Democracia é não ter que votar no capeta

Foto: Google – Wikipedia

A coisa mais chata desses tempos é a homogeneização de tudo. Todos têm que pensar igual a você, gostar das mesmas coisas, crer nas suas crenças, seguir o que segue. Até porque você é a supra essência divina e o resto é resto.

É o achatamento do sujeito às proporções mínimas, coisa que só radicais de quaisquer vertentes aprovam. Afinal é difícil discordar com respeito e continuar gostando da pessoa que pensa diferente de você. Não há elegância no trato nesse quesito.

Me lembro que na minha juventude a tradução literal do capeta era Paulo Maluf, ex-governador de São Paulo, biônico dos anos 1970.

Além do Minhocão que deteriorou o centro paulistano, ele inventou o tal governo itinerante, transferindo a sede do governo para várias cidades. Nem me lembro para quantas ele se mudou, só sei que não emplacou. Uma clara tentativa de embrenhar-se no organismo dos municípios. Sobrou oposição.

Numa dessas mudanças ele tentou passar por bacanudo em Mogi das Cruzes, onde eu cursava a faculdade de jornalismo. Era o tempo do general João Figueiredo, na presidência da República. Bastava usar a designação de patente militar para causar arrepio na medula. E ele nem foi o mais opressor dos direitos civis. Seguia a bula da direita e não morreu multimilionário, o que já denota muitas coisas.

Na madrugada da véspera da chegada do governador e comitiva a Mogi, a “estudantina” preparou a recepção munida de spray. Os muros da cidade no caminho da universidade amanheceram pichados: “Maluf ladrão, cavalo do João”. Isso porque Figueiredo era também adorador dos equinos.

Quando o execrável governador foi fazer discurso na Universidade, o protesto começou e o porrete cantou. A PM estava preparada para dispersar manifestantes e agir se alguém ousasse ofendê-lo. Nem precisa dizer que muitos saíram machucados e presos. Magrinha e franzina, mas de pernas fortes, escapei. Corri mais do que o papa-léguas.

Fazia sentido se opor naquela época em que o povo não escolhia o presidente e só havia dois partidos: o do governo e o que o governo permitia.

Apesar do bipartidarismo, então mal visto, muitos políticos fizeram escola naquela época, posaram de mocinhos e cumprem o papel até então.

Vários, ainda estão na política, multimilionários, mentindo copiosamente e fazendo tudo ao contrário do que diziam naqueles tempos. Todos, sem exceção, pleiteavam o voto não obrigatório.

Passado tanto tempo, tempestades, passeatas e siglas mais, não se fala mais nisso. Aprenderam que o número elege e o discurso engana. O que me tornou uma “anuladora” encarniçada.

Nesse quiproquó, todo mundo sabe que nem direita, nem esquerda quer falar no assunto. E que ambas se abraçam nos bastidores.

Muitas eleições tiveram claramente resultados manipulados. Coisa nojenta, abjeta, impensável nos tempos atuais. Mas ainda é assim. E a desculpa uma só: o povo não está preparado para o voto livre, não tem educação política e blá blá blá. Sinal de evidentes covardia e canalhice, mais velhas que Matusalém.

Tudo isso para dizer que o Brasil tem uma história política folclórica, marcada por personagens caricatos, omissos, criminosos e apegados tão somente aos próprios interesses. Vários deles cruéis, que desviaram verbas públicas da merenda escolar, das ambulâncias, dos respiradores, do saneamento, das estradas e muito mais para contas particulares. É certo que, quem rouba do povo e planta a desigualdade até em solo estéril terá seu lugar destacado na história nefasta da democracia. Isso nem é discurso, é certeza.

O tempo passou e Maluf é aprendiz de muitos políticos de hoje; provável que ele não pensou em esconder dinheiro na cueca, o que, entretanto, não o torna menos pior.

Voltando ao tema, achatar o sujeito é retirar dele o direito de ser diverso, de expressar sua cidadania e de fazer escolhas sem ser coibido. O voto obrigatório é o pior exemplo da antidemocracia.

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