23 de abril de 2024
Colunistas Joseph Agamol

O motel e os hipócritas

Durante muitos anos trabalhei e morei no Centro do Rio, mais precisamente na Lapa.

Era comum palmilhar toda a região, à época repleta de atrativos para mim: as belas igrejas do tempo do rei, a arquitetura colonial, os parques e jardins como o Passeio Público e o Campo de Santana, os inúmeros sebos de livros que iam da Praça Tiradentes (onde se localiza a magnífica estátua de d. Pedro I) até a Rua 1o de Março e a Avenida Rio Branco – os versados na geografia carioca saberão.

Pois bem: eu tinha uns 20 anos, e era justamente em uma das incontáveis vielas que cortam a avenida Rio Branco, que eu contemplava, a cada vez que passava pela região e por aquela ruazinha específica, um mistério:

Homens e mulheres entrando e saindo de uma pequena e discreta porta, de um prédio também pequeno, sem qualquer identificação. O movimento era maior na hora do almoço.

Isso se repetia diariamente.

Eu passava perto da porta, convenientemente de vidro fumê, tentava olhar lá dentro … e nada. O mistério me consumia. A dúvida me corroía. Eu já nem almoçava mais: ficava na esquina, espreitando o movimento, tentando juntar indícios que solucionassem o enigma, me sentindo aquele personagem daquela antiga crônica sobre o “pingado” – até hoje não sei o autor. Lourenço Diaféria? Enfim.

Um dia, tomei coragem, empurrei a porta de vidro e entrei. Não havia nada, apenas um hall vazio e um elevador, digno de uma história de Stephen King. Entrei no elevador, esperando alguma indicação do que havia no prédio. Nada. Apenas a numeração dos andares.

Continuei caminhando pelo hall e vi uma pequena mesa, com uma pessoa sentada. Fui até lá. Estava preparado para fazer uso dos meus 1,90m e 100kg – isso na época, o Tempo, esse sacana, me levou 5cm, ainda bem que da estatura hahaha – para obter as informações que queria – que PRECISAVA! – quando o gerente – só podia ser o gerente – me perguntou:

– O sr. precisa de alguma coisa? Cerveja? Se quiser pagar a conta, é só pedir que o garçom leva no quarto.

Foi aí que eu entendi. Era um motel. A droga de um MOTEL! Pedi desculpas, disse que estava procurando um determinado sebo e virei as costas para sair. Mas não resisti a uma pergunta ingênua:

– o sr. não acha que se tivesse uma placa na porta o seu movimento seria maior?

Ele riu, e respondeu:

– meu amigo, se eu colocasse uma placa na porta NINGUÉM MAIS entraria aqui!

Hoje, lembrando dessa história, acredito que eu não era tão ingênuo assim e, em algum momento, devo ter desconfiado do que acontecia no tal prédio.

É mais ou menos o que eu sinto quando vejo santarrões limpinhos que fizeram o L e agora se dizem surpresos com o nematelminto que ajudaram a chegar ao poder.

Hipócritas.

Joseph Agamol

Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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