14 de abril de 2024
Colunistas Joseph Agamol

Farinha Láctea

Hoje, no mercado, fiquei procurando a farinha láctea Nestlé. Parei no setor de leites em pó, farináceos e afins, olhar perdido, meio bestializado como o povo brasileiro após o golpe que depôs o velho Imperador.

Até encontrei, de marcas variadas, genéricos, acredito. Mas a Nestlé, não. Uma coisa leva a outra, vocês sabem, e quem me conhece um tantinho já sabe: abriu-se o portal do tempo, o buraco de minhoca que me leva direto para o passado. Está acontecendo cada vez com mais frequência, agora. Fechei os olhos e refresquei o olhar nas águas frias do Tempo.

Eu chegava da escola, esbaforido: não eram tempos fáceis, e o que chamam hoje de “bullying” era a realidade corriqueira de todos, sem exceção – a reação era permitida, desde o “vou te esperar lá fora” até o revide imediato, sendo a única proibição buscar a intermediação de qualquer adulto na rixa – o que causaria inequívoca desmoralização do contendor.

Partia para a cozinha, parando brevemente para ligar a tv preto & branco valvulada na sala: com um pouco de sorte, ainda não teria começado o “Globo Cor Especial”, com desenhos da Pantera Cor de Rosa, A Formiga e o Tamanduá, e O Inspetor, entre outros.

Alcançava a lata amarela, com o inconfundível logotipo das pombas e do ninho, mergulhava a colher no pó espesso e granulado, cor de um campo de trigo, pegava o leite CCPL no saquinho e… voilà: estava pronto um pequeno manjar, um prato de ambrosia digno do velho Olimpo, que ia segurar minha insaciável fome até mais ou menos a hora da janta.

Esse filme em Cinemascope como um western spaghetti de Sergio Leone com Clint Eastwood como protagonista passou por sobre meus olhos fechados por um átimo. Voltei a mim: uma moça me olhou com ar assustado, pensando talvez em o que o grandão tatuado estava fazendo parado ali, em meio a leites em pó e fórmulas.

Não achei a farinha láctea Nestlé. Fiquei um pouco frustrado a princípio, mas depois decidi que, afinal, tinha sido bom. Eu não poderia suportar a mesma decepção que tive ao buscar os antigos sabores de produtos como o chocolate Kri, o chicabon e o bolo Ana Maria.

Seria uma traição ao menino que eu fui – e eu não queria correr esse risco. Vai que meu ato mexeria com os multiversos e alteraria os paladares que fizeram minha alegria há décadas – e que me fazem sorrir ainda hoje.

Joseph Agamol

Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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