24 de abril de 2024
Colunistas Fernando Fabbrini

Deixem as estátuas

E guardem bem as lições da história.

Foto: Acir Galvão

“A Batalha pela Espanha” é mais uma excelente obra de Antony Beevor, autor britânico especialista em conflitos mundiais e suas causas. Neste livro Beevor analisa com profundidade o cenário conturbado do país ibérico nos anos 1930; o acirramento entre um punhado de forças de esquerda, centro e direita que acabaram se engalfinhando numa chacina mútua ao longo de três anos. Além do colossal desastre humano, a guerra civil deixou ainda mais dividido e miserável o país mais atrasado da Europa daquela época e que alcançara os limites da degradação social e econômica no infeliz reinado de Afonso XIII.

Apaixonado pela Espanha, morei e trabalhei em Madri anos atrás. Acompanhei de perto a difícil transição daquele povo para um sistema democrático – estabelecendo pactos, apaziguando velhos ódios e dissuadindo radicais. Há pouco, numa notícia de poucas linhas, leio que foi removida a última estátua do caudilho Francisco Franco que jazia empoeirada numa região autônoma espanhola.

Recentemente, em outros países, ativistas destruíram monumentos de personalidades cujas biografias os incomodavam. Ações assim ganham aplausos nas redes sociais; porém é apenas mais uma firula midiática. Aqui se encaixa bem o célebre argumento do madrileno Ortega y Gasset: “Eu sou eu e as minhas circunstâncias”. Se no passado, sob determinados cenários ou movido por convicções, fulano fez isso ou aquilo, tais atos são referências importantes para nossas reflexões e aprendizados. Ora: a história não se escreve de marcha à ré; impossível apagar episódios demolindo pedestais. Isso só repete a estupidez do rei Dario III da Pérsia, que matava mensageiros que lhe traziam más notícias – em vez de ouvi-las, rever estratégias e agir melhor.

Em 1521, na ilha filipina de Mactán, soldados da armada de Fernão de Magalhães, tendo à frente o próprio, brigaram nas praias contra nativos chefiados por Lapu-Lapu, líder tribal. O explorador combatia em nome do rei da Espanha; o cacique defendia a aldeia da invasão estrangeira. Antonio Pigafetta, escrivão da esquadra, no seu “Relazione del Primo Viaggio Intorno al Mondo”, de 1525, narra os detalhes horripilantes da refrega que terminou em carnificina: Lapu-Lapu e Magalhães morreram e foram esquartejados; poucos sobraram.

Pois bem: os espanhóis construíram ali um memorial com a placa: “Aqui, em 27 de abril de 1521, o grande navegador português Hernando de Magallanes, a serviço do rei de Espanha, foi assassinado por nativos filipinos”. No mesmo local, a poucos metros, ergue-se uma estátua de Lapu-Lapu: “Aqui, em 27 de abril de 1521, o grande chefe Lapu-Lapu repeliu o ataque do invasor Hernando de Magallanes, matando-o e expulsando suas forças”. Portanto, atenção: é desse jeito que as histórias são contadas e as estátuas erigidas.

Fatos históricos têm características e contextos próprios, impossível anulá-los ou enfeitá-los. Sejam edificantes ou vergonhosos, deprimentes ou alentadores, através deles cabe-nos aprender com atenção e humildade. Derrubar estátuas é somente um exibicionismo frívolo de certas agendas progressistas que fazem muito barulho no universo digital – mas não alteram absolutamente nada na vida real, para frustração dos partidários da atitude pueril.

Antony Beevor encerra seu livro com um parágrafo interessante: “Tal como outras, a guerra civil espanhola foi o choque de crenças, de ferocidades; generosidades e egoísmos; hipocrisias e traições; retratos da bravura e do sacrifício daqueles que lutaram de ambos os lados movidos por seus idealismos. Conclusões são sempre tendenciosas, fáceis e convenientes, dependendo de quem as relata. A história, que nunca é justa, deve sempre terminar com perguntas”.

Fonte: O Tempo

Fernando Fabbrini

Escritor e colunista de O TEMPO

Escritor e colunista de O TEMPO

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