14 de julho de 2024
Colunistas Fernando Gabeira

Diário da crise CDLVI

Imagino a luta pelo poder que se desancadeou no Haiti, depois do assassinato do presidente do país.

Os Estados Unidos seguem relutantes em mandar alguma ajuda. No The Guardian há uma referência à viúva do presidente, lamentando a luta interna no país.
O Brasil está calado. Já estivemos no Haiti durante muito tempo, tentando cumprir a missão da ONU de pacificar e retomar o jogo democrático.

No front interno, uma pesquisa do Data Folha informa que 63 por cento dos entrevistados consideram Bolsonaro incompetente para dirigir o país.
Mais cedo ou mais tarde, as pessoas iriam compreender. Bolsonaro com suas frases e atitudes contribui para que a consciência de que é inadequado para a função se amplie.

Tenho feito uma comparação de seu governo com o do ex-prefeito  Marcelo Crivella, no Rio. Não há possibilidade de reeleição quando se é tão incapaz. No máximo, uma ida ao segundo turno eleitoral, com derrota garantida para o rival, não importa quem seja.

Essa é uma das razões pelas quais enfatizo a necessidade de discutir o pós bolsonarismo de uma forma mais profunda: quais são as condições para se evitar um retrocesso desse tamanho?

Ninguém tem a fórmula acabada.

Escrevo um artigo sobre o tema no Globo de amanhã. Mas enfatizo esse ângulo do debate porque estamos sempre falando de propostas nostálgicas: Bolsonaro quer voltar ao período da ditadura, o PT, até o momento, promete voltar aos governos Lula.

As condições estão alteradas para  que se fala na repetição de um passado, ainda que recente. O movimento espontâneo de 2013 já nos empurrava para pensar um pouco mais na distância entre a política e o cidadão comum.

Enquanto ela existir, o perigo de aventuras autoritárias continua no ar.

Neste fim de semana, os jornais europeus destacam também o jogo decisivo entre Itália e Inglaterra, em Wembley.

Ontem foi decidida a Copa América, vitória da Argentina.

Continua um debate na internet, sobre torcer ou não pela seleção brasileira, que foi incapaz de rejeitar a Copa América no Brasil. Há opiniões exaltadas de ambos os lados.

O interessante é registrar que, independente ou não de torcida, principalmente em tempos de pandemia, no campo é que se decide o jogo. O Brasil apresentou um futebol medíocre, inclusive com dois ou três jogadores que não deveriam estar na seleção.

A continuar nesse tom, haverá uma grande expectativa para a Copa do Mundo do Qatar e seremos facilmente batidos pelas seleções europeias, com direito à tristeza e abalo na autoestima.

Se a seleção brasileira não consegue ter uma opinião política, precisa, pelo menos, recuperar um futebol perdido.

Lauro Jardim publicou hoje uma notícia fantástica: Cristiano Alberto Carvalho, o negociador de 400 milhões de doses de vacina, em nome da Davati, recebia auxílio emergencial de R$600. O cabo Dominguetti não conseguia pagar o aluguel.

Estavam todos a perigo e resolveram dar uma grande cartada. Por isso disse na tevê que isso parecia uma chanchada, inclusive com participação de reverendos e militares. A última a saber era a Astrazeneca, que não tinha de forma alguma 400 milhões de doses para vender ao Brasil.

O fato de terem sido recebidos pelo governo e inclusive uma autoridade do Ministério da Saúde, Roberto Dias, ter pedido para aumentarem o preço, -um dólar a mais por dose-, significa apenas que ainda não vivemos num país sério.

Fonte: Blog do Gabeira

Fernando Gabeira

Jornalista e escritor. Escreve atualmente para O Globo e para o Estadão.

Jornalista e escritor. Escreve atualmente para O Globo e para o Estadão.

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