A memória é uma cobertura de caramelo no amargor de envelhecer

Hoje no carro tocou Billie Jean.

E eu fui imediata e inapelavelmente atingido por um flit nostalgizante qualquer, levado de cambulhada pela torrente do de se lembrar.

Foi em 1983. O Herbert ainda tinha cabelo e usava óculos, numa versão tupiniquim de Buddy Holly.

O tricampeonato mundial de Pelé tinha pouco mais de dez anos.

Como também os Beatles tinham se separado havia pouco mais de dez anos.

O regime militar agonizava, Brizola tinha sido eleito governador do Rio, dando início ao processo de mad-maxização da cidade do Rio de Janeiro.

Michael Jackson ainda estava vivo e era menos branco – mas sua música era boa como sempre seria.

Nas escolas você fazia o Segundo Grau, que até um tempinho antes era chamado de “científico”.

A disco-music deixava de existir, substituída pela “New Wave”: Duran Duran, Spandau Ballet…

Por falar em Spandau, ainda havia muitos criminosos de guerra vivos sendo descobertos pelo mundo.

Stephen King era um jovem escritor que tinha acabado de lançar o primeiro volume de A Torre Negra – não imaginava a lambança que iam fazer no filme, mais de 30 anos depois.

Eu era um moleque grandão da zona norte do Rio, metido a sabido, e que começava a descer a ladeira rumo à marginalização.

Mas em 1983 eu não sabia disso, claro.

Em 1983, no Rio, quando você tem 18 anos, o tempo parece estar ao seu lado, como cantavam – cantam ainda – os Stones.

Os verões pareciam mais amenos, os ossos eram feitos de adamantium, e a estrada convidava à fúria e ao som.

Como diz Stephen King, aos 18 anos você nem desconfia que o Tempo é o Tira Mau, que começa a rondar por perto.

A coisa boa de envelhecer é que o Tira Bonzinho aparece de vez em quando para dar um oi e lembrar que nem tudo é tão ruim: você tem a experiência, por exemplo… e a memória.

A memória é uma cobertura de caramelo no amargor de envelhecer.

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