Ao meu grande amigo…


Espelho, espelho meu… existe alguém no mundo tão parecido comigo além do meu próprio eu?
Morávamos no mesmo prédio em São Paulo. Eu, repórter de TV. Ele, professor universitário.
Ele chegava das aulas e eu das reportagens e pelo interfone nos comunicávamos. Passávamos horas falando mais que pobre na chuva e tomando chá. Coisa de inglês: to be Or not to be, Sir…
Era uma troca de conhecimento espetacular. Eu cobria Política, Economia, Cultura e os tais « crimes de primeira grandeza ». Ele, do mundo do Direito e da Política – história viva, personagem e testemunha de um Contexto do Brasil recente. Foi do grupo de teatro da PUC, o TUCA, que ganhou aquele prêmio na França. Ele, Chico Buarque… casos e mais casos sobre aqueles tempos. Começou na Política, com Franco Montoro. Ah… sabe das coisas, aquelas dos bastidores que nós nem ficamos sabendo.
Aqui vai uma das pérolas…
Ele foi escolhido pelo partido para se candidatar a vereador. Jovem advogado, casado, com três filhas pequenas. Companheiro de partido, José Genoíno foi preterido na disputa.
Genoíno tinha uma namorada no mesmo grupo e pediu que ele desse uma carona a ela após as reuniões do partido. Uma noite, ao deixá-la em casa, a tal deu-lhe aquele beijo e um « vem cá, meu amor! » Arapuca! Do lado de fora, Genoíno que levou a mulher dele para dar o « flagra » . Ao ver a cena, ela pediu a separação e ele no meio do caos pessoal abandonou a candidatura. Abriu espaço para José Genoíno entrar na vida pública.
Fiquei com aquilo na cabeça. Numa festa de aniversário da então companheira Luisa Erundina, Lula, presidente de honra do PT, José Dirceu e Genoíno batiam um papo descontraído com a turma da imprensa. Entre comes e bebes, Genoíno muito falante, solta a deixa: « o Corinthians perdeu o jogo há pouco. Pura armação. Injustiça ! »
Parei na frente dele e disse: Lembra-se do Marcos? Marcos Peixoto Mello Gonçalves. Aquele que saiu de campo pela falta inexistente que você armou com sua então namorada. Ele foi eliminado injustamente e você ficou com a vaga. Genoíno ficou vermelho, pego de surpresa e saiu à francesa.
Ao voltar para casa naquele dia, da portaria mesmo interfonei. Contei o ocorrido. « Você fez isso? « disse ele surpreso. Sim, fiz! Eu precisava ver esta verdade na cara daquele Genoíno, que até então, eu tinha como simpático e falante . Um trapaceiro! E justiça foi feita.
No semblante do meu vizinho eu percebi que havia um alívio inexplicável.
Vida que segue…
Um belo dia, meu vizinho me entrega um presente inusitado e diz: nunca fui de comprar presentes, a atitude parece absurda, você podia ser minha filha, mas, casa comigo?
Eu respondi na hora: tem duas pessoas na sua frente. Sinto muito. Se quiser, entra na lista. Você é por questão de ordem, o terceiro. Simples assim.
Caímos na gargalhada!
Somos espontâneos, não ?
E o final da história ?
Eu na Europa. Vez por outra nos víamos no prédio em SP. Ele cada vez com uma namorada. E eu dizia: « sem sal! Despacha a oferenda! » … vinha outra! E eu: « nem pensar! Sai dessa criatura inerte que não te pertence! ». E elas caíam mesmo por terra!
Até que há pouco tempo. No mesmo prédio. Ela entrou e ela mesmo se apresentou. Marcante! Em poucos minutos fiz o raio-X : fala o que pensa, personalidade forte, e os dois juntos riam, a risada espontânea e sorriam por nada, pelo simples fato de existir.
Eu disse a ele: case-se com ela já! Ou ela muda de ideia. E ele então comprou um presente inusitado: um colar único. E num « au revoir! », deixei a dica: nos vemos na Europa!
E assim eles vieram. Lua de mel. E vivem felizes e viverão felizes para sempre.

Moral da História :
Marcos é sagitariano do dia 16 de dezembro. Assim como eu. Somos iguais, tão iguais que nos vemos um no outro. Espelho, espelho meu!

Mas precisamos de algo além de nós mesmos para nos completarmos. E Marcos encontrou Irene que também é sagitariana.

Amor da vida dele e amor em forma de amizade que agora faz parte da minha vida.
Ah, e a minha fila lá atrás nem andou. Este capítulo fica para outro dia.
Feliz Aniversário pra nós: espelho, espelho meu, que bom que há alguém no mundo que me mostra que apesar de tudo, vale a pena ser como eu.

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