A dinastia Ortega

Foto: Google Imagens – DomTotal


O governo nicaraguense está acuado entre os seus próprios descaminhos e a atual demanda popular que há décadas não sente confiança no líder guerrilheiro Daniel Ortega.

O povo nicaraguense deseja a substituição no comando do país, que há tempos não sabe o que é democracia e liberdade de expressão. Perseguições políticas, torturas e assassinatos de fins políticos pesam sobre o ditador sandinista. Já são mais de 300 mortos, segundo órgãos internacionais e de direitos humanos.

De 2006 para cá, o ditador fez de tudo. Governou até com a esposa, Rosario Murillo, como vice-presidente, alegando ser uma demonstração antimachista. Até seria se a parceira fosse outra com quem não dividisse os lençóis. Na prática ele tripudia qualquer mulher que o ameace, como a atual opositora, Cristiana Chamorro, a quem mantém em cárcere privado.

Ortega ficou famoso nos anos 1970 por derrubar do poder, junto de um grupo armado do partido revolucionário Frente Sandinista de Libertação Nacional, Anastasio Zomoza Debayle, filho do militar e ditador de mesmo nome, que foi assassinado em 1956.

Vencida a cruzada contra a família Somoza, Daniel Ortega governou o primeiro período pós-revolucionário até o ano de 1990, quando foi derrotado nas eleições por Violeta Chamorro. Disputou a presidência nos anos de 1996 e 2001 e saiu derrotado.

Ortega retornou ao governo da Nicarágua em 2006, com 70% dos votos de eleitores e, desde então, governa com mãos de ferro, através de reeleição automática — um artifício legal que criado para permanecer no poder indefinidamente e sem limite de mandatos. Um modelo de reeleição que só existe na Nicarágua e na Venezuela.

O seu discurso tem a mesma batida desde os anos 1970, impregnada daquele ranço dos tempos da Guerra Fria. Para ele, a Nicarágua vive uma intensa campanha persecutória por parte dos Estados Unidos, desde que a revolução venceu. Os americanos são responsáveis por todas as mazelas em seu país. Só que existem acordos bilaterais de livre comércio entre ambos e até o momento o fluxo não foi interrompido.

Tal discurso foi relevante quando os EUA tinham a intenção de manter a região no entorno das Américas livre do assédio dos soviéticos. Mas isso ficou no passado, hoje a geopolítica é outra. Só Ortega não se deu conta ou se faz de sonso para justificar os seus desmandos.

O fato é que o calo está doendo porque a torneira venezuelana secou e não estão vindo mais aportes de lá.

A economia da Nicarágua é frágil. Metade do país é coberto por florestas, cerca de 18% dos recursos vem do setor agrícola, em torno de 26% da indústria e mais de 50% do comércio e serviços. Contudo, os Estados Unidos são os maiores parceiros comerciais, com importações que chegam a 62% do total da balança comercial. Outros negócios são feitos entre estatais do país e da Venezuela, na área petrolífera, mas a título de exploração.

Com um quadro social complicado, 48% da população do país vive abaixo da linha da pobreza. A Nicarágua não tem para onde crescer a curto e médio prazos. Seria necessário mais do que esforços e discursos populistas para virar o jogo e não com um líder que tenta se impor à força e em quem a população não confia mais.

Ortega tenta se defender, justificando sua baixa popularidade pela orquestração estrangeira. Se diz também perseguido por bispos da igreja católica, mas nada contra o papa, apenas uma justificativa para tornar difícil a vida dos clérigos por lá.

De 2018 para cá, 15 opositores, foram presos. No momento há quatro candidatos às eleições presidenciais de 2021 encarcerados. Inclusive a favorita e principal ameaça a ele, Cristiana Chamorro, filha da ex-presidente Violeta Chamorro. Todos os presos são considerados golpistas, justamente por se colocarem contra o atual governo e sob a acusação de receberem financiamentos de campanha dos americanos para derrubá-lo do poder.

Outro fato que configura a antidemocracia no país foi a decisão do Conselho Supremo Eleitoral de anular a pessoa jurídica do partido político opositor, impossibilitando a candidata majoritária de concorrer.

A ONU e a OEA (Organização dos Estados Americanos) exigem a soltura dos presos políticos para que seja restabelecida a democracia no país. Mas Ortega dá de ombros e considera que todos os organismos internacionais estão a serviço dos Estados Unidos. Não dá nem mesmo para saber se o ex-guerrilheiro está mentalmente são, tamanhas baboseiras que diz nas entrevistas que concede.

Diante de jornalistas, Ortega se perde nas palavras, torna-se repetitivo, com justificativas vazias e se solta um pouco mais quando encontra um gancho para fazer a pregação revolucionária do passado.

Desde 2018 também pesa sobre o presidente nicaraguense o assassinato de mais de 300 pessoas, entre civis, policiais e militantes políticos, fora os desaparecidos.

A perseguição à imprensa, o desrespeito aos direitos humanos e a lavagem de dinheiro também integram a lista de crimes praticado por Daniel Ortega. Há ainda o crime de estupro de menor, praticado contra sua filha adotiva em 1998.

Pela toada, as próximas eleições serão realizadas com candidato único, já que os opositores estão presos. E o fim disso é mais sofrimento e fome para o povo, enquanto Ortega só enxerga a si mesmo e cuida de sua dinastia.

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