20 de julho de 2024
Colunistas Joseph Agamol

Fui à estamparia encomendar uma camisa

Uma mocinha sorridente e simpática me atendeu.

– oi, posso ajudar?

pode, moça. Eu gostaria de estampar uma camisa.

– qual tamanho o senhor gostaria?

– M.

Ela franziu levemente a testa, sem deixar de sorrir. O sorriso dela começava a me incomodar. Era grande demais. DENTES demais. Parecia a droga de um aligator usando jeans e camiseta das Meninas Superpoderosas.

– M? Mas você é grande! Tem o quê? Um e noventa?

– 1,85m, moça, mas não gosto de camisa largona, tipo funkeiro, não. Pode ser M mesmo.

– tá. E qual seria a estampa?

– do Loola. Vocês tem estampa do Loola?

O sorriso dela se ampliou. Se é que isso era possível. O sorriso se alargou tanto que tive um sincero receio. Uma imagem me veio à mente, aquela boca se abrindo cada vez mais, até todos os dentes de jacaré-do-papo-amarelo começarem a cair no balcão. Sacudi a cabeça para afastar a visão.

Foto: Google Imagens – Coisas da Roça

– que legal! Temos vários modelos! O senhor gostaria de ver?

– não precisa. Se você quiser, escolha um para mim, um que apareça bem a carantonha dele.

Ao som da palavra “carantonha”, que ela provavelmente desconhecia, mas que imaginava que não significava coisa boa, o sorriso bruxuleou um pouco. Só um pouco. Ela mostrou uma série de imagens em um notebook.

Escolhi uma na qual ele exibia uma expressão quase beatífica, pura e inocente – vocês me perdoem ficar escrevendo “ele” toda hora, mas sinto uma certa gastura diante do nome do dito cujo. Hoje eu entendo o que os personagens de Harry Potter sentiam ao ouvir o nome de Voldemort.

A moça voltou a sorrir, o crocodilo-do-Nilo de alargador nas orelhas.

– essa tá linda! Quais os dizeres o senhor deseja colocar?

– “Loola é o c…” – mandei, de supetão.

O queixo dela caiu como o do Pernalonga nos desenhos antigos. Hoje não, o Pernalonga virou um chato wokie. Mas o Pernalonga das antigas atirava com trabuco, se vestia de muié, chutava o traseiro do Hortelino e espancava o Patolino. Hoje, se bobear, pede desculpas à cenoura antes de comer.

– mas… mas… o senhor NÃO PODE usar uma camisa assim! – grasnou o alligator de tiara cor de rosa.

– e por que, não, ora essa é boa?! Qual o valor?

Ela respondeu com frieza. O sorriso sumiu. Mas os dentes estavam lá. Os dentes. Sinto calafrios só de lembrar.

– R$100,00.

Agradeci a atenção e desisti. Por enquanto.

Posso até não fazer a camiseta – achei caro.

Mas a diversão… ah, essa não tem preço.

Joseph Agamol

Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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