24 de maio de 2022
Joseph Agamol

Minha rua tinha passarinho

Foto: Márcia Valle

E também sapotizeiro, mangueira, pitangueira, goiabeira e mais uma montoeira de eira.
De manhã um tapete de sapotis comidos por morcegos. Aquela marquinha típica. Morcego era louco por sapotis.
A gente também.
Goiaba tinha até a sofisticação de podermos escolher entre a variante vermelha e a branca.
Connoisseurs de goiabas que éramos, os moleques donos da rua, senhores feudais do quarteirão, latifundiários de esquinas sem fim, preferíamos a vermelha:
a branca tinha muito bicho.
Que, aliás, não eram grandes empecilhos, não: removia-se a larva e seguia o jogo.
Ou não: bicho de goiaba era bom para as vistas, viu?
Minha rua tinha até casa assombrada, defronte da qual passávamos, em um misto de desafio e respeito.
Minha rua tinha passarinho, de fazer inveja àquela música do Francis Hime, “Passaredo”:
Pardal, rolinha, periquito, sabiá, cambaxirra e maracanã, de um tudo, urubu cochilando na asa da ventania, gavião-carijó.
Os invernos não eram tão frios nem os verões tão quentes, quem lembra?
Quando fazia 40 graus era notícia de Cid Moreira!
Acho que os extremismos que acometeram os devas dos tempos desceram até os homens de hoje.
Em que curva do caminho perdemos as tardes mornas de estio?
Em qual passo da estrada ficaram os corações serenos?
Minha rua tinha passarinho.

author
Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.