3 de julho de 2022
Colunistas Joseph Agamol

A paixão segundo um menino

Nós, crianças nos anos 70 e 80, sabíamos que estava chegando o tempo da Páscoa, mas não pelos chocolates pendurados nos carrefoures e Lojas Americanas da época, até porque não existiam. O que nos lembrava era a manteiga.

O pote que, duas ou três semanas antes, fosse esquecido fora da geladeira tornava-se uma poça amarelada e gordurosa. Em meados de abril, a temperatura já estava mais suave e generosa no Rio setentista, e eventuais manteigas esquecidas não derretiam mais.

Em minha casa, ainda que o cardápio fosse quase sempre de feijão, arroz e ovo, na Sexta Feira da Paixão havia bacalhau.

Economizava-se mais que o economizável habitual, perfurava-se mais um furo metafórico em um cinto hipotético, e a sexta amanhecia com uma posta mais ou menos generosa do norueguês, que reputo legítimo, àqueles anos, o qual chegava à mesa, ao almoço, afogado em azeite e batatas.

Se eu tivesse sorte, muita sorte, talvez alguns bombons Sonho de Valsa aparecessem, para degustação assistindo ao infalível filme sobre a Paixão, que era exibido todos os anos, à tarde.

Lembro que o ator que representava Cristo só era filmado de costas ou em ângulos nos quais seu rosto não aparecia: provavelmente por ser considerado que nenhum homem era digno de interpretar Yeshua. Delicadezas e respeito vintage: coisas em desuso, demodê hoje em dia.

E, à noite, eu me embrulhava no meu velho cobertor de chenile, sentindo os primeiros arrepios do gentil inverno carioca, vendo pela janela o luar incrível de abril e ouvindo os garotos maiores na azáfama do dia seguinte.

Há lugares dos quais todos vão se lembrar por toda a vida, como diz aquela canção dos Beatles.

E tempos. E tempos.

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Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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