2 de julho de 2022
Colunistas Fernando Gabeira

Diário da crise CDXLIX

Domingo estranho, o sol apareceu muito pouco. A passagem pelos jornais estrangeiros não trouxe assim muita novidade.

Houve um material que me interessou especialmente. É sobre o glifosato e foi publicada no Le Monde. O glifosato é um herbicida muito discutido na Europa e amplamente usado no Brasil, inclusive nas plantações transgênicas.

Dois cientistas austríacos, especializados em câncer, fizeram um balanço dos 53 estudos que possibilitaram o uso do glifosato na Europa e consideram a maioria deles insatisfatória.

Não vou me alongar nesse tema porque o Brasil oficial não se preocupa com isso. Tivemos recordes de aprovação de agrotóxicos no país, durante o governo Bolsonaro. Esse processo só será detido quando os consumidores internacionais começarem a recusar produtos brasileiros com medo de se envenenarem.

As manifestações de ontem foram mais amplas do que registrei. Falei em 17 cidades, mas aconteceram em 25. Pena que em São Paulo um grupo tenha se aproveitado para cometer violências, tudo o que os adversários esperam para criticar.

No campo da pandemia, Bolsonaro continua a tentar derrubar a Coronavac, não por ser uma vacina chinesa mas para atacar seu rival, João Dória.

As pesquisas indicam um nível menor de eficácia, comparada a Pfizer, no que diz respeito à contaminação. Mas para prevenir mortes e internações a Coronavac funciona bem.

Vamos ver o que acontece esta semana na CPI. Devem retomar o foco, agora que o presidente será investigado por prevaricação. O problema é que até o momento, Bolsonaro estava sendo acusado por expressões difíceis de entender: negacionismo, obscurantismo. Entrou prevaricação que também complica um pouco.

Mas as denúncias de corrupção, acabam tornando as coisas mais cristalinas para as pessoas que acompanham de longe, sem familiaridade com essas expressões complicadas.

Escrevo um artigo no Globo amanhã falando um pouco disso tudo. Passamos de uma fase em que denunciamos o verbo desmatar, fomos para outra em que se denuncia o verbo matar, por omissão na pandemia, e desembocamos no verbo roubar de corrupção.

Embora, no meu entender, seja menos grave que os outros dois, acabará tornando as coisas mais fáceis pois os brasileiros conhecem melhor o tema corrupção .
Gostaria de ter trabalhado mais nesse domingo. Decidi assistir um jogo de futebol e cheguei a conclusão que, diante do que vi rapidamente na Copa Europa, o esporte aqui é bem diferente, sonolento e burocrático.

Felizmente retornei ao livro O sonho do Celta para tentar recuperar o domingo. Estou chocado com as atrocidades dos belgas no Congo. Realmente Conrad tinha razão ao chamar aquela parte do mundo, naquele momento, de o coração das trevas.

Não por causa dos nativos, mas também pelas atrocidades dos europeus que diziam estar levando a civilização para as selvas africanas.

Fonte: Blog do Gabeira


Jornalista e escritor. Escreve atualmente para O Globo e para o Estadão.

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