dia.

Segundo os depoimentos, ele escolhia as funcionárias de acordo com suas preferências sexuais, beliscava traseiros, as convidava para ir à sauna, as recebia com trajes inconvenientes e por aí vai. Relatos grotescos e nojentos que, se verdadeiros, podem enterrar sua carreira como executivo na política nacional.

Porém, o que causa espécie é o fato de essas denúncias não terem ocorrido muito antes. O que demonstra que o pano de fundo de tudo isso não é o de fazer justiça para essas mulheres, mas o de golpear o presidente da República na largada dos 100 últimos dias para as eleições.

Pedro Guimarães realizou um excelente trabalho na Caixa, até então. A instituição teve resultados financeiros que há muito não se via, durante o período que esteve à frente do banco. Esteve à frente de importantes projetos sociais, realizou uma faxina interna exemplar, eliminando fisiologistas e militantes dos quadros da empresa, que atravancavam a dinâmica da instituição. Porém, as denúncias, agora investigadas em segredo de justiça, o retiram da linha de frente de grandes feitos e jogam uma pá de cal em sua reputação. As graves acusações terão que ser provadas.

Os crimes de assédio não são assuntos novos na vida política republicana de países em geral. O rala e rola nos bastidores tem sido tema recorrente em todos os cantos do mundo, onde as relações de poder se misturam com as preferências privadas de seus personagens.

E não passa batido, se a oposição política se apropria de fatos que possam render um caldo bem encorpado. Como as acusações contra Pedro Guimarães. Mas, daí a vincular esses fatos ao presidente são outros quinhentos.

Quem não se lembra do emblemático caso de Bill Clinton e a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky. Os encontros eram constantes, aconteciam no Salão Oval, e foram gravados. Consta que eram “favores” consentidos pela então jovem, de 23 anos.

O assunto rendeu páginas e mais páginas na mídia, numa queda de braço atroz entre republicanos e democratas. O marido de Hilary era um mulherengo pervertido e reconhecido.

Antes mesmo de chegar à presidência, em 1998, quando era governador do Arkansas, ele manteve um caso caloroso com Paula Jones. Em nenhum dos casos sua reputação foi abalada ponto de ter que renunciar. Se safou.

Outro personagem com o mesmo histórico foi Dominique Strauss-Kahn, candidato à presidência da França, pego em uma acusação de tentativa de estupro de uma camareira de hotel, durante a corrida presidencial. A renúncia beneficiou o rival Nicolas Sarkozy, que foi eleito. No fim, o caso não foi esclarecido e, segundo a própria mídia, o candidato teria sido vítima de um complô.

Moshé Katzav, em 2007, então presidente de Israel, renunciou duas semanas antes de terminar o seu mandato devido à uma acusação de assédio sexual e estupro por parte de uma funcionária. O caso se prolongou até 2010, quando foi declarado culpado por estupro e abuso de poder.

Em outro caso, que levou à renúncia do mandato de premiê, foi o do conturbado governo do italiano Silvio Berlusconi. Ele foi alvo de inúmeras denúncias de participar de orgias e uso de drogas com menores. A vida pública e privada do chefe de estado era recheada de casos nada convencionais. O maior escândalo ficou conhecido como “Rubygate”, em alusão ao seu caso com a jovem Karima El Mahrug. Seu fôlego sexual não serviu para mantê-lo no governo.

A história política da humanidade foi escrita por casos de assédio e estupro desde a antiguidade. Muitas vezes consentidos e incitados pelas próprias famílias, bastante comuns nas monarquias europeias. Meninas eram dadas a tios, primos e outros e muitas vezes seviciadas pelos próprios pais e irmãos.

Um dos casos mais célebres enredos que mesclou poder e incesto foi o de Agripina, mãe do imperador Nero, que foi dada a um tio, com apenas 13 anos de idade. A também irmã de Calígula teve um trágico final de assassinato pelo próprio filho.

O poder e o sexo sempre andaram par e passo na política. Talvez, porque os que se alçam ao posto máximo de uma instituição ou governo desconheçam os limites e se apropriem das pessoas, transformando-as em meros objetos de prazer.

O limite entre o público e o privado simplesmente deixa de existir como regra social e moral.

O Pedro Guimarães terá que provar que não cometeu delitos sexuais, não bolinou ou flertou com as moças sem consentimento. Se ele errou, terá que responder à justiça para que outros não sejam incentivados pelos seus próprios demônios internos a transgredir.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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