20 de abril de 2024
Colunistas Fernando Gabeira

O fantasma do banheiro unissex

Continuo achando que o banheiro de uso individual pode ser usado tanto por homens quanto por mulheres.

Volta e meia, o tema do banheiro unissex vem à tona. Na campanha, os adversários atribuíram a Lula a intenção de implantá-lo no Brasil. Ele reagiu dizendo que era pai e avô e não faria essa loucura. Mesmo ele, para se defender, comprou a ideia do banheiro unissex com as tintas pavorosas que a extrema direita a pintou.

Na verdade, o tema interessa a políticos que usam perucas para falar de transgêneros porque é uma forma clássica de assustar e aglutinar pelo medo. Imaginem suas filhas em banheiros frequentados por homens…

Quando se vê essa discussão pelo mundo, sobretudo no governo Obama e em Nova York, a ideia de utilizar banheiros para homens e mulheres era exclusivamente em espaços para uso individual. Se pensarmos bem, é isso que acontece em quase todas as famílias. Os banheiros são usados por uma pessoa de cada vez, que tranca a porta enquanto faz uso.

A universalização desse modelo, em lugares públicos, talvez não seja um tema importante no Brasil. O adequado mesmo é constatar que temos cerca de 5 milhões de pessoas sem banheiro no país. Isso é uma prioridade. Essas pessoas estão completamente fora da conversa sobre banheiros unissex: o que querem e precisam é apenas um banheiro.

Vejo uma dificuldade em banheiros unissex para uso individual no Brasil. Minha experiência pelos postos de gasolina e outros lugares públicos por onde cotidianamente trabalho no país é que os homens às vezes são descuidados e têm má pontaria.

Soube por meio de um amigo que voltou dos Estados Unidos que o aeroporto de Los Angeles encontrou uma solução satisfatória. Há três tipos de banheiros: homens, mulheres e um terceiro com o cartaz “gender”. Esse banheiro serve para todos os que não se identificam com os dois outros e ficam constrangidos em usá-los. Acho que esse tipo de saída rapidamente se expandirá no mundo, sobretudo em aeroportos internacionais, espaços cosmopolitas.

Não tenho experiência direta de como os passageiros a encaram em Los Angeles. Creio que muitas pessoas que às vezes deixam de fazer suas necessidades físicas por constrangimento ganham uma alternativa. E não há chance de a extrema direita fantasiar sobre crimes sexuais em banheiros. Na verdade, esse grupo político fantasia sobre crimes sexuais em banheiros para escapar da terrível realidade de que a maioria dos crimes sexuais acontece no seio da família, precisamente a entidade que querem santificar.

Continuo achando que o banheiro de uso individual pode ser usado tanto por homens quanto por mulheres. Aliás, já tinha visto em alguns lugares da Suécia ainda no fim do século passado. O único problema é este: os homens precisam ser educados, e só uma poderosa estrutura de limpeza poderia viabilizar a ideia.

Mas completando: tudo isso é supérfluo diante dos milhares sem banheiro e também de nosso cotidiano nas estradas do interior, por onde viajamos dezenas de quilômetros sem achar nada. Não se trata da banheiros unissex, mas sim de banheiros compartilhados com os mais variados insetos. Outro dia, encontrei uma enorme aranha numa estrada perto de São José do Xingu.

Mas quem pensará nos sem banheiro e água potável, mesmo no desconforto das estradas secundárias e até das grandes metrópoles brasileiras, tão precárias em oferecer instalações dignas para os transeuntes necessitados?

Há muitas dimensões do problema, soluções para todas elas; mas, infelizmente, muitos se recusam a buscá-las porque, de um lado, querem manter cativas as pessoas que amedrontam e, de outro, gostam de cultivar seus fantasmas.

Artigo publicado no jornal O Globo em 02/10/2023

Fonte: Blog do Gabeira

Fernando Gabeira

Jornalista e escritor. Escreve atualmente para O Globo e para o Estadão.

Jornalista e escritor. Escreve atualmente para O Globo e para o Estadão.

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