23 de abril de 2024
Colunistas Fernando Fabbrini

E dá-lhe burrice

A inteligência engatou a marcha à ré.

Foto: Editoria de Arte

Outro dia escrevi aqui sobre sinais de idiotice crescente da humanidade, e a repercussão do texto me surpreendeu. Afinal, é sempre bom saber que muita gente pensa como nós e que não estamos sozinhos nessa contemplação da burrice que galopa desarvorada por aí.

Creio que “inteligência” é uma coisa muito sutil, complexa e variada para ser enquadrada em certos parâmetros. James Flynn, estudioso da inteligência, percebeu que os famosos testes de Q.I. eram revisados apenas a cada 25 anos. Intrigado, deduziu que, se um cidadão mediano fizesse o primeiro teste quando de sua criação, certamente acumularia 130 pontos – escore geralmente atribuído a um gênio como Einstein. Porém, se um teste de hoje fosse aplicado a um americano daquela época, sua pontuação seria em torno de 70, resultado das pessoas ignorantes segundo o método.

O sistema parece meio confuso para nós, leigos, mas o assunto é o alarmante avanço da burrice. Mr. Flynn, falecido em 2020, já percebera que o Q.I. médio da população mundial – que manteve um aumento desde 1945 até em torno do ano 2000 – vinha caindo fragorosa e assustadoramente nos últimos 20 anos. Quem se debruça sobre o fato aponta prováveis causas para a triste constatação. Uma delas, com certeza, é o empobrecimento da linguagem.

Quando lemos, nosso cérebro inicia um trabalho sofisticadíssimo em centésimos de segundos. Em primeiro lugar, o cérebro identifica os estímulos visuais dos sinais gráficos – as letras –, decodifica-os e estabelece relações de lógica e conectividade. Na sequência, nosso cérebro “interpreta” (reconstrói o sentido de cada palavra colocada junto à outra); “elabora” (une o sentido de cada período ao anterior) e finalmente “associa” o conteúdo geral ao contexto, baseado em nossa memória, capacidade lógica, informação e cultura geral.

Esse exercício diário dos neurônios é parecido com malhar numa academia; exige tempo e constância para dar resultados. Quanto menos a pessoa lê, mais preguiçosos, barrigudos e sonolentos ficam o tico e o teco. A chamada “cultura digital” é uma das causadoras desse dano crescente, tendo como comparsas os computadores e celulares.

Crianças e adolescentes formam o grupo das maiores vítimas da explosão de ignorância do milênio. Abreviaturas, códigos simplórios, “emojis” são típicos frutos da lerdeza mental. Músicas de dois acordes e letras obtusas também contribuem para a lassidão dos tecidos nobres. Pensamentos mais complexos e sofisticados nascem de requintes, nuances e criatividade na narrativa. Sem eles, seguimos atrelados ao ambiente restrito da estupidez.

Linguistas afirmam que a moda de excluir os tempos verbais – subjuntivo, imperfeito, particípio passado – restringe o pensamento ao presente e impede projeções no tempo. Temos aí a obediente burrice amarrada num poste do pequeno pasto do imediatismo. E também a explicação para o sucesso de alguns “influencers”, com milhares de seguidores. Vale lembrar que seguir alguém é aceitá-lo como dono da verdade – e abster-se de pensar por conta própria, refletir, questionar. Depois de Descartes – “Penso, logo existo” –, parece que alcançamos a máxima “Acredito, logo estou certo”, estultice que vai ganhando milhares de adeptos, sobretudo entre os jovens.

São esses defensores da “novilíngua” os mesmos adeptos da necessidade de simplificar a grafia, eliminar “complicações”; abolir gêneros, tempos verbais, metáforas, eufemismos – enfim, tudo que lhes pareça “difícil”. Com poucas palavras para exprimir uma ideia ou proposta, a comunicação torna-se medíocre, rasteira e fácil de ser vigiada.

Nos filmes e nos quadrinhos há sempre aqueles vilões que sonham em dominar o mundo com suas inteligências voltadas para o mal. Tudo indica que eles se materializaram e devem andar por aí, disfarçados de modernos, práticos e revolucionários, a serviço sabe-se lá de quem e de quê.

Fonte: O Tempo

Fernando Fabbrini

Escritor e colunista de O TEMPO

Escritor e colunista de O TEMPO

    1 Comentário

    • Rute Abreu de Oliveira Silveira 8 de março de 2024

      Perfeito o seu texto, Fernando.
      O mundo está enlouquecendo e emburrecendo. O descaso com a nossa Língua Portuguesa é um dos muitos fatores responsáveis por isso.
      É assustador constatar dia após dia esse empobrecer do ser humano.

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