Cariocas no interior de São Paulo


Hoje, na farmácia, na hora de pagar, a caixa – uma que eu nunca tinha visto, e isso chama a atenção, aqui no interior todo mundo conhece todo mundo – me pergunta:
– nota fiSHHcal pauliSHHta?

Me surpreendi diante de um típico e clássico sotaque carioca legítimo.
Atrevi-me a localizá-lo na fronteira, na meiúca, entre o Parque União e a favela da Maré, com tintas do Morro do Adeus. É possível que ela passasse as férias na casa de uma tia em Ramos, vai que.
Tudo ali pertinho do German’s Complex, amigos e vizinhos, para os não versados na geopolítica dos subúrbios do Rio.
Vencida a surpresa inicial, matei no peito e mandei na lata:
– diSHHpenso a nota fiSHHcal, valeu.
Ela levantou o olhar e riu:
– carioca também? DA onde?
O “DA onde” doeu um pouco nos meus ouvidos, mas relevei: cansei de ouvir isso no Grotão, na Perereca e na Praça das Nações.
Somos cariocas, pô, e em nossas mãos – e línguas – reinventamos e ressignificamos a Língua Portuguesa o tempo todo.
– Lapa, mas sou nascido e criado em Ramos e Bonsucesso.
Então o cara que estava no caixa ao lado, e que acompanhava nosso pequeno diálogo atentamente, bradou:
– Ramos?! Pô, eu sou de Olaria, mermão! Imperatriz e Cacique e Mengão!
Nos saudamos todos com um “ah, qualé, fala sério!”, de praxe entre nativos do Rio.
Foi aí que nos entreolhamos e pensamos a mesma coisa:
– Peraê! TRÊS cariocas juntos no interior de São Paulo?!
Gente, CORRE que é arrastão!!!
O carioca é, antes de tudo, um pândego.
(“pândego” é como era chamado o carioca zoeiro do século XIX).

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