28 de maio de 2022
Veículos

Mil quilômetros com o Gol Track, urbanoide (bem) vestido de aventureiro

Durante um mês, rodamos quase certinhos mil quilômetros com o carro laranjinha que você vê nestas fotos – e, em breve também num vídeo da TV Rebimboca. Passamos pelas mais variadas estradas, ruas e avenidas, nas mais diversas circunstâncias climáticas, de carga e geografia. A seguir, falamos um pouco de como foi esse teste de longa duração em clima familiar.

Era uma vez…
A história começa no início de dezembro de 2016, quando o assessor de imprensa gente fina da Volkswagen me ligou oferecendo Gol Track para avaliar. Seriam 30 dias de comodato, incluindo os feriados de fim de ano. Distraído, num primeiro momento, não liguei o nome à nova versão do carro, que havia sido apresentada meses antes, no Salão do Automóvel de São Paulo.

Mas, pelas fotos, pensei logo em mais uma daquelas variações enfeitadas com acessórios de inspiração aventureira, um pouco mais altinha em relação ao chão, supostamente preparada para enfrentar estradinhas de terra nos finais de semana. Essas versões à lá Indiana Jones são geralmente equipadas com um dos motores mais fortes que a montadora dispõe para o modelo.

Como estava mesmo planejando tirar uns dias de folga para viajar com a família, resolvi unir o útil ao agradável e incluí o Track em nossa trupe.

Surpresa sob o capô

Quando fui buscá-lo o carro na concessionária, vi que o carrinho não estava muito longe do que eu imaginara, a não ser por um pequeno – mas significativo – detalhe: no lugar do tal motor mais forte que eu deduzira, sob o capô rosnava espevitado um propulsor 1.0 de três cilindros e 82cv (com álcool – 75cv com gasolina) e cerca de 10 kgfm de torque, o mesmo que é usado nas opções mais baratas do UP! (sem turbo) e do próprio Gol. (veja a ficha técnica no final do post).
Eu já havia testado um Gol com essa configuração, equipadinho, na versão Comfortline – você pode ler essa avaliação aqui no arquivo do blog e assistir a um vídeo com esse teste em na TV Rebimboca, no Youtube. Mas, daquela vez, rodei apenas na cidade, sem passageiros nem bagagens e, principalmente, sem serras no meu caminho. A sensação de “xi, roubada!” foi inevitável.
Em seu habitat natural
No trânsito da cidade, nas semanas antes da viagem, não houve grandes surpresas em termos de desempenho. O modelo não se mostrou lá muito emocionante, foi mas ágil o suficiente para as manobras cotidianas, bem econômico – sempre acima dos 10 km/litro de gasolina em trânsito amarrado e, às vezes, com toda a família a bordo. E demonstrou um conforto geral – vá lá – condizente com sua categoria. Aos poucos, aliás, fui descobrindo a bordo uma série de acessórios bem bacaninhas, estes sim, meio incomuns nas versões de entrada. Alguns deles são uma verdadeira mão na roda no dia a dia.
Um deles é o chamado tilt-down, sistema que move o espelho retrovisor direito sempre que se engata a marcha ré, de forma que você enxergue o meio-fio, ajudando muito barbeiros como eu a estacionar o carro sem arranhar as rodas ou parar afastado demais. Junto, há sensores de estacionamento que fazem aquele chato, mas útil, pipipipipííííí, projetando também graficamente na tela de multimídia a existência de obstáculos na traseira.

Por falar em tela, a central de multimídia é outro ponto que vale mencionar. De série no Track há a versão mais simples, mas que já incorpora vários recursos de conectividade. O carro que testamos trazia o sistema opcional “Discover Media” de infotainment, que a despeito dos nomes estrangeiros é bem fácil de entender e usar, mesmo para quem não for poliglota.

Tem navegação por GPS integrada, tela colorida de alta resolução com 6,33” sensível ao toque (com sensor de aproximação), e diálogo avançado com os smartphones. Na prática, ela iguala o reles golzinho a modelos bem mais caros da marca em termos de som e conectividade. Parte dos comandos da multimídia estão replicados no volante (como telefone, volume, rádio etc.). Fiquei impressionado com a ótima qualidade do som, “genérico” da VW, mas digno de uma daquelas marcas com nomes impronunciáveis que costumam equipar carros de luxo.

Você quase se esquece que está a bordo de um modelo com preços que começam em R$ 45 mil. Mas acaba lembrando disso quando vai procurar – e não acha – a regulagem de altura e profundidade do volante e, de forma mais permanente, quando percebe que o isolamento acústico da cabine está no razoável nível do dos carros mais baratos.

Além disso, a boa direção tem assistência hidráulica, enquanto muitos dos concorrentes já usam para isso um motor elétrico. Embora seja mais direta e, pelo menos para mim, mais gostosa de usar, pois permite que você sinta mais a estrada, o sistema hidráulico “rouba” força do motor para funcionar – enquanto o elétrico usa a energia do alternador e da bateria, proporcionando assim mais economia de combustível.

Trupe na trilha com o Track
Pegamos então a estrada, inicialmente em direção à Araras, nas cercanias de Petrópolis e com uma boa serra no caminho.
Com o competente (mas também um pouco barulhento) ar-condicionado funcionando à plena força e já em velocidade de cruzeiro pouco acima de 100 km/h, em quinta marcha e última marcha do câmbio manual, o carro vai bem.
Vence pequenos aclives sem precisar de redução no câmbio e, no computador de bordo, assinala um consumo médio de cerca de 15 km por litro. Depois que os trechos de serra entraram na conta, essa média caiu para uns 13 km litro, sempre com gasolina.

Mas a boa notícia é que os enxutos 9,7 kgfm de torque (são 10,4 com álcool) se apresentam logo aos dois mil giros e dão conta de manter a tranquilidade do motorista, salvo em necessidade de retomadas muito agressivas, como em ultrapassagens na subida partindo de velocidades muito baixas. Aí é bom ter paciência e só sair com uma boa margem de segurança.

Saber pisar no acelerador e usar as trocas de marchas da melhor maneira ajuda muito – e isso é algo que se aprende, sem muita dificuldade, convivendo alguns dias com o carro. O câmbio da Volks é famoso por sua justeza e facilidade de engates. Fiquei com a impressão de que, se em vez de cinco, houvesse seis velocidades, mesmo com o torque limitado, a economia em estradas planas, rodando com o motor em giros um pouco mais baixos, seria bem maior.

De lá pra cá, de cá pra lá

Dias mais tarde, de Araras, passando pela estrada antiga Petrópolis-Teresópolis, descemos até Guapimirim. Depois fizemos um bate e volta ao Rio, passando mais alguns dias em Guapi. Em cada uma dessas paradas, rodei bastante também, em passeios, testes, saídas para fazer compras…

Nesses trajetos, viajei com lotações variadas: eu, a namorada e nossa bagagem; nós e nossos dois filhos – um de 18, outro de 22 anos – sem bagagem; nós, um dos filhos, um amigo dele e mais um montão de malas e sacolas… O peso a bordo, claro, fez diferença no comportamento do carro, mas mesmo nos momentos de maior peso, nem motor nem suspensão demonstraram desespero. Basta não ser muito afoito nas subidas mais íngremes que se chega lá tranquilamente. Isso e, claro, lembrar sempre que trata-se de um compacto com porta-malas limitado, especialmente na hora fazer as malas para a viagem.

Agora, nossa avaliação
Mesmo com os equipamentos e acabamentos, o Gol Track continua, em essência, sendo um Gol 1.0, ou seja, um carro bem simples, no que isso representa de bom e de ruim. Guiá-lo é descomplicado, a suspensão um pouquinho mais alta realmente ajuda a não raspar o fundo do carro em lombadas e pedras do caminho e ele passa uma sensação resistência, de coisa que não vai quebrar fácil mesmo quando não é assim tão bem tratada.
Por outro lado, mesmo com um motor bem moderno e sucessivas plásticas na dianteira, o projeto base do Gol atual é derivado de sua geração G5, lançada em 2008, antiga se comparada a maioria de seus concorrentes diretos. Embora a montagem, o acabamento e a qualidade dos materiais usados no carro sejam em geral bons, o nível de ruído a bordo é alto e o espaço interno não é dos mais amplos.

O que, em minha opinião, pesa a favor dessa simpática versão do Gol é o seu custo-benefício, computados os acessórios “de série” que ele oferece, incluídos aí, claro, os que são meramente estéticos mas, nem por isso, menos interessantes. Ele acaba sendo uma opção a se levar em conta para quem quer um modelo econômico, não muito caro e um pouquinho diferente da maioria do que se vê pelas ruas. Principalmente se for na cor laranja.

Ficha técnica (dados do fabricante)
Motor: 1.0 (999cc), flex com três cilindros.
Potência: 82cv (álcool) / 75cv (gasolina)
Torque: 10,4 kgmf (álcool), 9,7 kgmf (gasolina)
Velocidade máxima: 170 km/h (álcool), 168 km/h (gasolina)
Aceleração de 0 a 100 km/h: 12,3 segundos (álcool)
Consumo médio (medição Rebimboca, estrada e cidade): 12,3 km/l
Dimensões: 1,48m (altura), 1,65m (largura), 3,90m (comprimento), 2,46 (entre-eixos)
Peso: 974 kg
Capacidades:
Porta-malas: 285 litros
Tanque de combustível: 55 litros
Preço: a partir de R$ 45.400,00

Fonte: BLOG REBIMBOCA

Jornalista, blogueiro e motorista amador.

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