17 de abril de 2024
Colunistas Fernando Fabbrini

Triste Bahia

Retratos da divisa imaginária de dois Brasis.

Foto: Hélvio

Sempre enxerguei a Bahia como uma fronteira sutil da nação brasileira; a zona intermediária, a transição entre o Sudeste, mais desenvolvido, e o Nordeste, eternamente abandonado. Foi na Bahia que sulistas descobriram um novo estilo de Carnaval; suor e cerveja ao som das ivetes e dos chicletes. Foi também na Bahia que parte do Nordeste integrou-se ao Brasil promissor dos anos 1970, quando o turismo se expandiu e gerou empregos nos resorts do litoral.

Para quem vinha “do sul” a trabalho, como no meu caso, foi necessário um aprendizado para conviver com as diferenças. Falo da supremacia dos burocratas nomeados pelas oligarquias, sempre a serviço delas, e também da onipresente lentidão endêmica. Com pesar, uma médica contou-me que a indolência pode ser causada pela falta de certos nutrientes na primeira infância; a subnutrição deixa essas marcas.

Aos lendários coronéis do passado bastaram ajustes nas alianças políticas para continuarem reinando através de filhos e netos. Donos de terras, usinas, gado e fazendas de cacau hoje circulam bem protegidos em SUVs blindados de vidros escuros pelas estradas empoeiradas e esburacadas do interior. É a maior região e a que poucos turistas conhecem; o território dos povoados paupérrimos com crianças barrigudas, seminuas, sem escolas; vira-latas empesteados; casebres minúsculos onde falta o reboco – mas jamais a antena da TV. Pela TV se realiza o triste encontro da penúria com a ostentação do país; as novelas, a opulência dos famosos, as modas cariocas. Para adolescentes sedentos de alguma esperança, é a única referência da vida que julgam feliz e desejável.

Vítimas da ignorância que resulta nos tradicionais votos de cabresto, as pessoas não enxergam as próprias carências; “vamos levando, meu doutor” – dizem. Para anestesiá-las, abrem-se as portas das igrejas bregas e luxuosas; políticos acenam com promessas de prosperidade e justiça social enquanto se enriquecem, impassíveis.

Amigos baianos afirmam que a corrupção histórica continua imbatível. Governantes e cúmplices fazem prevalecer a lei do atraso: mantenham tudo como está, não mexam em nada. Faltam saúde, educação, dignidade – mas sobram tolerância e pactos estratégicos de governabilidade com o crime. Um posto policial construído com doações de moradores num condomínio familiar próximo a Barra Grande tornou-se inútil pela falta de pessoal para operá-lo; os militares não apareceram, apesar dos abaixo-assinados e pedidos insistentes. Ocupado por um invasor, o imóvel é hoje um boteco que vende coco e pastéis.

O dinheiro fácil e a violência, parceiros habituais das drogas, se propagam facilmente no imenso vazio do subemprego, da falta de oportunidades, dos salários aviltantes daqueles cercados de riqueza, descaso e injustiça. Já para a grande mídia passa-pano, o motivo de a Bahia estar vivendo a guerra do tráfico é a “localização geográfica e o litoral extenso”. Gregório de Matos, que pelos idos de 1650 já satirizava “a falta de verdade, honra e vergonha”, se ouvisse isso, sacudiria os restos dos ossos, indignado.

Infelizmente, no momento em que escrevo esta coluna, os mortos chegam a 70, entre policiais e bandidos. Vale lembrar que a Bahia vem elegendo a esquerda e por ela é governada há 12 anos. Veio também desse cenário a onda de votos que elegeu o atual ocupante da Presidência. Porém, uma esperança: Caetano Veloso – que mora no Rio e passeia por Roma – está rezando pela paz na terra do Senhor do Bonfim e até pedindo orações pessoalmente ao papa. Milagres imediatos vindos do Vaticano devem ser raros – mas, em todo caso, oremos também.

Fonte: O Tempo

Fernando Fabbrini

Escritor e colunista de O TEMPO

Escritor e colunista de O TEMPO

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