8 de agosto de 2022
Colunistas Joseph Agamol

Elvis para crianças

Tuca estava bronqueada. Sentada no sofá, pernas de índio, bracinhos cruzados, um bico amarrado do tamanho do mundo. Olhava para a TV, hostil.
A imagem da bravureza. Vô Manduca chegou, tomou assento ao lado da pequena, que, quieta estava, quieta ficou. Vô, sabedor do temperamento da moça, ofereceu um chocolate – sempre funciona, em todas as idades! – e esperou até ela desembuchar. Não tardou.
– vô, mas que saco, viu?! Tem mais de dezetrinta canais aqui e não tem nada que preste!
– hummm… e o que você está procurando, moça?
– música, vô. – e repetiu para não pairassem dúvidas – MÚSICA! Mas só encontro essas feiuras, esse barulhão sem graça, essas… essas…
E fez um gesto de impaciência em direção à TV, onde pontificava uma canção tradicional infantil – em ritmo de funk.
Vô Manduca decidiu que era hora. Pediu o controle remoto à fedelha brava, brava como a mãe – ele sorriu.
– tó, vô. O que o sinhô vai fazer? Ela perguntou, entre curiosa e divertida.
O velho não respondeu. Sintonizou o YouTube – deu mentalmente graças por ter insistido em aprender, ignorando a zombaria do restante da família – e foi na busca, catando milho, digitando:
– E… L… V… I… S… Elvis. Pronto!, exclamou, triunfante.
A guria arregalou um zoião:
– queeeeeeeem é esse moço?!
– Elvis é o Rei. Ouve só. Essa música é a mais perfeita definição para FELICIDADE. Sabe quando você toma uma Coca-Cola geladinha num dia de calor senegalesco? Essa música é assim!
– o que é selenaguesco, vô?
– xapralá. Ouve, mocinha.
Aos primeiros acordes de violão de “Burning Love”, ao primeiro som da voz de Elvis, ao primeiro “uhuhu”, o rosto da menina se iluminou.
E ela dançou, como provavelmente dançaria por toda a vida, ao ouvir a alegria em forma de música.
Elvis é o Rei. Sempre vai estar por aí.

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Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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