17 de abril de 2024
Colunistas Joseph Agamol

Há 10 anos…

Há exatos dez anos, em 2013, eu encerrei o expediente em um dos meus 5 empregos, atravessei a avenida Rio Branco e entrei na Livraria Cultura, no Rio de Janeiro.

Sim, houve um momento em minha vida em que tive 5 empregos – o que me torna praticamente o pai do Cris. Sim, ainda havia Livraria Cultura – um oásis de bom gosto, sofisticação e cultura, claro, em meio ao deserto indigente de tudo isso que é o Brasil. Ah, sim, e havia uma Cultura no RIO DE JANEIRO, pasmem!, justamente a capital dessa definição de Brasil. Sem mimimi: sou carioca e tenho o tal “lugar de fala”. Toma aí essa carteirada anti-bairrista.

Então. Era início de setembro, ecos do inverno carioca ainda no ar. Entrei na Cultura, localizada ali na Cinelândia, em um lugar anteriormente ocupado por punguistas, homeless, mercadores de dorgas, e afins. Tinha como dar certo? Expulsar essa pobre gente de sua área de atuação para instalar uma livraria, café, teatro e centro cultural?! Que audácia!

Entrei, respirei aquele aroma peculiar de livros – o segundo melhor cheiro do mundo – me banhei metaforicamente naquele lindo lago, naquela lagoa azul do saber e do conhecimento, e fui me perder entre as estantes – prazer que me está sendo pouco a pouco tomado. E foi aí que eu vi o livro.

Estava lá, em lugar de destaque em uma bancada, seu título provocativo e aparentemente arrogante, me desafiando. Já tinha ouvido falar – mal – do autor. Aceitei o desafio. No dia seguinte teria uma viagem longa de trem para a Baixada Fluminense – 5 empregos, lembram? – e esperava dar boas risadas dos absurdos que eu certamente leria naquele livro.

E, sim, eu dei boas risadas, amigos e vizinhos, em vários momentos. Eu ria sozinho, tendo o cuidado para disfarçar no Central-Japeri, em meio aos vendedores de amendoim em cones, bugigangas variadas, chocolate que não contém biscoito, artistas improvisados. Eu ria sozinho, à socapa, encantado com o humor finíssimo e sutil do autor.

Mas a maior parte do tempo eu deslizei entre as páginas, ora maravilhado com a sabedoria evidente do cara, ora embasbacado diante de sua vidência – eu só podia definir assim, tamanha a precisão com que o autor definia o Brasil de 2013 em escritos de uma década anterior.

Nunca o caminho até a Baixada passou tão rápido.

Eu guardei o livro com carinho na mochila, sabedor de que, daquele momento em diante, ele seria uma espécie de mapa em meio ao tortuoso século 21. E que o autor se tornaria um autêntico timoneiro, desbravando o caminho e sinalizando a direção.

Eu não sabia que ele também se tornaria um verdadeiro receptor de ódio coletivo de todos os seres das trevas, de todos aqueles que odeiam as luzes do conhecimento.

Faz dez anos que eu o conheci.

E ele tem mais razão do que nunca.

Joseph Agamol

Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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