16 de agosto de 2022
Colunistas Joseph Agamol

Eu sou careta


Sempre fui. Apesar da minha aparência, digamos, rústica – incluam no pacote as 12 tatuagens, a altura, barba e tals – e que leva as pessoas à errônea conclusão de que sou um doidão em potencial, eu sou careta.
Sempre fui. Caretaço. E sofri e sofro preconceito por conta disso. Serião.

– mas como assim você não bebe, Joseph?!
(A pergunta me é feita como se a pessoa dissesse: “mas como assim você não respira, Joseph?!”, e em um tom entre escandalizado e incréu.)
Quando digo que não, não bebo, vem o complemento, infalível como Muhammad Ali:
– mas nem uma CERVEJINHA?
Aí mesmo é que não bebo. Odeio cerveja. Bebo, no máximo, um vinhozinho do Porto (ah, esse sangue de portuga!) ou um Bourbon texano.
Mas o fato é que já perdi a conta das vezes em que fui vítima de bullying feroz pelo simples fato de não beber, não fumar e não me drogar. Coisas consideradas perfeitamente naturais hoje em dia. Quiçá desejáveis.
Na UERJ, por exemplo, nos meus tempos de formar bandinhas, um amigo me disse, na caradura:
– Joseph, queria montar uma banda com você, gosto do seu estilo na guitarra, mas não dá! Você é… é… careta!
E pronunciou a palavra como se fosse o nome de uma doença. Com cara de nojo. Juro. Outro amigo certa vez me tacou, na lata – depois de ter bebido umas latas, claro:
– cara, não dá pra confiar em quem não bebe!
E foi daí pra pior. Até alguns representantes que se dizem direita ou conservadores implicam com minha caretice congênita.
Volta e meia topo com posts enaltecendo os bebedores de cerveja, por exemplo, como se fossem, sei lá, integrantes dos batalhões que invadiram a Normandia no Dia D ou guerreiros cruzados manuseando espadas de 10kg, enquanto eu seria, no máximo, um dos imberbes rapazolas que almejam a virilidade exacerbada.
Tudo bobagem, claro. Bullshit total. Como professor por 20 anos, pude observar in loco a escalada dessa verdadeira ideologia que elevou a bebida ao patamar de “lazer”.
Cada vez mais jovens – e mais jovens, ou seja, com menos idade – passaram a considerar encher a cara como sinônimo de diversão – e, se não ocorre a consequente embriaguez, é como se o momento de “lazer” jamais tivesse existido para eles.
Fico matutando. Talvez seja muita paranoia minha atribuir a disseminação do consumo de bebidas e drogas a um incentivo planejado no sentido de auxiliar o projeto de destruição da nossa sociedade, atingindo-a no que tem de mais precioso e ajudando a dissolver os laços que nos unem há séculos.
Talvez.

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Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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