14 de abril de 2024
Colunistas JR Guzzo

Declaração de amor à tirania

Luiz Inácio Lula da Silva e Xi Jinping, durante cerimônia no Grande Palácio do Povo em Pequim, na China | Foto: Ricardo Stuckert/PR

O presidente do Brasil, pelo que ele próprio faz questão de dizer, está a favor da China e da Rússia, as duas ditaduras mais ativas do mundo de hoje, para não contar as Cubas e as Nicaráguas da vida.

O presidente Lula jogou o Brasil num mundo de trevas em sua viagem à China — e escureceu as coisas ainda mais, logo em seguida, quando culpou a Ucrânia pela invasão de seu próprio território e pela guerra que há mais de um ano destrói o país, já matou milhares de pessoas e viola diariamente todas as leis do direito internacional. É o que fez, na prática, ao propor que o Brasil se transforme num drone econômico dirigido pela China — e ao sustentar a ideia demente de que a culpa pela guerra é dos “dois”: com certeza do país que foi invadido, a Ucrânia, e talvez do país que invadiu, a Rússia. É o pior momento já vivido pela diplomacia do Brasil desde que a ditadura de Getúlio Vargas, 90 anos atrás, se aliou à Alemanha nazista de Hitler e à Itália fascista de Mussolini. Saíram os nazistas e os fascistas, com os quais o Brasil teve de romper em 1942 depois de sofrer agressão militar da Alemanha. Entram China e Rússia, cada uma a seu modo e cada uma com os seus interesses — que nada têm a ver com os interesses do Brasil. Não se trata apenas, por parte de Lula, de dizer em público a mais alucinada coleção de coisas estúpidas que qualquer presidente brasileiro já disse em matéria de relações exteriores — qualquer presidente, em qualquer época. O pior talvez não seja, nem mesmo, o ato de entreguismo sem precedentes contido nas ofertas econômicas que fez à China — ou o insulto ao conjunto das democracias de todo o mundo que representa o seu apoio efetivo à invasão da Ucrânia pela Rússia. O pior de tudo é a proclamação oficial que fez, em termos concretos, no conjunto de suas declarações sobre China e Rússia: o Brasil, no seu governo, é a favor da tirania e contra a liberdade.

O presidente da República Popular da China, Xi Jinping, recebe os cumprimentos do ministro de Estado da Fazenda, Fernando Haddad,
em cerimônia oficial de recepção em Pequim, China
Foto: Ricardo Stucker/PR

Se Lula, oficialmente, se coloca a favor da ditadura, da repressão policial e da destruição da lei no estrangeiro, por que seria diferente aqui dentro do Brasil? Não há nenhuma resposta coerente para isso. O presidente do Brasil, pelo que ele próprio faz questão de dizer, está a favor da China e da Rússia, as duas ditaduras mais ativas do mundo de hoje, para não contar as Cubas e as Nicaráguas da vida, e contra todas as democracias livres — Estados Unidos, Europa, Japão, Canadá, Austrália — e o que mais vier de parecido. Pior: acusou diretamente os Estados Unidos e a Europa, ao dizer que deveriam não mais trabalhar “pela guerra”, e começar a trabalhar “pela paz”, como se fossem eles, os americanos ou os europeus, os invasores da Ucrânia. Que raio quer dizer isso? Ele, o PT e o Sistema que o apoia dizem que é “neutralidade”, ou “equidistância”, ou “não alinhamento”, ou alguma coisa assim. Não faz o menor sentido. Uma nação que se declara “neutra” diante de uma agressão militar indiscutível, ou “a favor da paz”, não é neutra, nem a favor da paz — é aliada do agressor. Não existe “equilíbrio” aí. Ou você é a favor da democracia e contra a ditadura, ou é o oposto disso. Não há “meio do caminho”; é xeque-mate. Outro fato fundamental é que não existe no mundo nenhum regime de esquerda que não seja uma ditadura; nenhum mesmo, sem uma única exceção. Lula, os seus partidos e a elite-pirata que vive ao seu redor se declaram “socialistas”, todo santo dia; um dos seus ministros, aliás, é militante da religião comunista, com carteirinha e tudo. Como podem se considerar “democratas”, ou a favor do “estado de direito”? É impossível, na vida real, ser de esquerda e a favor da liberdade ao mesmo tempo. Lula, nesse seu calamitoso surto como “perito em política internacional”, deixou isso provado e contraprovado.

É mais prático ir por partes — pela China e pela economia, primeiro. Lula, em sua proposta mais ofensiva aos interesses do Brasil, mais indecente em favor dos interesses da China e certamente mais idiota entre as que já fez na vida, disse que quer fazer o seguinte: o Brasil deixa de receber em dólares as exportações que faz para a China (o maior comprador de produtos brasileiros em todo o mundo), e passa a receber em yuans; a China passa a receber em reais o que vende para o Brasil. (Há “detalhes” que ele não tem ideia de quais são, é óbvio; mas a essência do seu “plano” é essa.) Não se trata de um tiro no pé. É mais um tiro na boca do próprio estômago. Lula, para demonstrar o alcance filosófico de suas meditações sobre a circulação de moedas nos mercados mundiais, disse que não “entende” por que “todo mundo é obrigado a usar o dólar” no comércio internacional; preocupa-se com isso, segundo revelou, todas as noites. Ele não “entende” por uma razão bem simples: nunca perguntou a ninguém, já que sabe tudo, sobre todos os assuntos. Se tivesse perguntado, não estaria perdendo seu sono. Ninguém obriga ninguém a aceitar dólares; é o exato contrário. São os países, as empresas e as pessoas que querem receber o que vendem em dólar, pois é a moeda mais segura, mais líquida e mais desejada do mundo — por decisão do mundo, e não por um decreto do governo americano, como Lula acha que é. Ninguém quer receber nada em yuan, nem em real e nem em peso argentino, como Lula sugeriu na sua declaração na China — sim, ele falou até em peso argentino para substituir o dólar, acredite se quiser. Ninguém quer porque ninguém faz nada com um yuan, nem com um real e muito menos com um peso argentino, que hoje derrete a um ritmo de 100% de inflação ao ano. Não dá para comprar, com esse tipo de dinheiro, nem uísque paraguaio.

A proposta é uma maravilha para a China, que não precisaria mais gastar seus dólares com as importações que faz do Brasil, e que não são pouca coisa — 90 bilhões de dólares em 2022, com um saldo de 30 bilhões em favor do Brasil. Para o Brasil é o pior desastre que alguém já propôs, e um desastre proposto pelo próprio presidente brasileiro; nem os chineses pediram um negócio desses. Os 30 bilhões de dólares do saldo vão desaparecer. E o que Lula vai fazer com os yuans que receberá da China? O Brasil será obrigado, com esse dinheiro que só tem valor para os chineses, a comprar produtos da própria China — obrigação que não tem com nenhum país do mundo. Que tal, como gesto de independência comercial e econômica? O pior é que Brasil precisa dos dólares que Lula não quer receber; não se trata de uma “opção”. É indispensável ter dólares, por exemplo, para comprar petróleo. A China não vende um único barril para o Brasil; nem a Petrobras do PT, por mais que Lula exija, vai conseguir comprar petróleo com yuan. Também não vai conseguir comprar trigo — a China não vende trigo. Não é um produto de luxo, ou para os “ricos”; é o pão de cada dia, apenas isso. O Brasil compra trigo no Canadá, nos Estados Unidos, na Argentina, e aí é preciso mostrar dólar, não yuan. E os aparelhos de tomografia dos hospitais de primeira linha, ou de ressonância magnética, vendidos em dólar pela General Electric e pela Siemens? Lula vai fazer seu próximo exame num tomógrafo chinês? No Sírio-Libanês? Não existe aparelho de tomografia chinês no Sírio. Ninguém pode ter a menor ideia, também, de como comprar semicondutores sem ter dólares — e sem eles a indústria brasileira simplesmente para de funcionar. Entre as dez maiores fabricantes, oito são americanas e as outras duas da Coréia (do Sul, é claro) e de Taiwan. Como é que fica, então? E o Aerolula? O presidente vai trocar por um jato chinês? E os helicópteros dos empreiteiros de obras, dos amigos e dos amigos dos amigos? A lista não acaba mais.

Dinheiro chinês yuan, ao lado do real brasileiro | Foto: RHJPhtotos/Shutterstock

A submissão do Brasil aos interesses da Rússia é outra prova de que a política externa brasileira, pela primeira vez nos últimos 80 anos, se aliou às ditaduras e contra as democracias.

Os dólares desprezados por Lula também são essenciais para formar as reservas internacionais do Brasil em moeda forte; nenhum país do planeta tem reservas em yuan, ou em peso. De novo, não é uma questão de desejos, nem de “costura política” — o Brasil precisa das suas reservas, hoje na casa dos 300 bilhões de dólares, para manter a sua independência econômica. É como oxigênio: sem dólar ninguém é independente. É por isso que você não vê missões do FMI no Brasil — nem “exigências dos credores”, nem falta de dólares para fazer importações ou viagens. É por isso que o Brasil, ou as grandes estatais, ou as empresas brasileiras, podem levantar crédito nos bancos e organismos financeiros internacionais. É por isso, em suma, que o Brasil é um país solvente. É o contrário, exatamente, da Argentina — o sonho econômico que Lula persegue com tanto fervor. Outra dificuldade é o valor que os chineses vão dar às mercadorias brasileiras, nesse novo sistema que Lula está achando lindo adotar. O Brasil será obrigado a vender maciçamente na China; quem você acha, no caso, que vai fazer os preços dessas exportações, sobretudo quando se considera que a economia chinesa trabalha com estoques que lhe permite, o tempo todo, importar mais ou menos, conforme queira?

Ilustração: Shutterstock

É claro que a China é um parceiro fundamental para o Brasil; é o maior importador de nossos produtos e uma das turbinas que mantém a economia brasileira em funcionamento. Ninguém, ao contrário do que inventa a extrema esquerda, está querendo se afastar da China ou criar atritos com ela. Deve-se, na verdade, fazer o máximo que for possível para viver em harmonia com os chineses. Mas isso é o suficiente; não há nenhuma necessidade de ir além. É suficiente para os grandes países do mundo — que aliás estudam, neste preciso momento, medidas para reduzir a influência chinesa no funcionamento de suas economias. Por que não seria para o Brasil? O fato é que a China foi a maior importadora de produtos brasileiros durante todos os quatro anos do governo Bolsonaro, inclusive porque tem interesse em comprar o que compra; se não tivesse não compraria. Bolsonaro não teve de fazer nada de especial para manter essa situação. Não abriu mão de receber em dólares. Não se meteu nessa salada de yuan, real e peso de sabe-lá-quem. Não ficou de joelhos como Lula quer que o Brasil fique. Por acaso a Alemanha, a Inglaterra ou a França aceitam receber em yuans as exportações que fazem para a China? É claro que não; não lhes passa pela cabeça fazer nada parecido. Basta que o Brasil faça a mesma coisa — nem mais, nem menos. É bom lembrar, enfim, que Lula nunca vai sentir que faltam dólares no seu próprio bolso; continuará tendo, e tendo se sobra, todos os dólares que precisar para os seus lenços Hermès, sandálias Gucci e relógios Piaget de 80.000 reais. Quem vai ficar sem dólares é você.

Lula usa relógio Piaget de R$ 80.000 | Foto: Reprodução/Redes sociais

O fato é que não há nada de honesto, ou de útil para a população brasileira, ou de democrático, em nenhuma das decisões que Lula tomou desde que teve certeza de que seria declarado vencedor das eleições de 2022 pelo TSE. A submissão do Brasil aos interesses da Rússia é outra prova de que a política externa brasileira, pela primeira vez nos últimos 80 anos, se aliou às ditaduras e contra as democracias. Está valendo tudo, aí. Como é possível alguém dizer que a Ucrânia é culpada pela invasão do seu próprio território? (Lula chama a área invadida de “terreno”; acha que está lidando com uma questão imobiliária.) Não é apenas o zé-mané ignorante querendo se meter em conversa de gente maior que ele, ou o amador no meio de profissionais espertos; é isso, mas também é pior que isso. No caso, foi uma licença para a Rússia afirmar, oficialmente, que o Brasil apoia a invasão da Ucrânia, como disse o ministro russo de Relações Exteriores. Disse com toda a razão: é o que Lula fez, na prática e em público. De novo, a comparação com Bolsonaro: ele foi massacrado pela viagem que fez à Moscou, antes da guerra, por ter colocado o Brasil “a reboque” da Rússia e “isolado das democracias”. Mas Bolsonaro nunca disse uma sílaba em favor da invasão da Ucrânia, como Lula acaba de fazer. Quem, então, é a favor da ditadura?

Esse ministro russo, que o mundo democrático trata como uma espécie de renegado, foi recebido pessoalmente por Lula, com todas as honras, na viagem que fez ao Brasil logo após o presidente ter voltado da China. Por uma dessas coisas que antigamente as pessoas chamavam “castigo de Deus”, Lula estava com o homem na sua sala no mesmo dia, exatamente, em que o oposicionista Vladimir Kara-Murza foi condenado num tribunal da Rússia a 25 anos de cadeia fechada — isso mesmo, 25 anos — pelos crimes de “fake news” e de participação num grupo político “indesejável”, ou “antidemocrático”. Parece com o que, essa condenação? É o mundo que as polícias de repressão ao pensamento do governo Lula, a esquerda radical e o STF querem impor ao Brasil; ainda não conseguiram, mas estão fazendo o possível para chegar lá. Tudo isso, naturalmente, é tratado pela maioria da mídia como uma questão “técnica” de diplomacia. Do ponto de vista “pragmático”, perguntam os jornalistas, quais os prós e contras da dupla opção de Lula pela China e pela Rússia? No máximo, e com respeito de igreja, se fala em possíveis “desconfortos”, ou “ruídos” ou “restrições” que poderiam estar ocorrendo, quem sabe, com sua guerra ao dólar e com sua declaração que a Ucrânia é culpada pela guerra. É, mais uma vez, a mídia brasileira apresentando ao público o lado bom do suicídio. As posições de Lula e dos extremistas do seu governo são um ataque direto à democracia. O resto é farsa.

Janja; o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva; o presidente da República Popular da China, Xi Jinping; e sua mulher, Peng Liyuan, em cerimônia oficial de recepção Foto: Ricardo Stuckert/PR

Fonte: Revista Oeste

J.R Guzzo

José Roberto Guzzo, mais conhecido como J.R. Guzzo, é um jornalista brasileiro, colunista dos jornais O Estado de São Paulo, Gazeta do Povo e da Revista Oeste, publicação da qual integra também o conselho editorial.

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José Roberto Guzzo, mais conhecido como J.R. Guzzo, é um jornalista brasileiro, colunista dos jornais O Estado de São Paulo, Gazeta do Povo e da Revista Oeste, publicação da qual integra também o conselho editorial.

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