24 de abril de 2024
Colunistas Joseph Agamol

No início dos anos 80, no Rio de Janeiro, eu tinha um amigo que servia ao Exército – e tocava numa bandinha de rock também

“Coisa mais sem lé com cré, Joseph”, dirão vocês. “O que tem a ver, banda de rock, servir ao Exército… Que maçada!”

Vou chegar lá.

Era assim que nós falávamos na época, “servir ao Exército”. “Você serviu?”, “Você vai servir?”, eram termos corriqueiros, não sei exatamente como se fala hoje.

O tal amigo trouxe para mim uma calça camuflada, não lembro se dos paraquedistas, se da infantaria, ou algo assim. Itens legítimos dos militares eram muito procurados pelos jovens naquele momento. Algo curioso, pois foi nos anos 80 que se intensificou a campanha pela transformação das Forças Armadas em inimigos supremos da sociedade.

Meu amigo me deu a calça e advertiu: “cuidado quando usar. Se passar em frente a uma patrulha ou quartel, eles podem tomá-la de você. Não é permitido seu uso se não for em serviço.” Outros amigos fizeram a mesma advertência.

Quase ao mesmo tempo, participei de um festivalzinho de música no meu colégio, em 83 ou 84. A canção da minha “banda”, com letra de minha autoria, foi classificada para a final, no prestigiado clube Municipal, na Tijuca. A letra era uma xaropada vagamente esquerdista, em tom de greta-pacifismo, um alerta contra as guerras: na linha do que o Sua Asquerosidade, o Verme III, fez em sua defesa da paz na guerra da Ucrânia. Mas eu tinha 17 anos. Enfim.

O diretor da época, o bondoso João Batista – já escrevi sobre ele aqui – me chamou em sua sala para me parabenizar – e me advertir:

– rapaz, essa letra aqui… sei não, se fosse em outros tempos você talvez até fosse preso. Está resvalando no desrespeito. Tome cuidado – arrematou, me olhando por cima das lentes grossas dos seus óculos com seu olhar sereno. Ainda se fazem professores assim? O bom e velho J.B.

Enfim. Toda essa conversa, que surgiu do papo com um velho amigo, pode ser lida apenas como uma crônica saudosista e descompromissada sobre os anos 80. Mas há um outro texto subjacente a este, que corre paralelo, em segundo plano, um pouco da forma como os nossos pensamentos se desenvolvem em um diálogo, e o tema desse texto implícito, quase oculto, é um só:

Respeito.

Em todas as suas formas.

E lamento.

Joseph Agamol

Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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