1 de julho de 2022
Colunistas Joseph Agamol

O país guerreiro contra o arquétipo da malandragem

Para que o Brasil, efetivamente, dê certo – e por “dar certo” entenda-se construir um verdadeiro pacto civilizacional, compreendendo estabilidade política e econômica e efetivas segurança pública e educação, entre outros – é necessário não apenas fazer determinadas escolhas políticas, como muitas vezes supõe o senso comum: a luta é contra algo mais profundo, arraigado até o âmago da “alma coletiva” do país.

Estou falando de arquétipos.

O arquétipo do brasileiro, criado e projetado através dos tempos e reforçado nos dias de hoje, é o do malandro, o preguiçoso, o “malemolente”. O brasileiro é visto como possuidor de uma alegria inerente e ingênua, uma doce irresponsabilidade tropical: o brasileiro seria uma espécie de Cigarra na fábula da Formiga.

Imagem: Google Imagens – AnaLisando – meramente ilustrativa

Embora governos recentes tenham incentivado e anabolizado gostosamente a mística da malandragem nacional, o fato é que ela não vem de hoje: se recuarmos na História do Brasil encontramos representações clássicas da valorização dessa tal “malemolência”, como, por exemplo, na obra “O Cortiço”, de Aluízio Azevedo, na qual acompanhamos a transformação e aculturação do português Jerônimo. De trabalhador dedicado e homem sem vícios, Jerônimo desenvolve, a partir de sua mudança para o Rio de Janeiro, a preguiça, o gosto pela bebida e o abandono progressivo da cultura que o gerou.

Já no século XX, Mario de Andrade traça o perfil arquetípico do brasileiro na obra “Macunaíma: o herói sem nenhum caráter”. O livro torna-se uma espécie de epígrafe, síntese e, ao mesmo tempo, profecia para o Brasil: dali em diante, o zeitgeist nacional se tornaria, assumida e orgulhosamente, macunaímico, tornando os evidentes defeitos de caráter do anti-herói da ficção o verdadeiro “patrimônio” de um povo – e contra o qual lutamos até os dias de hoje.

Para que o Brasil, efetivamente, “dê certo”, como eu disse no início do texto, não basta escolher candidatos.

É preciso, isso sim, lutar uma batalha sem tréguas contra a ideologia do bom malandro, e começar a construir, com urgência, um novo arquétipo, distante da farsa, da preguiça e da corrupção – porque o povo brasileiro, em sua imensa maioria, não é assim. Um novo arquétipo que represente, verdadeiramente, a alma da nação que nos tornaremos.

Se, na letra de uma antiga e bela canção de Belchior, “o passado é uma roupa que não nos serve mais”, é a “roupa” da malandragem que não cabe mais no país que desejamos erguer.

author
Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.