24 de abril de 2024
Colunistas Fernando Fabbrini

A que pariu

Calma, muita calma; não estou xingando ninguém.

Foto: Hélvio

Perdão, leitores que se espantaram com o título. O verbo “parir”, em vez de expressar o evento biológico primordial dos seres vivos, ganhou espaço na velha ofensa herdada dos portugueses. O palavrão pode ter nascido de uma bronca de Cabral ao ouvir de um marujo sindicalista preguiçoso uma exigência de aumento exorbitante de salário ou de mais dias de folga para beber cachaça e transar com as nativas brasileiras. Ora, pois: berrada com sotaque luso, a resposta “vá para a… ” ganha ainda mais sonoridade e robustez.

Porém, na sua graça e mistério, parir é um evento sublime. Desde que o mundo é mundo fêmeas concebem, geram e dão à luz suas crias. Nesse instante completa-se o ciclo divino da natureza, iniciado sempre por dois protagonistas: o macho, presente no ato ou em modo remoto, fornecendo a semente imprescindível; e a fêmea, que carinhosamente a absorve, nutre e faz crescer uma nova vida – intocável – no próprio ventre. O milagre carrega uma bela lição de humildade, uma rasteira nos egos inflados: ninguém concebe, gera e dá à luz sem contribuição de outro ser da polaridade oposta.

Ah, sim: a ciência registra casos raros de partenogênese – a autofecundação –, mas somente em alguns organismos primários, como águas-vivas, esponjas, estrelas-do-mar e dragões-de-komodo solitários que não arrumam cônjuges após disputas de acasalamento. Esse bicho dá pena, coitado. Desconjuntado, malcheiroso e bravo, a fera ainda tem veneno nas presas. Ataca, morde a vítima e deixa-a partir, aguardando que sua peçonha faça efeito para depois devorá-la, já putrefata. Deve mesmo ser difícil namorar alguém feio, briguento, que sai por aí mordendo, espalhando veneno e comendo carniça. Imaginem o mau hálito?

Numa postagem nas redes sobre o puerpério – fase posterior ao parto –, o Ministério da Saúde resolveu trocar a palavra “mãe” por “pessoa que pariu”. E assim nasceu mais um dos filhotes bizarros dos dragões-de-komodo esquerdistas, dos burocratas lacradores e da agenda “woke”, que querem impingir-nos os “todes” e outras tentativas ridículas e inúteis de rejeitar a natureza e mudar o mundo em função de gostos e chiliques particulares.

E o transtorno que a novidade causaria? Não teríamos Dia das Mães, mas “Dia da Pessoa que Pariu”. Pobres publicitários e suas campanhas! “Neste domingo, vá para quem te pariu e leve um presente”. E nas letras de música? O que seria do sucesso do Erasmo? “Ei, pessoa que me pariu/Não sou mais menino/Não é justo que você também queira parir meu destino/Você já fez a sua parte me pondo no mundo/Que agora é meu dono, pessoa que me pariu”. E o clássico “Mamma Mia”, do ABBA? “Person of mine who gave birth to me”? Ó, céus! Danou-se a métrica, a prosódia, a poesia.

Estou só zoando, lógico, vale se divertir; não há outra saída diante de tamanha aberração gramatical. Nascido homem de uma mãe que deu à luz mais quatro mulheres e criou-nos com muito afeto e puxões de orelha quando necessários, mantenho profundo respeito e carinho por essas inigualáveis criaturas dotadas naturalmente de útero e ovários, que, quando por liberdade e desejo, concebem, geram e dão à luz – decisão amorosa, extenuante e merecedora de eternos agradecimentos.

Pensando na modesta, mas essencial contribuição dos machos e na cômica nomenclatura do Ministério da Saúde – “pessoa que pariu” –, fica difícil acreditar que os criadores de tal termo – ou, melhor, “pessoas que querem fazer média com minorias” – tenham sido fruto de espermatozoides mais ágeis e capacitados que os demais. Caramba! Imaginem os atributos dos milhares que ficaram para trás?

Fonte: O Tempo

Fernando Fabbrini

Escritor e colunista de O TEMPO

Escritor e colunista de O TEMPO

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