14 de agosto de 2022
Colunistas Junia Turra

O gato deu seu último pulo…

A cara séria, vestido impecavelmente com suspensório, o cabelo bem cortado ou, se mais comprido, ele dava um jeito. Lá estava ele checando as últimas informações na redação.
Era meu primeiro plantão, eu, a “foca” do grupo de repórteres no “headquarter” do jornalismo da TV Bandeirantes em São Paulo.Fui lá, e interrompi…
– ahããã!! José Paulo de Andrade, aqui as últimas informações que apurei. É sobre a minha matéria na Federação das Indústrias. Quem sabe uma nota pé.
– Vai abrir o jornal! – ele leu a nota num piscar de olhos – ah, vou incluir. … Mas você fez o treino do São Paulo e do Palmeiras.
E achou o quê?
– Bem … O São Paulo está na melhor fase, mas…
– Você é palmeirense! – Então ficamos assim: “José Paulo”?
É Zé Paulo! Facilita, porque haverá embate, sou São-paulino!
A seriedade foi-se embora num sorriso enorme, olhos brilhantes e uma risada alta.
Ah, grave um stand up. Avisa a Ana Maria que na sequência entra o “povo fala” sobre o jogo de amanhã no Morumbi – ele completou.
Fiquei vermelha e disse: muito obrigada Zé Paulo. E fui saindo. E o Zé disse: Ana Maria Paes Barreto fez uma boa escolha. Eu disse a ela: essa é uma escolha certa!
Zé Paulo de Andrade incentivava os novatos. Tratava como iguais. Mas era exigente. Perfeccionista. Pose de durão? Era um amor! Sabia muito bem o que queria e como deveria ser, porque era sinônimo de Jornalismo.
O Jornalismo, o Esporte ficavam grandes com ele.
Porque ele era grande!
Zé Paulo de Andrade era um talento!
Um formador de opinião. Tinha opinião! E informação.
O programa O Pulo do Gato na Rádio Bandeirantes virou um ícone. Por quase 50 anos, todas as manhãs. E a parceria com Salomão Esper…
Não faz lá muito tempo uma ouvinte e fã do Pulo do Gato me escreveu dizendo que Zé Paulo e Salomão falavam de mim em meio as notícias aqui na Europa.
E ela disse: “falavam com carinho e admiração. Vocês trabalharam juntos. Que maravilha!”
Sim, que maravilha a oportunidade que eu tive!
E não só eu, tantos outros. Como não amar e admirar uma pessoa e um profissional assim?Éramos aprendizes e ele, o mestre!
A voz inconfundível, a coerência, a ética, o jornalismo limpo. Carisma!
Simplicidade e amor pela notícia, pelo público.
Zé Paulo de Andrade, um mestre que ensinava. Me ensinou tanto. Inclusive a não abrir mão do caminho da notícia, ainda que fosse o mais difícil:
“Não se negocia nem a informação e nem a alegria”.
Sim, Zé! Eu sei.
Mas o dia hoje amanheceu muito triste sem você.
Ao invés da sua voz, o silêncio.
Deixo aqui o meu protesto.
Mas nas manhãs da vida eterna haverá estreia:
O gato pulou daqui pra lá!
Zé Paulo: muito obrigada!
Amamos você!!! E somos muitos…

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Jornalista internacional, diretora de TV, atualmente atuando no exterior.

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